Capítulo 13 de 28 · Edição 3.0 · Português Brasileiro Simples

Que a mão esquerda não saiba o que faz a direita

Caridade sem ostentação e ajuda verdadeira a quem precisa.
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Fazer o bem sem exibição — Sofrimentos que passam despercebidos — A pequena oferta da viúva — Ajudar quem não pode retribuir — Caridade? material e moral — Compaixão — Crianças sem pais — Ingratidão — Caridade? sem distinção de crença ou grupo.

Fazer o bem sem exibição

1. Jesus ensina que uma boa ação não deve ser feita apenas para conquistar admiração. A imagem “que a mão esquerda não saiba o que faz a direita” representa uma ajuda discreta, sem transformar a necessidade do outro em publicidade para quem ajuda. (Mateus 6:1-4)

2. Depois de curar uma pessoa com lepra, Jesus pede que ela cumpra o procedimento previsto pela lei de Moisés, mas não transforme o episódio em divulgação pessoal. A passagem é usada por Kardec como exemplo de fazer o bem sem procurar fama. (Mateus 8:1-4)

3. Fazer o bem sem exibição exige abrir mão do prazer de receber elogios. A pessoa ajuda porque reconhece uma necessidade, e não porque deseja que todos saibam que foi generosa.

Quando a ajuda só acontece se houver fotografia, anúncio, homenagem ou reconhecimento, existe o risco de a necessidade do outro virar instrumento para alimentar vaidade. Visibilidade pode ser útil para mobilizar recursos, mas não deveria ser a verdadeira motivação da caridade?.

“A mão esquerda não saber o que faz a direita” é uma metáfora para discrição. Também existe falsa modéstia: esconder aparentemente a ajuda enquanto se cria uma maneira indireta de garantir que todos saibam quem ajudou.

Se a única recompensa buscada era ser visto e elogiado, essa aprovação? pública já foi a recompensa. O ensinamento convida a encontrar valor no próprio bem realizado, mesmo quando ninguém conhece seu autor.

Cobrar gratidão de alguém que recebeu ajuda também pode transformar o benefício em humilhação. Quem ajuda não deveria usar depois essa ajuda como forma de controle, dívida emocional ou prova de superioridade.

Uma boa ação perde parte de seu sentido quando é constantemente lembrada para ferir quem precisou dela. A pessoa beneficiada não deveria carregar vergonha por ter passado por uma necessidade.

Caridade? discreta protege não apenas o corpo, mas também a dignidade. Algumas pessoas aceitam ajuda com dificuldade porque temem exposição ou humilhação. Oferecer apoio de maneira respeitosa pode tornar possível aquilo que uma abordagem agressiva faria a pessoa recusar.

A verdadeira caridade? procura palavras e atitudes que deixem a pessoa à vontade. Necessidade já produz sofrimento suficiente; a ajuda não deveria acrescentar vergonha, julgamento ou constrangimento.

Uma forma elevada de generosidade é fazer com que quem recebe continue se sentindo participante da relação, e não inferior. Às vezes quem ajuda pode até agradecer pela confiança e pela oportunidade de ser útil.

Os sofrimentos escondidos

4. Grandes tragédias mobilizam doações e atenção, mas existem dificuldades silenciosas todos os dias: pessoas doentes, famílias sem recursos, idosos isolados e outros sofrimentos que não aparecem nas notícias. A caridade? também precisa aprender a perceber essas necessidades discretas.

Kardec apresenta o exemplo de uma mulher que visita em silêncio uma família em grande dificuldade. Ela chega sem luxo e sem transformar a visita em espetáculo. Sua presença traz alívio material e emocional.

Ela leva alimento, roupas, cuidado e palavras de conforto. O pai está hospitalizado e a mãe não consegue, naquele momento, atender sozinha todas as necessidades dos filhos. A ajuda tenta preservar a rotina e a dignidade da família.

Depois, visita o pai no hospital para tranquilizá-lo. Não pergunta qual religião a família segue antes de ajudar. Para ela, a necessidade humana vem antes das diferenças de crença.

