Capítulo 12 de 28 · linguagem simples
Amem os seus inimigos
Responder ao mal com o bem e superar a vingança e o ódio.Pagar o mal com o bem - Os inimigos desencarnados - Se alguém lhes bater na face direita, apresentai-lhe também a outra - Instruções dos Espíritos: A vingança - O ódio - O duelo.
Pagar o mal com o bem
1. “Ouviram o que foi dito: Amarás ao seu próximo e odiarás aos seus inimigos. Eu, porém, lhes digo: Amem aos seus inimigos, façam o bem àqueles que lhes odeiam e orem por aqueles que lhes perseguem e caluniam, para serem filhos de seu Pai, que está nos Céus, o qual faz nascer o sol sobre os bons e maus, e vir a chuva sobre os justos e os injustos - pois se amarem apenas aqueles que lhes amam, que recompensa terão? Os cobradores de impostos também não fazem assim? E se saudarem apenas os seus irmãos, que fazem nisso de especial? Os pagãos também não o fazem? Eu lhes digo que, se a sua justiça não for maior e mais perfeita do que a dos escribas e fariseus, não entrarão no Reino dos Céus.” (Mateus,
V:20 e 43-47)
2. “Se amarem somente os que lhes amam, que mérito terão, já que os maus também amam aqueles que os amam? E se fizerem o bem somente para aqueles que lhes fazem bem, que merecimento terão, já que os pecadores fazem a mesma coisa? E se emprestardes apenas para aqueles de quem esperais receber, que mérito terão, já que os maus se ajudam mutuamente para receber as mesmas vantagens? Mas para vocês, amem os seus inimigos, façam o bem a todos e emprestai sem nada esperar e, então, sua recompensa será muito grande e serão os filhos do Altíssimo, pois Ele é bom até mesmo com os ingratos e os maus.
Sejam, pois, cheios de misericórdia, como seu Pai também o é.” (Lucas, VI:32-36)
3. Se o amor ao próximo é o princípio da caridade, amar aos inimigos é a sua aplicação sublime, pois essa virtude é uma das maiores vitórias conquistadas sobre o egoísmo e o orgulho. Porém, geralmente nos equivocamos quanto ao sentido do verbo amar, nessa circunstância. Jesus não quis dizer que se deve ter por um inimigo a mesma ternura que se tem por um irmão ou um amigo. A ternura pressupõe confiança. Ora, não podemos confiar naquele que se sabe que nos quer mal. Não se pode ter para com ele demonstrações de amizade, porque sabemos que é capaz de abusar delas. Entre pessoas que desconfiam umas das outras, não poderia existir os impulsos de simpatia existentes entre aqueles que comungam os mesmos pensamentos. Não se pode, enfim, ter a mesma satisfação ao encontrar um inimigo, que se tem com um amigo. Esse sentimento resulta de uma lei física, a da atração e repulsão de fluidos. O pensamento malévolo emite uma corrente fluídica cuja impressão é difícil; o pensamento caridoso nos envolve com eflúvios agradáveis. Daí a diferença de sensações que experimentamos com a
aproximação de um amigo ou de um inimigo. Amar aos inimigos não pode, assim, significar que não se deve fazer nenhuma diferença entre eles e os amigos. Este ensinamento parece difícil, até mesmo impossível de praticar, porque acreditamos erroneamente que ele manda dar o mesmo lugar a ambos no coração. Se a pobreza das línguas humanas nos obriga a usarmos da mesma palavra, para expressar diversas formas de sentimento, a razão deve fazer as diferenças necessárias, segundo a situação.
