Capítulo 10 de 28 · Edição 3.0 · Português Brasileiro Simples

Bem-aventurados os misericordiosos

Perdão, reconciliação, tolerância e misericórdia.
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Perdão e misericórdia — Reconciliação — O valor de reparar conflitos antes da prática religiosa — Julgar os outros — Compreensão — Quando corrigir, quando silenciar e quando alertar sobre algo prejudicial.

Perdoem para que Deus lhes perdoe

1. Jesus disse: “Felizes os misericordiosos, porque receberão misericórdia.” (Mateus 5:7)

2. Jesus ensina que, se queremos perdão para nossos próprios erros, também precisamos aprender a perdoar as ofensas recebidas. (Mateus 6:14-15)

Mateus 6:14-15

3. Jesus orienta primeiro a conversar em particular com quem errou, em vez de transformar imediatamente o conflito em exposição pública. Quando Pedro pergunta quantas vezes deveria perdoar, Jesus responde “setenta vezes sete”, uma maneira de dizer que o perdão não deve ser contado como se tivesse um limite fixo. (Mateus 18:15,21-22)

4. Misericórdia está ligada à mansidão e à paz. Guardar rancor por muito tempo mantém a pessoa presa à ofensa. Perdoar não significa fingir que nada aconteceu nem aceitar novos abusos; significa trabalhar para que ódio e desejo de vingança deixem de controlar nossa vida.

Quando Jesus fala em perdoar muitas vezes, a mensagem lembra que todos nós também cometemos erros e precisamos de compreensão. Quem exige misericórdia para si, mas se recusa completamente a oferecê-la aos outros, aplica duas medidas diferentes.

Existe um perdão sincero e existe um “perdão” usado para humilhar. Perdoar de verdade não é obrigar o outro a se ajoelhar, lembrar constantemente da dívida ou exibir para todos o quanto fomos generosos.

Uma reconciliação dificilmente será verdadeira quando o perdão vira instrumento de orgulho. Em conflitos, a atitude mais conciliadora é aquela que procura resolver sem aumentar a humilhação, a hostilidade ou a disputa por quem parece ter vencido.

Reconciliar-se com os adversários

5. Jesus recomenda procurar uma reconciliação com o adversário enquanto ainda há oportunidade, antes que o conflito se agrave e produza consequências maiores. (Mateus 5:25-26)

Mateus 5:25-26

6. Na visão espírita, a morte não encerra automaticamente sentimentos de rancor. Espíritos que continuam presos ao ódio poderiam manter conflitos depois da morte. Por isso, a obra dá ao perdão também um sentido de libertação espiritual.

Kardec relaciona alguns casos de obsessão espiritual a antigos conflitos entre pessoas. Essa é uma explicação doutrinária espírita. Problemas de saúde, sofrimento psíquico ou violência não devem ser diagnosticados automaticamente como obsessão e precisam do cuidado adequado à situação.

A obra interpreta determinados reencontros difíceis como oportunidades de reparar erros, desenvolver compreensão e abandonar antigos sentimentos de vingança.

Por isso, recomenda corrigir o quanto antes aquilo que fizemos contra alguém e trabalhar o perdão das ofensas recebidas. Resolver um conflito agora pode impedir que ele seja alimentado durante anos e, na visão espírita, até além da vida atual.

A recomendação de Jesus para reconciliar-se rapidamente é entendida, então, como uma forma de interromper ciclos de hostilidade. Algumas consequências não desaparecem apenas porque desejamos esquecê-las; precisam ser reparadas e transformadas.

O sacrifício mais agradável a Deus

7. Jesus ensina: se você está prestes a apresentar uma oferta a Deus e se lembra de um conflito sério com alguém, procure primeiro a reconciliação e depois volte à sua prática religiosa. (Mateus 5:23-24)

8. O ensinamento coloca o relacionamento humano acima da aparência religiosa. Antes de pedir perdão a Deus, devemos trabalhar para perdoar e, quando fomos responsáveis pelo dano, procurar reparar aquilo que fizemos.

Na época de Jesus, a oferta no altar fazia parte da prática religiosa. Para o cristão de hoje, a ideia continua válida: oração e culto não substituem a necessidade de corrigir injustiças, abandonar ódio e tratar as pessoas com dignidade.

