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Capítulo 11 de 28 · linguagem simples

Amar ao próximo como a si mesmo

Fazer ao outro o que gostaríamos que fizessem por nós.
Seu progresso fica salvo somente neste aparelho.

O maior mandamento. Fazer aos outros o que gostaríamos que os outros nos fizessem. Parábola dos credores e dos devedores - Deem a César o que é de César - Instruções dos Espíritos: a Lei de amor - O egoísmo - A fé e a caridade - Caridade com os criminosos - Deve-se expor a vida por um malfeitor?

O maior mandamento

1. “Os fariseus, tendo sabido que Ele tinha feito calar aos saduceus, juntaram-se em conselho. E um deles, que era doutor da lei, veio perguntar-Lhe, para tentá-Lo: Mestre, qual é o maior mandamento da lei? Jesus lhe respondeu: Amarás ao Senhor seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento. Este é o maior e o primeiro mandamento. E aqui está o segundo, semelhante ao primeiro: Amarás ao seu próximo como a você mesmo.

Toda a lei e os profetas estão encerrados nesses dois mandamentos.” (Mateus, XXII:34-40)

2. “Façam aos homens tudo o que querem que eles lhes façam, pois esta é a lei e os profetas.” (Mateus, VII:12) “Tratem todos os homens, como quereriam que eles lhes tratassem.” (Lucas,

VI:31)

3. “O Reino dos Céus é comparado a um rei que queria tomar contas aos seus servidores, e começando a fazê-lo, apresentou-se-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Mas como ele não tivesse meios de pagá-los, seu senhor ordenou que sua mulher, seus filhos e tudo o que ele tivesse, fosse vendido para saldar a dívida. O servidor, lançando-se-lhe aos pés, implorava, dizendo: Senhor, tem um pouco de paciência e eu lhe pagarei tudo. Então o senhor, tocado de compaixão, deixou-o ir livre e perdoou-lhe a dívida. Mas esse mesmo servidor, mal tendo saído, encontrou um de seus companheiros, que lhe devia cem dinheiros. Tomou-o pela garganta e, quase o sufocando, disse: Paga-me o que deve. E o seu companheiro, lançando-se- lhe aos pés, rogava, dizendo: Tem um pouco de paciência e eu lhe devolverei tudo. Mas ele não quis escutá-lo e, retirando-se, mandou prendê-lo até que a dívida fosse saldada. Os outros servidores, seus companheiros, vendo o que se passava, ficaram extremamente tocados e advertiram o seu senhor de tudo o que tinha acontecido. Então, o fez vir o seu senhor, e lhe disse: Servo mau, eu te perdoei a dívida toda, pois veio me pedir ajuda. Não devias você também ter piedade de seu companheiro, como eu tive de ti? E seu senhor, encolerizado, o deixou nas mãos dos carrascos até que pagasse tudo o que lhe devia. É assim que meu Pai celestial lhes tratará se cada um de vocês não perdoar, do fundo do coração, as

faltas que o seu irmão tiver cometido contra vocês.” (Mateus, XVIII:23-35)

4. “Amar ao próximo como a si mesmo, fazer pelos outros o que queremos que os outros façam por nós”, é a expressão mais completa da caridade, pois ela resume todos os deveres para com o próximo. Não se pode ter guia mais seguro, neste caso, do que tomando por

medida aquilo que desejamos para nós mesmos. Com que direito exigiríamos de nossos semelhantes bons procedimentos, compreensão, bondade e dedicação se nós mesmos não os temos com eles? A prática dessas máximas leva à destruição do egoísmo. Quando os homens as tomarem por regra de conduta e por base de suas instituições, compreenderão a verdadeira união entre irmãos e farão reinar entre si a paz e a justiça. Não haverá mais nem ódios nem divisões, apenas união, harmonia e bondade mútua.