Amar aos inimigos não é ter por eles uma afeição que não é natural, pois o contato de um inimigo faz bater o coração de maneira totalmente contrária ao contato de um amigo. Mas é não ter contra eles nenhum rancor nem desejo de vingança. É perdoar sem segundas intenções e incondicionalmente, o mal que nos fazem. É não colocar nenhum obstáculo à reconciliação; é desejar-lhes o bem em lugar do mal; é alegrar-nos em vez de rejeitar-nos com o bem que lhes acontece; é socorrê-los em caso de necessidade; é abster- nos, por palavras e atitudes, de tudo o que possa prejudicá-los. É, enfim, pagar-lhes o bem pelo mal, sem intenção de humilhá-los. Quem assim fizer preenche as condições do
mandamento: Amem aos seus inimigos.
4. Amar aos inimigos é um absurdo para os descrentes. Aquele para quem a vida presente é tudo, só vê em seu inimigo um ser prejudicial, a perturbar-lhe o sossego, e do qual apenas a morte pode libertar. Daí o desejo de vingança. Não há nenhum interesse em perdoar, a não ser para satisfazer o seu orgulho aos olhos do mundo. Perdoar realmente, em alguns casos, lhe parece uma fraqueza indigna de si. Se não se vingar, ainda conserva o rancor e um secreto desejo de fazer o mal.
Para aquele que crê, e principalmente para o espírita, a maneira de ver é bem outra, pois observa as coisas com o olhar no passado e no futuro, percebendo que a vida presente é apenas um momento. Pela própria destinação da Terra, sabe que nela encontrará homens maus e perversos; que a maldade à qual está exposto faz parte das provas pelas quais deve passar, e o ponto de vista elevado no qual se coloca torna-lhe as dificuldades e mudanças menos amargas, quer venham dos homens ou das coisas. Se não lamenta as provas, não deve lamentar-se daqueles que delas são os instrumentos. Se, em vez de lamentar, ele agradece a Deus por prová-lo, deve agradecer a mão que lhe fornece a ocasião de demonstrar a sua paciência e a sua aceitação serena. Esse pensamento o dispõe naturalmente ao perdão. Ele sente, além disso, que quanto mais generoso for, mais crescerá aos seus próprios olhos e mais distante estará das investidas maldosas de seu inimigo. O homem que ocupa uma posição de destaque no mundo não se ofende com os insultos daquele que é visto como seu inferior. Assim também com aquele que se eleva no mundo moral, acima da Humanidade material. Ele compreende que o ódio e o rancor
o aviltariam e o rebaixariam. Ora, para ser superior ao seu adversário, é preciso que ele tenha a alma maior, mais nobre, mais generosa.
Os inimigos desencarnados
5. O espírita tem ainda outros motivos de compreensão em relação aos seus inimigos. Ele sabe, primeiramente, que a maldade não é o estado permanente dos homens, que ela representa uma imperfeição momentânea e que, assim como a criança se corrige dos seus defeitos, o homem mau reconhecerá, um dia, os seus erros e se tornará bom. Ele sabe ainda que a morte apenas o liberta da presença material de seu inimigo, mas que este pode persegui-lo com o seu ódio, mesmo depois de haver deixado a Terra. Sabe que a vingança não atingirá o seu objetivo e, ao contrário, pode produzir uma irritação ainda maior, que se prolongará de uma existência para outra. Cabia ao Espiritismo provar, pela experiência e pela lei que regem as relações do mundo visível com o mundo espiritual, que a expressão: extinguir o ódio com o sangue é completamente falsa, pois a verdade é que o sangue conserva o ódio no depois da morte. Por isso, o Espiritismo dá uma razão de ser efetiva e uma utilidade prática ao perdão, bem como à sublime máxima do Cristo: “Amem os seus inimigos”. Não há coração, por mais perverso, que não seja tocado pelas boas ações, mesmo a contragosto. As boas ações, ao menos, não dão pretexto a represálias, e de um inimigo pode-se fazer um amigo, antes e depois da morte. Com os maus procedimentos nós o irritamos e é então que ele serve de instrumento à justiça de
Deus para punir aquele que não perdoou.