A mulher se veste de forma simples para não aumentar o contraste com a pobreza encontrada. Leva a filha para que ela aprenda, pelo exemplo, que caridade? é uma prática e não apenas uma ideia.

A filha pergunta como pode ajudar se ainda não possui dinheiro próprio. A mãe ensina que servir também é dar: visitar, cuidar, fazer trabalhos úteis e usar tempo e habilidades em benefício de alguém são formas reais de caridade?.

A história não considera importante saber se essa mulher se identificava como espírita. O valor está na atitude de viver a caridade? ensinada por Jesus.

Mesmo ocupando posição social privilegiada, ela mantém suas boas ações em silêncio. Quando alguém tenta reconhecê-la publicamente, pede discrição. O exemplo reforça a ideia de ajudar sem usar o sofrimento alheio para construir reputação.

A pequena oferta da viúva

5. Jesus observa pessoas colocando dinheiro nas ofertas. Alguns ricos dão grandes quantias; uma viúva pobre oferece apenas duas pequenas moedas. Jesus diz que, proporcionalmente, ela deu mais, porque os outros ofereceram parte da sobra, enquanto ela dividiu aquilo que fazia falta. (Marcos 12:41-44; Lucas 21:1-4)

6. Muitas pessoas reclamam de não poder fazer todo o bem que gostariam, por falta de recursos financeiros, e quando desejam a fortuna, dizem, é para fazer dela um bom uso. A intenção é louvável, sem dúvida, e talvez muito sincera em alguns casos, mas o seria da parte de todos, assim completamente desinteressados?

Não há quem, desejando beneficiar aos outros, se sentiria bem de começar a fazer por si mesmo, concedendo-se algumas satisfações a mais, um pouco do que é além do necessário que lhe falta, dando o restante aos pobres? Essa segunda intenção, dissimulada talvez, mas que encontrariam no fundo de seus corações, se o sondassem, anula o mérito da intenção, pois a verdadeira caridade? pensa nos outros antes que em si mesmo.

O sublime da caridade?, nesse caso, seria buscar cada qual no seu próprio trabalho, pelo emprego de suas forças, de sua inteligência, de seu talento, os recursos que lhe faltam para realizar suas intenções generosas. Este seria o sacrifício mais agradável ao Senhor. Infelizmente, a maioria sonha com meios mais fáceis de enriquecer, rapidamente e sem sacrifícios, correndo atrás de ilusões, como descobertas de tesouros, uma chance aleatória favorável, o recebimento de heranças inesperadas etc. O que

dizer daqueles que esperam encontrar, para ajudá-lo nas buscas dessa natureza, auxiliares entre os Espíritos? Certamente eles não conhecem e nem compreendem o objetivo sagrado do Espiritismo, e ainda menos a missão dos Espíritos, a quem Deus permite comunicarem-se com os homens.

Mas justamente por isso, são punidos pelas decepções. (O Livro dos Médiuns, no 294, 295.) Aqueles, cuja intenção é isenta de qualquer interesse pessoal, devem consolar-se com a impossibilidade de fazer todo o bem que gostariam, lembrando que a pequena oferta do pobre, que doa mesmo se privando, pesa mais na balança de Deus que o ouro do rico, que dá sem abrir mão de nada.

A satisfação seria grande, sem dúvida, de poder socorrer largamente a pobreza; mas, se isso é impossível, é preciso submeter-se e fazer o que se pode. Além disso, não é somente com o ouro que se podem enxugar as lágrimas, e devemos ficar parados só porque não o possuímos? Aquele que deseja sinceramente tornar-se útil aos seus irmãos encontra mil oportunidades para tanto, bastando procurar para encontrá-las.

Se não for de uma maneira, será de outra, pois não há ninguém que, estando em pleno alegria de suas faculdades, não possa prestar algum serviço, dar um consolo, amenizar um sofrimento físico ou moral, tomar uma providência? útil. Na falta de dinheiro, cada um não tem o seu tempo, o seu repouso, dos quais pode oferecer um pouco? Isso também é a ajuda material do pobre, a pequena oferta da viúva.

