Capítulo 12 de 28 · Edição 3.0 · Português Brasileiro Simples

Amem os seus inimigos

Responder ao mal com o bem e superar a vingança e o ódio.
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Responder ao mal com o bem — Inimigos encarnados e desencarnados na visão espírita — A metáfora de oferecer a outra face — Instruções dos Espíritos sobre vingança, ódio e duelo.

Pagar o mal com o bem

1. Jesus ensina: “Amem seus inimigos, façam o bem a quem odeia vocês e orem por quem os persegue e calunia.” Ele lembra que Deus faz o sol nascer e a chuva cair sobre pessoas boas e más. Amar somente quem nos ama ainda é uma forma limitada de amor.

Se tratamos bem apenas quem faz parte do nosso grupo, não estamos fazendo algo extraordinário. Jesus pede uma justiça e uma bondade que ultrapassem os limites da afinidade pessoal. (Mateus 5:20,43-47)

Mateus 5:20,43-47

2. Jesus repete que não há grande mérito em amar somente quem nos ama ou ajudar apenas quem pode nos retribuir. A proposta é fazer o bem sem transformar toda relação em troca ou vantagem pessoal.

“Sejam misericordiosos como o Pai é misericordioso.” (Lucas 6:32-36)

3. Amar um inimigo não significa sentir por ele a mesma intimidade e confiança que sentimos por um amigo. Quando sabemos que alguém pretende nos prejudicar, limites e prudência continuam necessários.

Também não precisamos fingir uma afeição que não existe. A relação com quem nos ameaça ou já nos fez mal naturalmente é diferente da relação com pessoas em quem confiamos.

O texto antigo explica essa diferença por uma linguagem de “fluidos”. Na prática, podemos entendê-la de forma simples: uma presença associada a ameaça ou hostilidade desperta sensações diferentes da presença de alguém ligado a segurança e afeto. Isso não impede uma resposta moralmente melhor.

A palavra “amar” reúne sentimentos diferentes. Nesse ensinamento, ela não exige intimidade; exige abandonar a vingança e preservar a dignidade do outro mesmo quando precisamos manter distância.

Amar os inimigos significa não alimentar rancor e desejo de destruição, procurar perdoar e não viver esperando uma oportunidade de vingança. Isso pode ser um processo longo e não obriga a continuar em relações abusivas.

Também significa não impedir uma reconciliação verdadeira quando ela se torna possível, desejar que a outra pessoa melhore, não se alegrar com seu sofrimento e ajudá-la em uma necessidade real quando isso puder ser feito com segurança. É responder ao mal sem repetir o mal.

4. Para quem considera a vida atual como a única realidade, a vingança pode parecer a única forma de fazer justiça pessoalmente. Kardec afirma que a visão espiritual modifica essa perspectiva, porque nenhum conflito seria maior do que toda a trajetória do Espírito.

Na visão espírita, a vida terrestre é uma etapa de aprendizado e reúne pessoas em diferentes níveis de desenvolvimento. Saber disso deveria ajudar a não transformar a maldade recebida em motivo para cultivar a própria maldade.

A linguagem antiga chega a agradecer a pessoa que oferece uma prova difícil. Não é necessário agradecer por abuso ou injustiça. O sentido útil é outro: mesmo uma experiência provocada por alguém pode se tornar oportunidade de exercitar paciência, limites, coragem e perdão.

Grandeza moral não está em sentir-se superior ao adversário, mas em não permitir que o comportamento dele determine o nosso. Recusar ódio e vingança exige mais domínio de si do que simplesmente devolver uma agressão.

Os inimigos desencarnados

5. A Doutrina Espírita ensina que o mal não é uma condição eterna de ninguém. Uma pessoa hoje marcada por comportamentos prejudiciais poderá reconhecer seus erros e mudar. A morte também não apagaria automaticamente sentimentos de ódio que ainda não foram trabalhados.

Por isso, Kardec considera a vingança especialmente inútil: além de produzir mais violência, poderia prolongar o conflito entre Espíritos ao longo do tempo. O perdão seria uma maneira de interromper essa cadeia.