6. Pode-se, pois, ter inimigos entre os encarnados e os desencarnados. Os inimigos do mundo espiritual manifestam a sua maldade por meio das obsessões e subjugações, as quais tantas pessoas estão expostas, e que representam algumas das provas da vida. Essas provas, como as outras, ajudam no aperfeiçoamento e devem ser aceitas com aceitação serena, e como consequência da natureza inferior do globo terrestre: se não existissem homens maus na Terra, não haveria Espíritos maus ao seu redor. Se, então, deve-se ter compreensão e bondade com os inimigos encarnados, deve-se ter igualmente, com aqueles que estão desencarnados. Antigamente, sacrificavam-se vítimas para acalmar os deuses infernais, que eram os Espíritos maus. A estes sucederam os demônios, que são a mesma coisa. O Espiritismo vem provar que esses demônios não são mais do que as almas dos homens perversos, que ainda não se despojaram dos instintos materiais; que não se pode apaziguá-los senão pelo sacrifício do ódio de que são portadores; ou seja, pela caridade. Que a caridade não tem por efeito apenas impedir que se faça o mal, mas encaminhá-los para o caminho do bem e contribuir para a sua salvação. É assim que a máxima: “Amem os seus inimigos”, não está circunscrita ao
círculo estreito da Terra e da vida presente, mas integra-se na grande lei de solidariedade e de união entre irmãos universais.
Se alguém te ferir na face direita, apresentai-lhe também a outra
7. “Ouviram o que foi dito: olho por olho, dente por dente. Eu, porém, lhes digo para não resistirdes ao mal; mas se alguém lhes ferir na face direita, dá-lhe também a outra. Ao que lhes quer demandar em juízo, e lhes tomar a túnica, deem-lhe também a capa; se alguém lhes obrigar a caminhar mil passos com ele, caminhem ainda dois mil. Deem àquele que lhes pede
e nada negueis àquele que deseja que lhe empresteis.” (Mateus, V:38-42)
8. Os preconceitos do mundo, sobre o que convencionamos chamar de questão de honra, dão essa suscetibilidade sombria, nascida do orgulho e da exaltação da personalidade, a qual leva o homem a retribuir ofensa por ofensa, ofensa por ofensa; o que parece ser justo para aquele cujo senso moral não se eleva acima das paixões terrenas. Por isso a lei de Moisés dizia: olho por olho, dente por dente, lei em harmonia com o tempo em que vivia Moisés. No entanto, o Cristo veio dizer: “Pagai o mal com o bem”. E disse mais: “Não resistais ao mal que quiserem lhes fazer; mas, se alguém lhes ferir na face direita, oferecei-lhe também a outra”. Ao orgulhoso, essa máxima parece uma covardia, pois ele não compreende que há mais coragem em suportar um insulto que em se vingar; e isto, sempre, pela razão que o impede de ver além do presente. É preciso, então, tomar essa máxima ao pé da letra? Não, não mais do que aquela que diz para arrancar o olho, se ele for motivo de escândalo. Observada literalmente, seria condenar toda repressão, mesmo legal, e deixaria o campo livre aos maus, que nada teriam a temer; não se colocando um freio às agressões, logo todas as pessoas de bem seriam suas vítimas. O instinto de conservação, que é uma lei da Natureza, diz que não devemos entregar de boa vontade o pescoço ao assassino. Por essas palavras, Jesus não proibiu a defesa, mas condenou a vingança. Ao aconselhar para oferecer uma face quando a outra for batida, Ele disse, de uma outra maneira, que não devemos retribuir o mal com o mal, que o homem deve aceitar com humildade tudo o que faz rebaixar o seu orgulho, que é mais glorioso para ele ser ferido que ferir, suportar pacientemente uma injustiça que cometê-la; que mais vale ser enganado que enganar, ser arruinado do que arruinar. É, ao mesmo tempo, a condenação do duelo, simples manifestação do orgulho. A fé na vida após a morte e na justiça de Deus - que não deixa jamais o mal impune - é a única que nos pode dar a força para suportar, pacientemente, os atentados aos nossos interesses e ao nosso orgulho pessoal. É por isso que lhes dizemos sempre: Olhem para o futuro; quanto mais lhes elevarem, pelo pensamento, acima da vida material, menos serão feridos pelas coisas da Terra.