Deem a César o que é de César

5. “Tendo os fariseus se retirado, resolveram comprometê-Lo no que falasse. E enviaram-lhe os seus discípulos, com os herodianos, para Lhe dizer: Mestre, sabemos que é verdadeiro e ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem fazer distinção a quem quer que seja, pois não consideras a aparência dos homens. Diga-nos a Sua opinião sobre isso: É permitido ou não pagar o tributo a César? Mas Jesus, conhecendo-lhes a malícia, disse: Pessoas falsas! Por que me tentam? Mostrem-me a moeda que se dá para o pagamento. E, tendo eles Lhe apresentado um dinheiro, Jesus lhes disse: De quem é essa imagem e inscrição? - De César, disseram. Então, Jesus lhes respondeu: Deem, então, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. E eles, ouvindo isto, admiraram-se da resposta e, deixando-o, se retiraram.” (Mateus, XXII:15-22; Marcos, XII:13-17)

6. A questão proposta a Jesus era motivada pelo fato de haverem os judeus transformado em motivo de horror o pagamento do tributo exigido pelos romanos, elevando-o a um problema de ordem religiosa. Um partido numeroso foi formado para rejeitar o imposto. O pagamento do tributo era, para eles, uma questão de irritante atualidade, sem o que, a pergunta feita a Jesus: “É permitido ou não pagar o tributo a César?” não teria nenhum sentido. Essa questão era uma cilada, pois, segundo a resposta, eles esperavam levantar contra Ele as autoridades romanas, ou os judeus dissidentes. Mas “Jesus, conhecendo-lhes a malícia”, escapa à dificuldade dando-lhes uma lição de justiça, ao dizer que dessem a cada um o que lhes era devido. (Ver na Introdução, o artigo intitulado

Cobradores de impostos.)

7. Esta máxima: “Deem a César o que é de César” não deve ser entendida de uma maneira restritiva e absoluta. Como todos os ensinamentos de Jesus, é um princípio geral, resumido sob uma forma prática e usual, e deduzido de uma circunstância particular. Esse princípio é uma consequência daquele que nos manda agir com os outros como gostaríamos que os outros agissem conosco. Condena todo prejuízo material e moral causado aos outros, toda violação de seus interesses; prescreve o respeito aos direitos de cada um, como cada um deseja que se respeite os seus.

Estende-se ao cumprimento dos deveres contraídos tanto para com a família e a sociedade quanto para com os indivíduos.

Instruções dos Espíritos

A lei de amor

Lázaro - Paris, 1862

8. O amor resume toda a Doutrina de Jesus, pois é o sentimento por excelência, e os sentimentos são os instintos elevados à altura do progresso adquirido. Em seu ponto de partida, o homem tem apenas instintos; mais avançado e corrompido, tem apenas sensações; mais instruído e purificado, tem sentimentos; e o ponto alto do sentimento é o amor. Não o amor no sentido vulgar da palavra, mas esse sol interior, que condensa e reúne em seu foco ardente todas as aspirações e todas as revelações sobre-humanas. A lei de amor substitui a personalidade pela fusão dos seres e extingue as misérias sociais. Feliz aquele que, sobrelevando-se à Humanidade, ama com imenso amor os seus irmãos sofredores! Feliz aquele que ama, pois não conhece as angústias da alma, nem as do corpo! Seus pés são leves e ele vive como que transportado fora de si mesmo. Quando Jesus pronunciou essa palavra divina - amor - fez estremecerem os povos, e os mártires, ébrios de esperança, desceram ao circo. O Espiritismo, por sua vez, vem pronunciar a segunda palavra do alfabeto divino. Fiquem atentos, pois essa palavra levanta a pedra dos túmulos vazios: e a reencarnação, triunfando sobre a morte, revela ao homem deslumbrado o seu patrimônio intelectual. No entanto, não é mais aos suplícios que ela conduz, mas à conquista do seu ser, elevado e transfigurado. O sangue resgatou o Espírito, e o Espírito deve, hoje, resgatar o homem da matéria. Eu disse que, em sua origem, o homem tem apenas instintos. Aquele, pois, no qual os instintos dominam, está mais próximo do ponto de partida que do alvo. Para avançar em sua direção, é preciso vencer os instintos em prol dos sentimentos, ou seja, aperfeiçoar estes, sufocando os germes latentes da matéria. Os instintos são a germinação e os embriões dos sentimentos. Eles carregam consigo o progresso, como a bolota oculta o carvalho. Os seres menos avançados são aqueles que, despojando-se lentamente de sua crisálida, permanecem dominados aos próprios instintos. O Espírito deve ser cultivado como um campo. Toda a riqueza futura depende do trabalho presente e, mais do que os bens terrestres, ele lhes levará à gloriosa elevação. É então que, compreendendo a lei de amor que une todos os seres, procurarão as suaves alegrias da alma, prelúdio das alegrias celestes.