Responder com dignidade reduz motivos para novas represálias e pode até abrir caminho para uma mudança de relação. Na visão espírita, o bem também teria força para alcançar alguém depois da morte. Essa é uma interpretação doutrinária, não uma garantia de que toda pessoa hostil se tornará amiga.

Responsabilidade diante de Deus e das próprias escolhas

6. Na linguagem espírita do século XIX, conflitos com Espíritos desencarnados são relacionados a fenômenos chamados obsessão e subjugação. Essa explicação pertence à Doutrina Espírita. Problemas psicológicos, neurológicos ou comportamentais precisam ser avaliados também por profissionais adequados e não devem ser automaticamente atribuídos a causas espirituais.

Se a mensagem recomenda compreensão com pessoas hostis ainda vivas, estende a mesma atitude aos Espíritos que ainda estariam presos ao ódio depois da morte.

Na visão da obra, os seres chamados de “demônios” não seriam criaturas eternamente destinadas ao mal, mas Espíritos ainda imperfeitos. Por isso, não deveriam ser odiados; a proposta é oração, caridade? e estímulo ao arrependimento e ao progresso.

Assim, o mandamento de amar os inimigos é apresentado como parte de uma solidariedade que ultrapassa uma única vida e alcança encarnados e desencarnados.

Se alguém ferir sua face direita, ofereça também a outra

7. Jesus substitui a lógica de “olho por olho, dente por dente” por uma atitude que interrompe a escalada da vingança. “Oferecer a outra face” é uma imagem de não responder automaticamente a uma agressão com outra agressão. Não significa permanecer passivo diante de violência, colocar-se em risco ou deixar de buscar proteção e justiça. (Mateus 5:38-42)

8. Os preconceitos do mundo, sobre o que convencionamos chamar de questão de honra, dão essa suscetibilidade sombria, nascida do orgulho e da exaltação da personalidade, a qual leva o homem a retribuir ofensa por ofensa, ofensa por ofensa; o que parece ser justo para aquele cujo senso moral não se eleva acima das paixões terrenas. Por isso a lei de Moisés dizia: olho por olho, dente por dente, lei em harmonia com o tempo em que vivia Moisés. No entanto, o Cristo veio dizer: “Pagai o mal com o bem”.

E disse mais: “Não resistam ao mal que quiserem lhes fazer; mas, se alguém lhes ferir na face direita, ofereçam-lhe também a outra”. Ao orgulhoso, essa máxima parece uma covardia, pois ele não compreende que há mais coragem em suportar um insulto que em se vingar; e isto, sempre, pela razão que o impede de ver além do presente. É preciso, então, tomar essa máxima ao pé da letra? Não, não mais do que aquela que diz para arrancar o olho, se ele for motivo de escândalo.

Observada literalmente, seria condenar toda repressão, mesmo legal, e deixaria o campo livre aos maus, que nada teriam a temer; não se colocando um freio às agressões, logo todas as pessoas de bem seriam suas vítimas. O instinto de conservação, que é uma lei da Natureza, diz que não devemos entregar de boa vontade o pescoço ao assassino. Por essas palavras, Jesus não proibiu a defesa, mas condenou a vingança.

Ao aconselhar para oferecer uma face quando a outra for batida, Ele disse, de uma outra maneira, que não devemos retribuir o mal com o mal, que o homem deve aceitar com humildade tudo o que faz rebaixar o seu orgulho, que é mais glorioso para ele ser ferido que ferir, suportar pacientemente uma injustiça que cometê-la; que mais vale ser enganado que enganar, ser arruinado do que arruinar. É, ao mesmo tempo, a condenação do duelo, simples manifestação do orgulho.

A fé na vida após a morte e na justiça de Deus - que não deixa jamais o mal impune - é a única que nos pode dar a força para suportar, pacientemente, os atentados aos nossos interesses e ao nosso orgulho pessoal. É por isso que lhes dizemos sempre: Olhem para o futuro; quanto mais lhes elevarem, pelo pensamento, acima da vida material, menos serão feridos pelas coisas da Terra.

Instruções dos Espíritos

A vingança

Júlio Olivier - Paris, 1862

9. A vingança é um dos últimos marcas dos costumes bárbaros, que tendem a desaparecer dentre os homens. Ela é, como o duelo, um dos últimos marcas desses costumes selvagens em que se debatia a Humanidade, no começo da era cristã. Por isso, a vingança é um indício certo do estado atrasado dos homens que a ela se entregam e dos Espíritos que podem ainda inspirá-la. Então, meus amigos, esse sentimento nunca deve fazer vibrar o coração de qualquer um que se diga e se afirme espírita.