Instruções dos Espíritos
A vingança
Júlio Olivier - Paris, 1862
9. A vingança é um dos últimos marcas dos costumes bárbaros, que tendem a desaparecer dentre os homens. Ela é, como o duelo, um dos últimos marcas desses costumes selvagens em que se debatia a Humanidade, no começo da era cristã. Por isso, a vingança é um indício certo do estado atrasado dos homens que a ela se entregam e dos Espíritos que podem ainda inspirá-la. Então, meus amigos, esse sentimento nunca deve fazer vibrar o coração de qualquer um que se diga e se afirme espírita. Vingar-se é, para vocês, tão contrário a essa prescrição do Cristo: “Perdoem aos seus inimigos”, que aquele que se recusa a perdoar não somente não é espírita, como também não é cristão. A vingança é um sentimento tão nocivo quanto a falsidade e a vileza são suas companheiras constantes. Na verdade, aquele que se abandona a essa fatal e cega paixão, quase nunca se vinga de forma clara. Quando é o mais forte, age como uma fera sobre aquele que considera seu inimigo, pois basta vê-lo para que se inflamem a sua paixão, a sua raiva e o seu ódio. Mas, na maioria das vezes, ele tem uma aparência pessoa falsa, dissimulando no mais profundo do seu coração os maus sentimentos que o animam. Ele toma caminhos tortuosos, seguindo seu inimigo na sombra, sem que este desconfie, e aguarda o momento propício para feri-lo sem perigo. Escondendo-se, vigia-o sem tréguas, prepara-lhe armadilhas odiosas e, na primeira oportunidade, derrama-lhe o veneno na taça. Se o seu ódio não chega a esses extremos, ataca-o na sua honra e nas suas afeições, não recuando diante da calúnia, e suas insinuações pérfidas, habilmente semeadas em todas as direções, vão crescendo pelo caminho. Assim, quando aquele que ele persegue se apresenta no meio onde o seu sopro envenenado passou, surpreende-se em encontrar semblantes frios onde antes encontrava faces amigas e bondosos; fica surpreso quando as mãos que apertavam as suas se recusam a fazê-lo novamente. Enfim, sente-se destruído, quando os seus amigos mais caros e os parentes se desviam, dele se esquivando. Ah! O covarde que se vinga assim é cem vezes mais criminoso do que aquele que vai direto ao seu inimigo e o insulta face a face! Basta com esses costumes selvagens! Basta com os hábitos de outros tempos! Todo espírita que pretendesse, hoje, ter ainda o direito de vingar-se, seria indigno de figurar mais tempo na falange que tomou por diretriz: “Fora da caridade, não há salvação!”. Mas não, não poderia deter-me em tal ideia, a de que um membro da grande família espírita pudesse, no futuro, ceder ao impulso da vingança, em vez de perdoar.
O ódio
Fénelon - Bordeaux, 1861
10. amem uns aos outros e serão felizes. Procurem, principalmente, amar aqueles que lhes inspiram a indiferença, o ódio e o desprezo. O Cristo, de quem devem fazer o seu modelo, deu-se o exemplo dessa desapego pessoal: missionário do amor, amou até dar o Seu sangue e a Sua vida. O sacrifício que lhes obriga a amar aqueles que lhes ultrajam e perseguem é difícil, mas é, precisamente, o que lhes torna superiores a eles. Se os odiásseis como eles lhes odeiam, não valeríeis mais do que eles. É essa a hóstia imaculada que ofertais a Deus, no altar de seus corações, hóstia de fragrância agradável, cujos perfumes sobem até Ele. Apesar da lei do amor nos mandar amar indistintamente a todos os nossos irmãos, não endurece o coração contra as atitudes errôneas; é, ao contrário, a prova mais difícil. Eu o sei, já que durante a minha última existência terrestre eu provei essa tortura. Mas Deus existe e pune nesta vida e na outra, aqueles que falham na lei de amor. Não lhes esqueçam, meus queridos filhos, de que o amor nos aproxima de Deus, e o ódio nos afasta Dele.