Fénelon - Bordeaux, 1861

9. O amor é de essência divina. Desde o mais elevado até o mais humilde, possuís, no fundo de seus corações, a centelha desse fogo sagrado. É um fato que têm podido constatar muitas vezes: o homem mais abjeto, o mais vil, o mais criminoso, tem por um ser ou um objeto qualquer uma afeição viva e ardente, à prova de todas as dificuldades e mudanças, e que atinge, muitas vezes, proporções sublimes. Eu disse por um ser ou objeto qualquer, porque existem, entre vocês, indivíduos que dispensam tesouros de amor, que lhes vertem dos corações, aos animais, às plantas, e até mesmo aos objetos materiais. Espécies de misantropos a se lamentarem da Humanidade, resistem à tendência natural da alma, que busca ao seu redor, afeição e simpatia. Rebaixam a lei de amor ao estado instintivo. Mas o que quer que façam, não podem sufocar o germe vivaz que Deus depositou em seus corações, no ato da criação. Esse germe se desenvolve e cresce com a moralidade e a inteligência, e embora muitas vezes pressionado pelo egoísmo, é a fonte das santas e doces virtudes que fazem as afeições sinceras e duradouras, e que os ajudam a transpor a estrada escarpada e árida da existência humana. Há certas pessoas a quem repugna as provas da reencarnação, no sentido de que outros participarão das simpatias afetivas de que são ciosas. Pobres irmãos! É o seu afeto que lhes torna egoístas; seu amor está restrito a um círculo íntimo de parentes ou de amigos, e todos os demais lhes são indiferentes. Muito bem! Para praticar a lei de amor, tal como Deus a estabelece, é preciso que cheguem a amar, pouco a pouco, todos os seus irmãos indistintamente. A tarefa é longa e difícil, mas ela se realizará. Deus o quer, e a lei de amor é o primeiro e o mais importante ensinamento de sua nova Doutrina, porque é ela que deve, um dia, matar o egoísmo sob qualquer aspecto em que se apresente, pois além de egoísmo pessoal, há ainda o egoísmo familiar, de casta, de nacionalidade. Jesus disse: “Amem ao próximo como a você mesmo”; ora, qual é o limite do próximo? Será a família, a grupo religioso, a nação? Não: é toda a Humanidade! Nos mundos superiores, é o amor mútuo que harmoniza e dirige os Espíritos avançados que neles habitam. E o seu planeta, destinado a um progresso próximo, para sua transformação social, verá ser praticada por seus habitantes essa sublime lei, reflexo da própria Divindade. Os efeitos da lei de amor são o aperfeiçoamento moral da raça humana e a felicidade durante a vida terrena. Os mais rebeldes e os mais viciosos deverão reformar-se, quando presenciarem os benefícios produzidos pela prática do ensinamento: “Não façam aos outros o que não querem que os outros lhes façam, ao contrário, façam todo o bem que puderem.” Não creiam na esterilidade e no endurecimento do coração humano, que cederá, mesmo de apesar de, à lei de amor. É um ímã ao qual ele não poderá resistir, e o contato desse amor vivifica e fecunda os germes latentes dessa virtude, que estão latentes em seus corações. A Terra, lugar de provas e de exílio, será então, purificada por esse fogo sagrado e verá serem praticadas a

caridade, a humildade, a paciência, o dedicação, a desapego pessoal, a aceitação serena, o sacrifício, todas as virtudes filhas do amor. Não deixem, então, de ouvir as palavras de João, o Evangelista. Sabem que, quando a doença e a velhice interromperam o curso de suas pregações, Ele repetia essas doces palavras: “Meus filhos, amem uns aos outros!”. Caros e amados irmãos, utilizem como proveito essas lições. A sua prática é difícil, mas delas retiram a alma um imenso benefício. Acreditem-me, façam o sublime esforço que lhes peço: “Amem-se”, e verão que, muito em breve, a Terra se transformará e se tornará um novo paraíso, onde as almas dos justos virão desfrutar o merecido repouso.