Acolher quem precisa de ajuda

7. “E dizia também àquele que O convidou: Quando convidares alguém para o jantar ou a ceia, não convides nem seus amigos, nem seus irmãos, nem seus pais, nem seus vizinhos ricos, para que não suceda que também eles te convidem e que assim retribuam o que receberam de ti. Mas quando derem um festim, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e será bem-aventurado, pois eles não terão meios de te retribuir o convite; mas isso te será recompensado no Reino de Deus.” (Lucas, XIV: 12-15)

8. “Quando fizeres uma festa”, diz Jesus, “não convidem os seus amigos, mas os pobres e as pessoas com limitações físicas”. Estas palavras, absurdas, se as tomarmos ao pé da letra, são sublimes se nelas procurarmos o sentido.

Jesus não pode ter querido dizer que, em lugar de seus amigos, é preciso reunir à mesa os mendigos da rua. Sua linguagem era quase sempre figurada, e aos homens incapazes de compreender as nuanças delicadas do pensamento, seria preciso imagens fortes, produzindo o efeito de cores berrantes. O sentido de Seu pensamento se revela nestas palavras: “Será feliz pois eles não terão meios de te retribuir”; quer dizer que não se deve fazer o bem em vista de um retorno, mas pelo único prazer de fazê-lo.

Para fazer uma comparação mais clara, Ele diz: Convida para a sua festa os pobres, pois sabe que aqueles nada poderão te retribuir. Por festa deve-se entender não a refeição propriamente dita, mas a participação na abundância que usufruis. Estas palavras podem, porém, também receber sua aplicação num sentido mais literal. Quantas pessoas não convidam para a mesa somente aqueles que lhes podem, como dizem, honrar ou convidá-los, por sua vez!

Outros, ao contrário, encontram satisfação em receber os seus pais ou amigos que são menos felizes. Ora, quem não os tem entre os seus? É, algumas vezes, prestar-lhes um enorme serviço de forma discreta. Aqueles, sem recrutar os cegos e as pessoas com limitações físicas, praticam a máxima de Jesus, se o fazem por bondade, sem exibição, e se sabem disfarçar a boa ação por uma sincera cordialidade.

Instruções dos Espíritos

A caridade? material e a caridade? moral

Irmã Rosália - Paris, 1860

9. “Amemo-nos uns aos outros e façamos aos outros o que quereríamos que nos fizessem.” Toda a religião, toda a moral, se encerram nestes dois ensinamentos. Se eles fossem seguidos na Terra, seriam todos perfeitos.

Não haveria ódios, ressentimentos - eu diria mais - não haveria pobreza, pois, do que é além do necessário da mesa de cada rico, muitos pobres se alimentariam e vocês não veriam mais, nos sombrios bairros em que morei durante a minha última encarnação?, pobres mulheres levando consigo miseráveis filhos carentes de tudo. Ricos!

Pensem um pouco nisso, ajudem o melhor possível os infelizes, deem, para que Deus lhes retribua um dia o bem que houverdes feito; para que encontrem, ao sair de seu envoltório terreno, um cortejo de Espíritos reconhecidos, que lhes receberão no limiar de um mundo mais feliz. Se pudessem saber a alegria que experimentei, reencontrando no além aqueles a quem pude beneficiar em minha última existência!

Amem, pois, ao seu próximo, amem-o como a vocês mesmos, pois sabem, agora, esse infeliz que repelis é, talvez, um irmão, um pai, um amigo que afastam para longe. E, então, qual não será o seu desespero, ao reconhecê-lo no mundo dos Espíritos! Quero que compreendam bem o que pode ser a caridade? moral, essa que todos podem praticar, que materialmente nada custa e, porém, é a mais difícil de se praticar.

A caridade? moral consiste em lhes suportarem uns aos outros, e é o que menos fazem nesse mundo inferior, em que estão momentaneamente encarnados. Há um grande mérito, acreditem-me, em saber calar para deixar falar um mais tolo do que vocês, e é também um gênero de caridade?.