O duelo
Adolfo, Bispo de Argel - Marmande, 1861
11. Só é verdadeiramente grande aquele que, considerando a vida como uma viagem que deve conduzi-lo a um destino certo, não se importa com as asperezas do caminho; não se desvia um instante do caminho certo; com a mente sempre dirigida para o objetivo, pouco lhe importa de que as asperezas e os espinhos da senda o ameacem, pois eles apenas se aproximam sem atingi-lo, e não o impedem de avançar. Expor seus dias para vingar-se de uma ofensa é recuar diante das provas da vida. É sempre um crime aos olhos de Deus; e se não estivessem tão envolvidos com os seus preconceitos, seria também uma suprema e ridícula loucura aos olhos dos homens. Há crime no homicídio por duelo, já que a sua própria legislação o reconhece. Ninguém tem o direito, em caso algum, de atentar contra a vida de seu semelhante. Isso é crime aos olhos de Deus, que lhes traçou a linha de conduta. Nisto, mais que em qualquer outra coisa, são juízes de sua própria causa. Lembrem-se de que lhes será perdoado segundo o que tiverem perdoado. Pelo perdão lhes aproximais da Divindade, pois a clemência é irmã do poder. Enquanto uma gota de sangue humano correr na Terra pela mão dos homens, o verdadeiro reino de Deus, o reino de pacificação e de amor, que deve para sempre banir de seu globo a hostilidade, a discórdia e a guerra, não chegará. Então, a palavra “duelo” somente existirá em sua língua como uma longínqua e vaga lembrança de um passado que não mais existe. Os homens não conhecerão entre eles outro oposição que o da nobre rivalidade do bem.
Santo Agostinho - Paris, 1862
12. O duelo pode, sem dúvida, em certos casos, ser uma prova de coragem física, de menosprezo pela vida, mas é, incontestavelmente, a prova de uma covardia moral, como o suicídio. O suicida não tem coragem para enfrentar as dificuldades e mudanças da vida; o duelista não tem coragem de enfrentar as ofensas. O Cristo não lhes disse que há mais honra e coragem em oferecer a face esquerda a quem lhes feriu a direita do que se vingar de uma ofensa? Não disse a Pedro, no Jardim das Oliveiras: “Embainha sua espada, pois aquele que matar pela espada perecerá pela espada?”. Por essas palavras, Jesus não condenou o duelo? Na verdade, meus filhos, o que é essa coragem nascida de um temperamento violento, sanguinário e irritado, que reage à primeira ofensa? Onde está a grandeza de alma daquele que, à menor ofensa, quer lavá-la em sangue? Mas que ele trema! Pois sempre, no fundo de sua consciência, uma voz lhe gritará: “Caim, Caim, que fez de seu irmão?”. Ele responderá: “Foi preciso sangue para salvar a minha honra!”, mas ela lhe dirá: “Você quiseste salvá-la diante dos homens, por apenas alguns instantes que te restavam sobre a Terra e não pensaste em salvá-la diante de Deus!”. Pobre louco! Quanto sangue lhe pediu o Cristo por todas as ofensas que Ele recebeu? Não apenas o feriste com os espinhos e a lança, mas ainda, em meio à Sua agonia, Ele ouviu as zombarias insultantes. Que reparação, depois de tantos ultrajes, Ele lhes pediu? O último gemido do Cordeiro foi uma prece pelos Seus algozes. Ah! Como Ele, perdoem e orem por aqueles que lhes ofendem! Amigos, lembrem-se deste ensinamento: “amem uns aos outros”, e então, ao golpe do ódio respondereis com um sorriso, e ao ultraje com o perdão. O mundo, sem dúvida, se erguerá furioso e lhes tratará como covardes. Ergam a fronte bem alto e mostrem que sua fronte não recearia também ser coroada de espinhos, a exemplo do Cristo, mas que a sua mão não quer ser cúmplice de um assassinato autorizado, digamos assim, por uma falsa aparência de honra, que é, na verdade, o orgulho e o orgulho pessoal. Quando lhes criaram, Deus lhes deu o direito de vida e de morte, uns sobre os outros? Não, Ele deu esse direito apenas à Natureza, para se reformar e se refazer. Mas a vocês, nem mesmo permitiu dispordes de vocês mesmos. Como o suicida, o duelista será marcado com sangue, quando comparecer perante Deus, e, tanto para um quanto para outro, o Soberano juiz atuará pelo sofrimento. Se ameaçou com a Sua justiça aqueles que dizem raca1 aos seus irmãos, quanto mais não será severa a pena para aquele que aparecer diante de Deus com as mãos marcadas por imperfeições pelo sangue de seu irmão!