Uma oração de reconciliação ganha mais sentido quando é acompanhada por atitudes concretas. O pedido a Deus deve caminhar junto com o esforço para viver aquilo que se pede.

O cisco e a grande viga no olho

9. Jesus pergunta: por que enxergar o pequeno cisco no olho do outro e ignorar a grande viga no próprio? Antes de corrigir alguém, olhe primeiro para suas próprias falhas. (Mateus 7:3-5)

Mateus 7:3-5

10. É comum perceber rapidamente os erros dos outros e ter dificuldade para reconhecer os próprios. Um exercício útil é imaginar que estamos observando nosso comportamento em outra pessoa e perguntar: eu consideraria essa atitude correta se não fosse minha?

Caridade? verdadeira não combina com uma necessidade constante de provar superioridade. Quem precisa diminuir os outros para se sentir melhor ainda está agindo a partir do orgulho.

Kardec vê o orgulho como origem de muitos comportamentos prejudiciais e como obstáculo ao desenvolvimento de várias virtudes. Por isso, o combate ao orgulho aparece repetidamente nos ensinamentos do Evangelho.

Não julguem para não serem julgados

Quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra

11. “Não julguem para não serem julgados. A medida que vocês usarem para os outros também será usada para vocês.” (Mateus 7:1-2)

12. “Então, os escribas e os fariseus Lhe levaram uma mulher que havia sido apanhada em adultério, e puseram-na no meio do povo, dizendo a Jesus: Mestre, esta mulher foi surpreendida em adultério. Moisés nos ordena, na Lei, que apedrejemos as adúlteras. O que achas disso? Eles disseram isso para tentá-Lo, para O poderem acusar. Mas Jesus, abaixando-se, pôs-se a escrever com o dedo na terra.

Como eles continuassem a interrogá-Lo, Ele se levantou e lhes disse: Aquele dentre vocês que estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra. Depois, abaixando-se de novo, Ele continuou a escrever na terra. Mas os homens, ouvindo-O, foram se retirando um após o outro - sendo os mais velhos os primeiros - e, assim, ficaram apenas Jesus e a mulher, em pé no meio da praça. Jesus, então, levantando-se, lhe disse: Mulher, onde estão os seus acusadores? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Não, senhor.

Jesus lhe disse: Eu também não te condenarei. Vá e não peques mais.” (João,

VIII:3-11)

13. “Quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra.” Antes de condenar alguém com dureza, devemos lembrar que também precisamos de compreensão. Não faz sentido desculpar em nós o mesmo comportamento que condenamos sem misericórdia nos outros.

Criticar uma atitude pode ter dois objetivos muito diferentes: impedir um dano ou destruir a reputação de uma pessoa. O segundo nasce da maldade ou do prazer em expor. O primeiro pode ser necessário quando realmente protege alguém ou ajuda a corrigir uma situação.

Por isso “não julgar” não significa ignorar abusos, crimes ou injustiças. Jesus também denunciou comportamentos prejudiciais. O cuidado está em não usar a correção como desculpa para arrogância, vingança ou hipocrisia.

Quem ocupa uma posição de responsabilidade perde autoridade moral quando pratica exatamente aquilo que exige dos outros. O exemplo dá força à orientação; a incoerência enfraquece a confiança.

Instruções dos Espíritos

Perdão das ofensas

Simeão - Bordeaux, 1862

14. A resposta de Jesus a Pedro — perdoar “setenta vezes sete” — é um convite para não transformar misericórdia em uma contagem. O Pai-Nosso traz a mesma ideia quando pede perdão na medida em que também aprendemos a perdoar.

Perdoar repetidamente não significa permanecer em uma situação de abuso nem abandonar limites necessários. Significa não viver dominado por vingança e procurar tratar o outro com a mesma misericórdia que esperamos receber quando erramos.

Antes de contar os erros dos outros, lembre quantas vezes você também precisou ser compreendido e perdoado.

A mensagem pede generosidade no perdão, na compreensão e no amor. Humildade e misericórdia são apresentadas como caminhos de aproximação com Deus.