Saber ser surdo quando uma palavra irônica escapar de uma boca habituada a escarnecer; não ver o sorriso desdenhoso com que lhes recebem as pessoas que, muitas vezes, erradamente, se julgam superiores a vocês, enquanto que, na vida espiritual - a única verdadeira - elas estão, muitas vezes, bem longe disso. Aí está um mérito, não de humildade, mas de caridade?, pois não se incomodar com a faltas alheias é caridade? moral.

Mesmo assim, essa caridade? não deve impedir que se pratique a outra; mas pensem sobretudo em não desprezar o seu semelhante. Lembrem-se de tudo o que já lhes disse: é preciso sempre recordar que no pobre repelido pode estar, talvez, um Espírito que lhes foi caro, e que se encontra, momentaneamente, numa posição inferior à sua. Eu revi um dos pobres de sua Terra a quem pude, felizmente, beneficiar algumas vezes, e a quem me cabe agora pedir ajuda, por minha vez.

Lembrem-se de que Jesus disse que somos todos irmãos e pensem sempre nisso, antes de afastar o pessoa com lepra ou o mendigo. Adeus, pensem naqueles que sofrem e orem.

Um Espírito Protetor - Lyon, 1860

10. Meus amigos, tenho ouvido muitos dentre vocês dizerem: Como posso fazer a caridade?? Normalmente, não tenho nem o necessário! A caridade?, meus amigos, se faz de muitas formas. Podem fazer a caridade? em pensamentos, palavras e ações. Em pensamentos, orando pelos pobres abandonados, que morreram sem sequer terem visto a luz; uma prece do coração os alivia. Em palavras, dirigindo aos seus companheiros de todos os dias alguns bons conselhos.

Digam aos homens amargurados pelo desespero, pelas dificuldades materiais, e que blasfemam contra o nome do Altíssimo: “Eu era como vocês; sofria, era infeliz, mas acreditei no Espiritismo e vejam, eu sou feliz agora”. Aos idosos que lhes disserem: “É inútil, estou no fim da vida, morrerei como vivi”, respondei que a justiça de Deus é igual para todos, “lembrem-se dos trabalhadores da última hora”.

Aos pequenos que, já viciados pelas más companhias, perdem-se pelos caminhos do mundo, prestes a sucumbir às más tentações, digam-lhes: “Deus lhes vê, meus queridos filhos”, e não temam repetir, frequentemente, essas doces palavras, que acabarão por germinar nas suas inteligências jovens e, em lugar de pequenos vagabundos, terão feito homens. Isso também é uma caridade?.

Muitos dentre vocês dizem assim: “Nós somos muitos na Terra, Deus não nos pode ver a todos”. Escutem bem isto, meus amigos: quando estão sobre o cume de uma montanha, o seu olhar não abarca milhares de grãos de areia que a cobrem? Muito bem! Deus lhes observa da mesma maneira. Ele lhes deixa o livre- arbítrio, como também deixam esses grãos de areia ao sabor do vento que os dispersa. Mas Deus, em Sua misericórdia infinita, colocou no fundo de seus corações uma sentinela vigilante, que se chama consciência.

Escutem-a, ela somente lhes dará bons conselhos. Algumas vezes conseguis entorpecê-la, opondo-lhe o espírito do mal e, então, ela se cala; mas estejam certos de que a pobre relegada se fará ouvir assim que a deixarem notar a sombra do remorso. Escutem-a, interrogai-a, e frequentemente, encontrarão o consolo através dos seus conselhos. Meus amigos, a cada novo regimento, o general envia uma bandeira. Eu lhes dou esta máxima do Cristo: “amem uns aos outros”.

Praticai esta máxima: reuni-se ao redor desse estandarte e dele receberão a felicidade e a consolação.