Sansão, antigo membro da Sociedade Espírita de Paris - 1863

10. Meus caros condiscípulos, os Espíritos aqui presentes lhes dizem pela minha voz: Amem muito, para serem amados! Esse pensamento é tão justo, que nele encontrarão tudo o que consola e acalma as dores de cada dia; ou melhor, praticando essa máxima, lhes elevarão de tal forma acima da matéria, que lhes espiritualizarão antes mesmo de despirem a sua roupagem terrena. Os estudos espíritas, tendo desenvolvido em vocês a compreensão do futuro, lhes dão uma certeza: o progresso em direção de Deus, com todas as promessas que correspondem às aspirações de suas almas. Devem também elevar-se bem alto, para julgarem sem as restrições da matéria, e assim não condenarem o seu próximo, antes de ter dirigido o seu pensamento a Deus. Amar, no sentido profundo da palavra, é ser leal, probo, consciencioso, para fazer aos outros o que se deseja para si mesmo. É buscar em torno de si o sentido íntimo de todas as dores que afligem o próximo, para dar-lhe alívio. É considerar a grande família humana como a sua própria, pois essa família reencontrarão, um dia, em mundos mais avançados, pois os Espíritos que a compõem são, como vocês, filhos de Deus, marcados na fronte para se elevarem ao infinito. É por isso que não podem recusar aos seus irmãos o que Deus lhes deu com liberdade, pois de sua parte, gostariam que seus irmãos lhes dessem do que têm necessidades. A todos os padecimentos, dispensem uma palavra de esperança e de apoio, para vocês fazerem todo amor e todo justiça. Acreditem que estas sábias palavras: “Amem muito, para serem amados”, seguirão o seu curso. Elas são revolucionárias, e seguem uma rota firme e invariável. Mas vocês já têm progredido, vocês que me escutam: são infinitamente melhores do que há cem anos. De tal forma lhes modificaram para melhor, que aceitam hoje sem contestar um sem-número de ideias novas sobre a liberdade e a união entre irmãos, que antigamente teriam rejeitado. Ora, daqui a cem anos, aceitarão com a mesma facilidade aquelas que ainda não compreendem. Hoje, com o grande impulso do movimento espírita, vejam com que rapidez as ideias de justiça e de renovação, contidas nas mensagens dos

Espíritos, são aceitas pela metade das pessoas inteligentes. É que essas ideias correspondem a tudo o que há de divino em vocês, porque estão preparados para uma semeadura fecunda: a do último século, que implantou na sociedade as grandes ideias do progresso. E, como tudo se encadeia sob as ordens do Altíssimo, todas as lições recebidas e assimiladas resultarão nessa mudança universal do amor ao próximo. Graças a elas, os Espíritos encarnados, melhor julgando e melhor sentindo, dar-se-ão as mãos até os confins de seu planeta. Todos se reunirão, para se entenderem e se amarem, destruindo todas as injustiças, todas as causas de desentendimento entre os povos. Grande pensamento de renovação pelo Espiritismo, tão bem descrito em O Livro dos Espíritos, produzirá o grande milagre do século vindouro, o da reunião de todos os interesses materiais e espirituais dos homens, pela aplicação desta máxima bem-compreendida: Amem muito, para serem amados!

O egoísmo

Emmanuel - Paris, 1861

11. O egoísmo, esta chaga da Humanidade, deve desaparecer da Terra, porque entrava o seu progresso moral. Está reservado ao Espiritismo a tarefa de fazê-la elevar-se na hierarquia dos mundos. O egoísmo é, notadamente, o alvo para o qual os verdadeiros crentes devem dirigir suas armas, suas forças, sua coragem. Eu digo coragem, porque esta é a qualidade mais necessária para cada um vencer-se a si mesmo do que para vencer aos outros. Que cada qual coloque todas as suas forças para combatê-lo em si mesmo, pois esse monstro devorador de todas as inteligências, esse filho do orgulho, é a fonte de todas as misérias da Terra. Ele é a negação da caridade e, consequentemente, o maior obstáculo à felicidade dos homens. Jesus lhes deu o exemplo da caridade, e Pôncio Pilatos o do egoísmo. Porque, quando o Justo vai percorrer as santas estações de Seu martírio, Pilatos lava as mãos, dizendo: “Que me importa?!”. Disse mesmo aos judeus: “Este homem é inocente, por que o querem crucificar?”. E, no entanto, ele deixa que O conduzam ao suplício.