Um Espírito Protetor - Bordeaux, 1861
13. O duelo, que antigamente se chamava de julgamento de Deus, é um desses costumes bárbaros que ainda regem a sociedade. Que diriam, porém, se vísseis os dois
antagonistas mergulharem em água fervente ou sujeitarem-se ao contato do ferro incandescente, para resolver suas diferenças e dar razão àquele que melhor se saísse da prova? Diriam que são costumes sem bom senso. O duelo é ainda pior do que tudo isso. Para o duelista emérito, é um assassinato cometido a sangue-frio, com toda a premeditação desejada, pois ele está seguro do golpe que dará. Para o adversário, quase certo de sucumbir, em razão de sua fragilidade e de sua inabilidade, é um suicídio, cometido com a mais fria reflexão. Bem sei que, normalmente, procura-se evitar essa alternativa, igualmente criminosa, recorrendo-se ao azar. Mas não é, embora sob forma diferente, voltar ao julgamento daquele Deus da Idade Média? E ainda naquela época era-se infinitamente menos culpado. O próprio nome “julgamento de Deus” indica uma fé - ingênua, é verdade - mas, mesmo assim, uma fé na justiça de Deus, que não poderia deixar sucumbir um inocente, enquanto no duelo tudo se entrega à força bruta, de tal maneira que é, em geral, o ofendido que sucumbe. Estúpido orgulho pessoal, tola vaidade e louco orgulho! Quando serão substituídos pela caridade cristã, o amor ao próximo e a humildade que o Cristo exemplificou e ensinou? Somente então desaparecerão esses preconceitos monstruosos que ainda governam os homens, e que as leis são ineficazes para reprimir, pois não basta proibir o mal e prescrever o bem é preciso que o princípio do bem e o horror ao mal estejam no coração do homem.