A ajuda ao próximo

Adolfo, Bispo de Argel - Bordeaux, 1861

11. A ajuda ao próximo, meus amigos, lhes dará neste mundo a mais pura e a mais doce das alegrias: as alegrias do coração, que não são perturbadas nem pelos remorsos, nem pela indiferença. Ah! pudessem compreender tudo o que encerra de grande e de agradável a generosidade das belas almas, esse sentimento que faz que se olhe aos outros com o mesmo olhar com que se vê a si mesmo, e que se despoja com alegria para cobrir o seu irmão.

Pudessem, meus amigos, não terem uma mais doce ocupação que a de fazer aos outros felizes!

A mensagem descreve a alegria de levar alimento e esperança a famílias que estavam sem o necessário. O contraste com festas luxuosas serve para dizer que existe uma satisfação profunda em ver o sofrimento concreto diminuir.

O convite é procurar especialmente as necessidades que não fazem barulho. Alimentar, vestir, visitar, escutar e proteger alguém vulnerável são apresentados como formas de servir ao próprio Cristo.

Caridade? é apresentada como uma virtude que reúne várias outras. Quem a pratica constrói paz interior agora e, na visão espiritual da mensagem, valores que continuam depois da vida corporal.

Ao perceber a própria dificuldade, a mensagem também convida a olhar ao redor e notar pessoas sem família, idosos isolados e crianças sem apoio. Reconhecer o sofrimento alheio pode transformar revolta em solidariedade concreta.

Compartilhe tempo, afeto, conhecimento e recursos quando puder. O texto afirma que a alegria produzida pela solidariedade pode ser uma das formas mais profundas de satisfação na vida presente.

São Vicente de Paulo - Paris, 1858

12. São Vicente de Paulo resume: sejam bons, ajudem seus irmãos e combatam o egoísmo. A felicidade espiritual é associada à capacidade de sair do próprio centro e participar da melhoria da vida de outras pessoas.

Muitas pessoas sentem emoção diante de exemplos verdadeiros de dedicação. A mensagem pede que essa emoção vire ação, e não permaneça apenas como admiração pelo bem feito por outros.

O Evangelho é apresentado como um guia prático que perde sentido quando é apenas lido e não aplicado. A mensagem convida a voltar aos ensinamentos de Jesus sobre amor, renúncia ao egoísmo e cuidado com o próximo.

A mensagem encoraja pessoas com diferentes forças e capacidades a participar do bem. Persuasão, constância, doçura e fé podem ser usadas como instrumentos de transformação sem violência.

Caridade? é tratada como base de outras virtudes porque dá direção ao conhecimento, à fé e à esperança. Sem preocupação real com o outro, qualquer discurso espiritual fica incompleto.

A mensagem apresenta a caridade? como expressão da própria bondade divina e recorda obras de assistência inspiradas por esse princípio, sem transformar o autor da obra em centro da atenção.

Conhecimento, organização e boa vontade podem ser unidos para criar redes de cuidado. Pessoas diferentes podem continuar uma obra de solidariedade sem depender de uma única figura.

A recompensa mais imediata da caridade? é o próprio efeito de praticá-la: aliviar uma necessidade, criar vínculo e saber que algo ficou melhor porque escolhemos agir.

Cárita, martirizada em Roma - Lyon, 1861

13. A mensagem personifica a Caridade? e descreve quantas mães, crianças, idosos e famílias vivem situações de necessidade. O objetivo é despertar sensibilidade sem transformar essas pessoas em objetos de pena.

Palavras de esperança ajudam, mas não substituem alimento, moradia, cuidado e recursos concretos. A própria mensagem reconhece isso ao perceber que consolo espiritual não mata a fome.

O texto descreve mães sem alimento suficiente e idosos sem trabalho ou abrigo, lembrando que muitas pessoas têm vergonha de pedir ajuda mesmo quando precisam muito dela.

A mensagem pede iniciativa: não esperar sempre que uma pessoa vulnerável tenha de se expor para pedir socorro. Quem percebe uma necessidade pode procurar uma forma respeitosa de oferecer apoio.