É a esse oposição entre a caridade e o egoísmo, à invasão dessa lepra do coração humano, que o Cristianismo deve ainda não ter cumprido toda a sua missão. E é a vocês, novos apóstolos da fé, que os Espíritos superiores esclarecem, a quem incumbem a tarefa e o dever de extirpar esse mal, para dar ao Cristianismo toda a sua força e limpar a estrada dos obstáculos que entravam a sua marcha. Expulsem o egoísmo da Terra, para que ela possa elevar-se na escala dos mundos, pois é tempo de a Humanidade vestir a sua toga viril, e para tanto é preciso, primeiramente, banir o egoísmo de seus corações.

Pascal - Sens, 1862

12. Se os homens se amassem reciprocamente, a caridade seria mais bem praticada. Mas, para isso, seria preciso que lhes se esforçassem para desembaraçar o seu coração dessa couraça, para serem mais sensíveis ao sofrimento do próximo. A rigidez mata os bons sentimentos: o Cristo nunca se esquivava; aqueles que O procuravam nunca eram afastados. A mulher adúltera e o criminoso eram socorridos por Ele, que jamais temeu prejudicar a Sua própria reputação. Quando O tomarão por modelo de todas as suas ações? Se a caridade reinasse na Terra, o mal não teria lugar, mas, se ocultaria envergonhado, pois se sentiria deslocado em qualquer lugar. É assim que o mal desapareceria, convencam-se bem disso. Comecem por dar o exemplo vocês mesmos. Sejam caridosos para com todos, indistintamente. Esforçem-se para não lhes importar com aqueles que lhes observam com desprezo e deixem que Deus se encarregue de toda a justiça, pois, a cada dia, em Seu Reino, Ele separa o joio do trigo. O egoísmo é a negação da caridade. Ora, sem a caridade, não há tranquilidade na sociedade, e digo mais, não há segurança. Com o egoísmo e o orgulho, que andam de mãos dadas, essa vida será sempre uma corrida favorável ao mais esperto, uma luta de interesses, na qual são calcadas aos pés as mais santas afeições, em que nem mesmo os laços sagrados da família são respeitados.

A fé e a caridade

Espírito Protetor - Cracóvia, 1861

13. Eu lhes disse anteriormente, meus caros filhos, que a caridade sem a fé não bastaria para manter entre os homens uma ordem social capaz de torná-los felizes. Deveria ter dito que a caridade é impossível sem a fé. Podem encontrar, na verdade, impulsos generosos até mesmo junto a pessoas privadas de religião. Mas essa caridade austera, que apenas se exerce pela desapego pessoal, pelo sacrifício constante de qualquer interesse egoísta, apenas a fé pode inspirar, pois apenas ela nos faz carregar com coragem e persistência a cruz desta vida. Sim, meus filhos, é em vão que o homem, ávido de prazeres, ilude-se sobre o seu destino aqui na Terra, argumentando que lhe é permitido ocupar-se apenas da sua felicidade. Certamente, Deus nos criou para sermos felizes na eternidade, porém, a vida terrestre deve apenas servir ao nosso aperfeiçoamento moral, o qual se adquire mais facilmente com a ajuda dos órgãos físicos e do mundo material. Sem contar as dificuldades e mudanças comuns da vida, a diversidade dos seus gostos, de suas tendências e necessidades, é também um meio de vocês se aperfeiçoarem, exercitando-se na caridade. Pois é apenas à força de concessões e de sacrifícios mútuos, que poderão manter a harmonia entre elementos tão diversos. Têm razão, porém, em afirmar que a felicidade está destinada ao homem, aqui na Terra, se a procurarem, não nas alegrias materiais, mas na prática do bem. A história da

cristandade nos fala de mártires que foram para o suplício com alegria. Hoje, e em sua sociedade, para serem cristãos, não é preciso o holocausto do mártir, nem o sacrifício da vida, mas, única e simplesmente, o sacrifício do egoísmo, do orgulho e da vaidade. Triunfareis, se a caridade lhes inspirar e a fé lhes sustentar.

Caridade com os criminosos

Elisabeth da França - Le Havre, 1862

14. A verdadeira caridade é um dos mais sublimes ensinamentos de Deus ao mundo. Deve existir sempre, entre os verdadeiros discípulos de Sua doutrina, uma união entre irmãos perfeita. Devem amar os infelizes, os criminosos, como criaturas de Deus, às quais o perdão e a misericórdia serão concedidos, desde que se arrependam, da mesma forma que para vocês mesmos, pelas faltas que cometem contra a Sua lei. Pensem que são mais repreensíveis, mais culpados que aqueles aos quais recusais o perdão e a compaixão, pois geralmente eles não conhecem a Deus, como O conhecem, e lhes será menos exigido do que a vocês.