Vingar-se é, para vocês, tão contrário a essa prescrição do Cristo: “Perdoem aos seus inimigos”, que aquele que se recusa a perdoar não somente não é espírita, como também não é cristão. A vingança é um sentimento tão nocivo quanto a falsidade e a vileza são suas companheiras constantes. Na verdade, aquele que se abandona a essa fatal e cega paixão, quase nunca se vinga de forma clara.

Quando é o mais forte, age como uma fera sobre aquele que considera seu inimigo, pois basta vê-lo para que se inflamem a sua paixão, a sua raiva e o seu ódio. Mas, na maioria das vezes, ele tem uma aparência pessoa falsa, dissimulando no mais profundo do seu coração os maus sentimentos que o animam. Ele toma caminhos tortuosos, seguindo seu inimigo na sombra, sem que este desconfie, e aguarda o momento propício para feri-lo sem perigo.

Escondendo-se, vigia-o sem tréguas, prepara-lhe armadilhas odiosas e, na primeira oportunidade, derrama-lhe o veneno na taça. Se o seu ódio não chega a esses extremos, ataca-o na sua honra e nas suas afeições, não recuando diante da calúnia, e suas insinuações pérfidas, habilmente semeadas em todas as direções, vão crescendo pelo caminho.

Assim, quando aquele que ele persegue se apresenta no meio onde o seu sopro envenenado passou, surpreende-se em encontrar semblantes frios onde antes encontrava faces amigas e bondosos; fica surpreso quando as mãos que apertavam as suas se recusam a fazê-lo novamente. Enfim, sente-se destruído, quando os seus amigos mais caros e os parentes se desviam, dele se esquivando. Ah! O covarde que se vinga assim é cem vezes mais criminoso do que aquele que vai direto ao seu inimigo e o insulta face a face!

Basta com esses costumes selvagens! Basta com os hábitos de outros tempos! Todo espírita que pretendesse, hoje, ter ainda o direito de vingar-se, seria indigno de figurar mais tempo na falange que tomou por diretriz: “Fora da caridade?, não há salvação!”. Mas não, não poderia deter-me em tal ideia, a de que um membro da grande família espírita pudesse, no futuro, ceder ao impulso da vingança, em vez de perdoar.

O ódio

Fénelon - Bordeaux, 1861

10. A mensagem pede que o amor seja exercitado justamente onde existe antipatia, desprezo ou ressentimento. Jesus é apresentado como exemplo de alguém que continuou ensinando amor mesmo diante de perseguição e violência.

Amar não significa aprovar atitudes erradas. É possível condenar um comportamento, estabelecer limites e buscar justiça sem transformar o coração em um lugar de ódio permanente. Esse é o desafio que a mensagem chama de verdadeiro sacrifício interior.

A conclusão é simples: o amor aproxima a pessoa dos valores atribuídos a Deus; o ódio prolongado a afasta deles.

O duelo

Adolfo, Bispo de Argel - Marmande, 1861

11. O duelo era um costume de outras épocas em que alguém arriscava a própria vida e a do adversário para responder a uma ofensa. A mensagem afirma que verdadeira coragem não é colocar vidas em risco por orgulho, mas atravessar a dificuldade sem abandonar os princípios morais.

Matar alguém em um duelo continua sendo homicídio, ainda que a sociedade da época tenha criado regras para legitimá-lo. Uma ofensa não concede direito de decidir sobre a vida de outra pessoa.

O perdão é colocado acima da vingança. A mensagem espera uma sociedade em que derramar sangue por honra seja lembrado apenas como um costume ultrapassado e em que a paz tenha mais valor que o orgulho ferido.

A única competição desejável seria competir para fazer melhor, servir mais e praticar o bem.

Santo Agostinho - Paris, 1862

12. A mensagem chama de falsa coragem aquela que enfrenta uma arma, mas não suporta uma ofensa. Na leitura atual, não é adequado comparar suicídio a covardia; sofrimento suicida é uma condição complexa que precisa de acolhimento e ajuda. O ponto moral do texto é que preservar a vida exige mais valor do que arriscá-la para alimentar orgulho.