A imagem de uma árvore carregada de frutos representa a ajuda ao próximo como algo que se multiplica quando é compartilhado.

Cada boa ação seria um novo fruto nessa árvore simbólica. A mensagem encerra convidando as pessoas a participar ativamente da caridade?.

Cárita - Lyon, 1861

14. Há várias maneiras de se fazer a caridade?, e que muitos de vocês confundem com a ajuda material. Há, porém, uma grande diferença entre elas. A ajuda material, meus amigos, é algumas vezes útil, pois ela alivia os pobres; mesmo assim, é quase sempre humilhante, tanto para aquele que a dá quanto para quem a recebe. A caridade?, ao contrário, liga o benfeitor e o beneficiário e, além disso, ela se disfarça de muitas maneiras! Pode-se praticar a caridade? mesmo entre familiares e amigos, sendo compreensivos uns para com os outros, perdoando-se as fraquezas mútuas, tendo o cuidado para não ferir o orgulho pessoal de ninguém.

Para vocês, espíritas, na sua maneira de agir em relação àqueles que não pensam como vocês, levando os menos esclarecidos a crer, sem os chocar, sem afrontar as suas crenças, mas levando-os amigavelmente às reuniões, nas quais poderão ouvir-nos e onde saberemos encontrar a brecha que nos permitirá penetrar nos seus corações. Esta é uma forma de caridade?.

Escutem agora o que é a caridade? para com os pobres, esses excluídos da Terra, mas recompensados por Deus, se souberem aceitar as suas misérias sem se lamentar, o que depende de vocês. Vou-me fazer compreender com um exemplo: Vejo, muitas vezes, na semana, uma reunião de senhoras, de todas as idades. Para nós, como o sabem, são todas irmãs. Que fazem elas? Elas trabalham rápido, os dedos são ágeis. Vejam também os rostos, radiantes. E como os seus corações batem em uníssono! Mas qual é o seu objetivo?

Elas veem chegar o inverno que será rude para as famílias pobres. As formigas não puderam acumular, durante o verão, os grãos necessários à provisão e a maior parte dos utensílios está empenhada. As pobres mães se inquietam e choram, pensando nos pequeninos que, nesse inverno, sofrerão frio e fome! Mas, paciência, pobres mulheres!

Deus inspirou a outras, mais afortunadas do que vocês. Elas se reuniram e lhes confeccionam pequenas roupas. Assim, quando a neve cobrir a Terra e murmurardes, dizendo: “Deus não é justo!” - pois esta é uma expressão comum nos seus períodos de sofrimento - verão aparecer um dos mensageiros dessas bondosas trabalhadoras, que se constituíram em operárias dos pobres.

Sim, é para vocês que elas trabalham assim, e sua lamentação se transformará em bênçãos, pois nos corações dos infelizes, o amor segue de bem perto o ódio. Como todas essas trabalhadoras necessitam de estímulo, vejo as comunicações dos Bons Espíritos lhes chegar de todas as partes.

Os homens que participam desta sociedade trarão também o seu concurso, fazendo uma dessas leituras que agradam tanto; e nós, para recompensar o zelo de todos e de cada um em particular, prometemos a essas trabalhadoras laboriosas uma boa clientela, que lhes pagará em moeda sonante de bênçãos, a única moeda que circula no Céu, assegurando-lhes, além disso, e sem medo de nos enganarmos, que ela não lhes faltará.

Um Espírito Protetor - Lyon, 1861

15. Meus caros amigos, todos os dias ouço alguns de vocês dizerem: “Eu sou pobre, não posso fazer caridade?”. E todos os dias lhes vejo faltar com a compreensão para com as outras pessoas. Não lhes perdoam coisa alguma e lhes transformam, muitas vezes, em juízes bem severos, sem lhes perguntar se estariam satisfeitos que fizessem o mesmo com vocês. A compreensão também não é caridade?? Se somente podem fazer a caridade? compreensivo, façam-a ao menos, mas façam-a com grandeza.