Não julguem! Não julguem, meus caros amigos, pois o julgamento que fizerem lhes será aplicado mais com rigor ainda, e têm necessidade de compreensão para os pecados que cometem sem cessar. Não sabem que há muitas atitudes que são crimes aos olhos do Deus de pureza e que o mundo considera apenas como faltas leves? A verdadeira caridade não consiste apenas na ajuda material que dais, nem mesmo nas palavras de consideração que lhes acrescentais. Não, não é apenas isso o que Deus exige de vocês! A caridade sublime, ensinada por Jesus, consiste também na bondade constante - e em todas as coisas - para com o seu próximo. Podem ainda exercer essa sublime virtude com pessoas que não precisam de ajudas materiais, mas de palavras de amor, de consolação e de encorajamento que as conduzirão ao Senhor. Os tempos estão próximos - eu continuo a dizer - nos quais a grande união entre irmãos reinará neste globo. A lei do Cristo regerá os homens: ela será o único freio e esperança, e conduzirá as almas às moradas bem- aventuradas. Amem-se, pois, como filhos de um mesmo pai; não façam diferenças entre vocês e os infelizes, pois Deus deseja que todos sejam iguais. Não desprezeis a ninguém; Deus permite que os grandes criminosos estejam entre vocês, para vocês servirem de ensinamento. Logo, quando os homens forem levados à prática das verdadeiras leis de Deus, não haverá mais necessidade desses ensinamentos e todos os Espíritos impuros e revoltados serão dispersados para diferentes mundos inferiores, em harmonia com as suas tendências. Devem àqueles de quem lhes falo o socorro de suas preces. Esta é a verdadeira caridade. Não se pode dizer de um criminoso: “É um miserável! É preciso

expurgá-lo da Terra; a morte que se lhe inflige é muito suave para um ser dessa espécie”. Não, não é assim que devem falar! Considerem o seu modelo, Jesus.

O que diria Ele, se visse esse infeliz ao Seu lado? Haveria de lastimá-lo, considerá-lo como um doente bem necessitado e lhe estenderia a mão. Não podem fazer o mesmo, na verdade, mas ao menos podem orar por ele, assistir-lhe o Espírito durante os últimos momentos que passará na Terra. O arrependimento pode tocar o seu coração, se orarem com fé. Ele é o seu próximo, como o melhor dentre os homens. Sua alma, perdida e revoltada, foi criada, como a sua, para se aperfeiçoar. Ajudem-o a sair do lamaçal, portanto, e orem por ele!

Lamennais - Paris, 1862

15. Um homem está em perigo de morte. Para salvá-lo, é preciso arriscar a própria vida, mas sabe-se que este homem é um malfeitor e que, se escapar, poderá cometer novos crimes. Deve-se, apesar disso, arriscar-se para salvá-lo? Esta é uma questão muito grave e que pode apresentar-se naturalmente ao Espírito. Responderei segundo a minha condição moral, já que estamos aqui para saber se devemos expor a vida, mesmo por um malfeitor. A desapego pessoal é cega: socorre-se um inimigo, deve-se, então, socorrer um inimigo da sociedade, numa palavra, um malfeitor. Acreditam que seja apenas à morte que se vai arrebatar esse infeliz? Talvez seja a toda a sua vida passada, pois - pensem nisto - nesses rápidos instantes que lhe arrebatam os últimos minutos de vida, o homem perdido se volta à sua vida passada, ou melhor, ela se ergue diante dele. A morte, talvez, chegue muito cedo para ele. A reencarnação poderá ser terrível. Lançem-se, então, homens! Vocês, que a ciência espírita esclareceu, lançem-se! Arrancai-o ao perigo e, então, esse homem que morreria insultando-se, talvez se atire em seus braços. De qualquer forma, não é preciso perguntar se ele o fará ou não, mas ir em seu socorro, pois, salvando-o, obedecereis a essa voz do coração que lhes diz: Vocês podem salvá-lo, salvai-o!