Jesus pede a Pedro que guarde a espada e lembra que violência produz violência. A mensagem usa essa passagem para condenar a ideia de matar alguém em nome da honra.

Jesus suportou insultos e agressões sem exigir sangue como reparação. Por isso, a mensagem pergunta por que um seguidor de Jesus deveria transformar uma ofensa pessoal em justificativa para matar.

O exemplo final de Jesus é uma oração pelos próprios agressores. Responder ao ódio com perdão pode ser visto por alguns como fraqueza, mas o Evangelho apresenta essa escolha como força moral.

Recusar o duelo não é covardia. É reconhecer que uma imagem social de “honra” não vale mais do que a vida. Ninguém deve ferir a si mesmo ou outra pessoa apenas para satisfazer expectativas de orgulho ou reputação.

A linguagem original apresenta consequências espirituais severas para quem mata em duelo. O ensinamento central é a responsabilidade pela vida: palavras, tradições e convenções sociais não anulam o peso moral de tirar uma vida.

Um Espírito Protetor - Bordeaux, 1861

13. A mensagem compara o duelo a antigos julgamentos físicos usados para tentar descobrir quem tinha razão. Hoje fica evidente que colocar duas pessoas em risco não produz verdade nem justiça.

O duelo era planejado e podia resultar em homicídio ou morte voluntariamente assumida. Mesmo revestido de regras e cerimônias, continuava sendo uma forma de violência premeditada.

A mensagem vê nisso uma sobrevivência da ideia de que a força decide quem tem razão. O progresso moral deveria substituir orgulho e vaidade por diálogo, humildade, justiça e caridade?.

Leis podem proibir determinadas formas de violência, mas uma transformação mais profunda acontece quando as próprias pessoas deixam de considerar a violência uma resposta aceitável para proteger reputação ou orgulho.

Francisco Xavier - Bordeaux, 1861

14. A pergunta “o que os outros pensarão de mim se eu não responder à ofensa?” mostra como a pressão social alimentava duelos. A mensagem convida a colocar consciência e vida acima da opinião de pessoas que valorizam violência.

Antes de agir, pense nas consequências para famílias, amigos e sociedade. Quem ofendeu pode reconhecer o erro e se retratar; isso é muito mais construtivo do que uma disputa em que alguém pode morrer.

Uma ofensa grave pode causar sofrimento real. Ainda assim, matar o autor não desfaz o que aconteceu nem cura automaticamente a ferida. Justiça e reparação não são a mesma coisa que vingança.

Derramar sangue frequentemente cria novas dores, exposição e remorso. Se a acusação era falsa, a violência não a torna verdadeira nem necessária; se era verdadeira, matar também não resolve o problema original.

A regra “não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você” reduz as causas de conflitos pessoais e, ampliada às nações, também questiona guerras motivadas por orgulho e disputa de interesses.

Agostinho - Bordeaux, 1861

15. Agostinho compara a violência do duelo à violência de outros crimes e critica a diferença de julgamento social entre elas. Uma aparência de educação ou status não torna moral uma morte provocada por orgulho.

A mensagem observa que o duelo normalmente permitia tempo para refletir, o que reforçava seu caráter premeditado. Não era simplesmente uma reação instantânea em meio a uma crise.

Arriscar a própria vida também não transforma o ato em coragem. A mensagem considera o duelo um costume herdado de uma época em que a força física tinha valor excessivo para definir honra e razão.

O esperado é que esse tipo de violência desapareça conforme a sociedade compreenda melhor o valor da vida e uma noção de honra baseada em caráter, não em vingança.

16. Kardec registra que os duelos já estavam se tornando menos comuns em sua época. Ele usa essa mudança como exemplo de transformação dos costumes sociais ao longo do tempo.

A redução do porte constante de armas e dos confrontos públicos é interpretada como sinal de que a violência deixou de ser aceita com a mesma naturalidade de épocas anteriores.

A esperança da obra é que caridade? e fraternidade continuem retirando legitimidade das formas de violência que ainda sobrevivem sob justificativas sociais.

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