Para os que fazem a caridade? material, eu contarei uma história do outro mundo. Dois homens acabavam de morrer. Deus dissera: enquanto esses dois homens viverem, colocaremos em um saco cada uma de suas boas ações e, quando morrerem, pesaremos esses sacos. Quando chegou a última hora desses homens, Deus mandou que lhe levassem os dois sacos. Um estava pesado, grande, estufado, ressonando o metal dentro dele. O outro era muito pequeno, e tão fino, que se viam através do pano as raras moedas que continha.

E cada um dos homens reconheceu o que era seu. Aqui está o meu, disse o primeiro - eu o conheço; fui rico e distribuí bastante. Eis o meu, disse o outro, eu sempre fui pobre; infelizmente, não tinha quase nada para distribuir. Mas, que surpresa! Quando os dois sacos foram colocados na balança, o maior tornou-se leve, e o menor cresceu tanto, que elevou em muito o outro lado da balança.

Então, Deus disse ao rico: Deste muito, é verdade, mas deste por exibição e para ver seu nome figurando em todos os templos do orgulho, e, além disso, ao dar, não te privaste de nada; vai à esquerda e fica satisfeito, por te ser contada a ajuda material como alguma coisa. Em seguida, disse ao pobre: deste bem pouco, meu amigo, mas cada uma dessas moedas que estão na balança representa uma falta para ti.

Se não distribuíste a ajuda material, fez a caridade? e, melhor ainda, fez a caridade? naturalmente, sem te preocupares de que a levassem à sua conta. Foste compreensivo; não julgaste o seu semelhante, ao contrário, desculparam todas as suas ações. Passa à direita, e vai receber a sua recompensa.

João - Bordeaux, 1861

16. A mulher rica, feliz, que não precisa empregar o seu tempo no serviço da casa, não pode consagrar algumas horas a trabalhos úteis aos as outras pessoas? Que, com o que é além do necessário de seus gastos felizes, ela compre agasalhos para cobrir os infelizes que tremem de frio. Que ela faça, com as suas mãos delicadas, roupas grosseiras, mas quentes, que ajude uma mãe pobre a vestir o filho que vai nascer. Se o seu filho ficar com alguns tecidos a menos, o da pobre mãe terá mais calor.

Trabalhar para os pobres é trabalhar na vinha do Senhor. E você, pobre trabalhadora, que não dispões do que é além do necessário, mas que desejas, no amor por seus irmãos, dar também um pouco do que possuis, oferece algumas horas do seu dia, do seu tempo - seu único tesouro - e faça esses trabalhos elegantes que atraem os felizes, vende o produto de seus serões, e poderá também proporcionar a seus irmãos a sua parte de alívio. Terá, talvez, algumas fitas a menos, mas dará sapatos àqueles que tem os pés descalços.

E vocês, mulheres devotadas a Deus, trabalhem também para as suas obras piedosas, mas que os seus trabalhos delicados e custosos não sejam feitos apenas para ornar as suas capelas, ou para atrair a atenção sobre a sua habilidade e paciência. Trabalhem, minhas filhas, e que o resultado de seu trabalho seja consagrado ao alívio de seus irmãos em Deus. Os pobres são os Seus filhos bem-amados: trabalhar para eles é glorificá-Lo. Sejam os instrumentos da Providência?, que diz: “Às aves do céu, Deus dá o alimento”.

Que ouro e prata, tecidos pelas suas mãos, se transformem em roupas e alimentos para aqueles que não os têm. Façam isso, e o seu trabalho será abençoado. E vocês, que podem produzir, deem a sua inteligência, daí as suas inspirações, deem o seu coração, e Deus lhes abençoará. Poetas, literatos, que são lidos apenas pela gente de sociedade, satisfazei os seus sonhos, mas que o produto de algumas das suas obras seja consagrado ao alívio dos infelizes.

16. Qualquer talento pode ser compartilhado. Artistas podem doar trabalho e conhecimento; profissionais podem oferecer parte de suas habilidades; quem possui recursos pode dividir recursos. Todo mundo pode contribuir de alguma maneira, ainda que não seja com dinheiro.