Francisco Xavier - Bordeaux, 1861
14. Que opinião teriam de mim, dizem muitas vezes, se eu recusar à reparação que me é pedida ou se eu não a pedir àquele que me ofendeu? Os loucos, como vocês, os homens atrasados, lhes censurarão. Mas os que são esclarecidos pelas luzes do progresso intelectual e moral dirão que agis segundo a verdadeira sabedoria. Refleti um pouco: por uma palavra, dita sem intenção ou inteiramente inofensiva da parte de um de seus irmãos, seu orgulho se fere, respondeis de uma maneira áspera, e a provocação está feita. Antes de chegar o momento decisivo, perguntai se agis como um cristão. Que contas deverão prestar à sociedade se a privardes de um de seus membros? Pensem no remorso de haver tirado o marido à sua mulher, o filho à sua mãe, o pai aos seus filhos e com ele o seu sustento! Certamente, aquele que ofendeu deve se retratar, mas não é mais honroso para ele fazê-lo espontaneamente, reconhecendo os seus erros, do que expor a vida daquele que tem direito de queixar-se? Quanto ao ofendido, convenho que, algumas vezes, pode sentir-se gravemente atingido, seja pessoalmente, seja em relação aos que lhe são caros. O orgulho pessoal não é o que está em jogo; o coração está magoado, ele sofre; mas além de ser estúpido jogar a vida contra um miserável capaz de infâmias
mesmo que mate a este, qualquer que seja a afronta, deixará ela de existir? O sangue derramado não provocará maior alarde sobre um fato que, se falso, deve desaparecer por si mesmo, e, se for verdadeiro, deve ocultar-se sob o silêncio? Resta apenas a satisfação da vingança praticada, infelizmente. Triste satisfação que geralmente deixa, desde essa vida, causticantes remorsos! E se for o ofendido quem sucumbe, onde está a reparação? Quando a caridade for a regra de conduta dos homens, eles conformarão os seus atos e as suas palavras a esta máxima: “Não faça aos outros o que não quer que os outros te façam” e, então, desaparecerão todas as causas de discórdias e, com elas, as causas dos duelos e das guerras, que são duelos entre povos.
Agostinho - Bordeaux, 1861
15. O homem do mundo, o homem feliz, que, por uma palavra ofensiva, uma questão sem importância, joga com a vida que recebeu de Deus e com a vida de seu semelhante, que somente a Deus pertence, é cem vezes mais culpado que o miserável que, levado pela desejo excessivo de possuir, e às vezes pela necessidade, invade uma casa para lá roubar o que lhe convém e mata aqueles que se lhe opuseram ao seu desejo. Este é quase sempre um homem sem educação, tendo apenas noções imperfeitas do bem e do mal, enquanto o duelista pertence geralmente à classe mais esclarecida. Um mata brutalmente, o outro, com método e cortesia, o que faz a sociedade desculpá-lo. Eu acrescentaria que o duelista é infinitamente mais culpado que o infeliz que, cedendo a um sentimento de vingança, mata num momento de exasperação. O duelista não tem por desculpa o arrastamento da paixão, pois entre o insulto e a reparação há sempre o tempo de refletir. Ele age, então, fria e premeditadamente. Tudo é calculado e estudado para matar o seu adversário da forma mais segura. É verdade que ele próprio também expõe a vida, e é isso o que reabilita o duelo aos olhos do mundo, porque nisto se vê um ato de coragem e de desapego à vida. Mas haverá verdadeira coragem quando se está seguro de si mesmo? O duelo é resíduo de um tempo de barbárie, no qual o direito do mais forte era a lei. Ele desaparecerá com uma maior apreciação do verdadeiro problema da honra, e à medida
que o homem tiver uma fé mais viva na vida após a morte.
16. Nota: Os duelos se tornam cada vez mais raros, e se ainda vemos dolorosos exemplos, o número não é comparável ao que era anteriormente. Um homem não saía de casa sem prever um encontro, tomando sempre as precauções necessárias. Um sinal característico dos hábitos e dos costumes dos povos era o uso do porte comum, ostensivo ou oculto, de armas ofensivas e defensivas. A abolição desse costume revela o abrandamento dos costumes, e é curioso seguir a sua graduação, desde a época na qual os cavaleiros nunca cavalgavam sem armaduras de ferro e lanças em punho, até o uso de uma simples espada, que depois tornou-se um ornamento, acessório de uniforme, e não
mais uma arma agressiva. Outro sinal do abrandamento dos costumes é que, enquanto os combates pessoais aconteciam em plena rua, diante da multidão que se afastava para deixar o campo livre, hoje eles se ocultam. Atualmente, a morte de um homem é um acontecimento que comove, enquanto, antigamente, não era notado. O Espiritismo extinguirá esses últimos marcas da barbárie, inculcando nos homens o espírito da caridade e da união entre irmãos.