Na visão espiritual da mensagem, aquilo que abrimos mão para fazer o bem não é perdido: transforma-se em valor moral e em benefício que pode alcançar outras pessoas.

A compaixão

Miguel - Bordeaux, 1862

17. Compaixão é a capacidade de ser tocado pelo sofrimento de alguém e desejar aliviar esse sofrimento. Uma palavra, presença ou ação que devolva esperança pode ter grande valor.

A alegria de ajudar nasce perto de uma situação dolorosa, por isso pode ter mistura de tristeza e satisfação. Mesmo assim, é diferente de prazeres passageiros porque está ligada a um resultado concreto na vida de alguém.

Compaixão amadurece em amor quando leva à dedicação e à disposição de sair do próprio conforto para ajudar. A mensagem apresenta Jesus como exemplo dessa caridade? ativa.

Esse sentimento ajuda a diminuir egoísmo e orgulho porque nos lembra que o sofrimento do outro não é algo completamente separado de nós.

Não fuja automaticamente de quem sofre apenas para preservar seu próprio conforto. Nem sempre poderemos resolver a situação, mas indiferença escolhida é diferente de reconhecer nossos limites.

Escutar, segurar uma mão, orientar para um recurso adequado ou oferecer ajuda concreta pode devolver coragem a uma pessoa em situação difícil.

A compaixão é apresentada como o começo da caridade?, porque primeiro percebemos a dor e depois decidimos o que podemos fazer diante dela.

Crianças sem pais ou responsáveis

Um Espírito Protetor - Paris, 1860

18. A mensagem pede cuidado especial com crianças sem pais ou responsáveis capazes de protegê-las. Alimentar, acolher, educar e oferecer segurança a uma criança vulnerável é uma forma direta de colocar a caridade? em prática.

Na visão reencarnacionista, essas crianças podem ter tido outros vínculos conosco no passado. Mesmo sem essa crença, o dever de cuidado permanece: uma criança em sofrimento tem direito a proteção e dignidade, não a uma ajuda que a faça sentir vergonha.

Ajude com delicadeza. Além do recurso material, ofereça respeito, uma palavra boa e uma postura que não coloque quem recebe em posição inferior.

Quando o bem é recebido com ingratidão

Guia Protetor - Sens, 1862

19. O que pensar de quem deixa de ajudar porque uma boa ação anterior foi recebida com ingratidão?

Se só fazemos o bem em troca de reconhecimento, nossa ajuda ainda está ligada ao próprio interesse. Gratidão é bonita, mas não deveria ser uma cobrança que transforma o beneficiado em devedor permanente.

Continue ajudando quando for possível e adequado, mesmo sabendo que nem todo mundo saberá agradecer. Uma boa ação pode produzir efeitos que não aparecem imediatamente e não dependem da reação de quem recebeu.

Às vezes avaliamos uma ajuda apenas pelo resultado imediato. A mensagem convida a considerar que mudanças importantes podem acontecer muito tempo depois.

Na visão espírita, até uma pessoa ingrata poderia compreender mais tarde o valor recebido e desejar reparar sua atitude em outra etapa da existência.

Por isso, a mensagem resume: uma boa ação nunca é completamente perdida. Ela pode beneficiar quem recebeu e também desenvolver em quem ajudou a capacidade de fazer o bem sem depender de aplauso.

A reencarnação? é usada para ampliar essa ideia: pessoas poderiam reencontrar-se em diferentes relações e continuar oportunidades de aprendizado mútuo.

Caridade? sem exclusividade

São Luís - Paris, 1860

20. A caridade? não deve ser limitada a pessoas da mesma religião, opinião política ou grupo. Se todos são irmãos, uma necessidade humana não deixa de existir porque a pessoa pensa de maneira diferente.

Socorrer alguém sem exigir mudança de consciência é uma aplicação direta do ensinamento de amar até os inimigos. Usar ajuda como instrumento de pressão religiosa ou ideológica contradiz a própria ideia de caridade? livre.

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