Quanto maior a ofensa, mais difícil pode ser o processo de perdão. Isso não torna a dor pequena nem exige uma reconciliação imediata. O mérito está em trabalhar para que a ferida não se transforme em ódio permanente.

Perdão não deve ser apenas uma palavra religiosa. A mensagem propõe uma mudança real: diminuir o rancor, deixar de alimentar fantasias de vingança e concentrar energia no bem que ainda podemos fazer.

Uma boa pergunta ao terminar o dia é: estou guardando contra alguém um ressentimento que posso começar a trabalhar?

Paulo, apóstolo - Lyon, 1861

15. Paulo reforça a mesma ideia: quem deseja compreensão para os próprios erros deve evitar tornar-se excessivamente duro com os erros dos outros.

Em muitos conflitos, vale perguntar se também contribuímos para a situação: uma palavra agressiva, falta de escuta ou resposta impulsiva pode ter aumentado algo que começou pequeno.

Mesmo quando a outra pessoa errou primeiro, podemos piorar o conflito por represália. E quando realmente não tivemos participação no erro, escolher uma resposta equilibrada pode exigir ainda mais força interior.

Existe diferença entre dizer “eu perdoo” e realmente trabalhar o rancor. Às vezes a pessoa declara perdão, mas continua desejando sofrimento ao outro. A mudança interior costuma ser um processo, não uma frase instantânea.

O perdão verdadeiro aparece principalmente nas atitudes. Ele não exige apagar a memória nem voltar a uma relação insegura, mas procura retirar da lembrança o desejo de vingança e a necessidade de ver o outro destruído.

A compreensão

José, Espírito Protetor - Bordeaux, 1863

16. A compreensão evita transformar as falhas alheias em assunto de exposição e fofoca. Quando percebe um erro, procura primeiro entender o contexto e impedir que ele se espalhe desnecessariamente.

Isso não significa esconder situações que colocam pessoas em risco. Quando uma intervenção é realmente necessária, deve ser feita com objetivo útil e com o mínimo de humilhação possível. Conselho e proteção são diferentes de ridicularização.

Antes de dirigir um olhar severo para os outros, examine também sua própria conduta. Seja exigente com sua responsabilidade e cuidadoso com a fragilidade alheia.

Nossa avaliação é limitada porque não conhecemos completamente as intenções, a história e as lutas interiores de outra pessoa. Na visão religiosa da mensagem, somente Deus teria conhecimento completo para um julgamento perfeito.

Compreensão aproxima e facilita a mudança; dureza desnecessária costuma afastar e aumentar a resistência.

João, Bispo de Bordeaux, 1862

17. Seja compreensivo com as imperfeições dos outros e mais atento às próprias. Apoie quem está indo bem, encoraje quem está tentando e ajude quem ainda tem dificuldade, sem transformar superioridade moral em motivo de orgulho.

Mostrem a todos o anjo da arrependimento sincero, estendendo suas brancas asas sobre as faltas dos homens, e assim ocultando-as aos olhos daqueles que não podem ver o que é impuro. Compreendam a misericórdia infinita de seu Pai, e não esqueçam nunca de Lhe dizer em pensamento e, principalmente, pelas suas ações: “Perdoem as nossas ofensas, assim como perdoamos a quem nos têm ofendido”. Compreendam bem o valor destas sublimes palavras; a letra sozinha não é admirável, e sim o ensinamento que ela carrega.

Que solicitam ao Senhor ao Lhe pedir perdão? Apenas o esquecimento de suas faltas? Esquecimento que em nada resultaria, pois, se Deus se contentasse em esquecer as suas faltas, não lhes puniria, mas também não lhes recompensaria. A recompensa não pode ser o prêmio pelo bem que não se fez, e menos ainda pelo mal que se tenha feito, mesmo que esse mal fosse esquecido.

Pedindo perdão para as suas transgressões, pedem o favor de sua graça, para não caírem de novo, e a força necessária para entrarem num caminho novo, caminho de submissão e de amor, no qual poderão acrescentar a reparação ao arrependimento. Quando perdoarem aos seus irmãos, não lhes contentem em estender o véu do esquecimento sobre as suas faltas. Esse véu é, muitas vezes, transparente aos seus olhos. Acrescentem o amor ao seu perdão. Façam por eles o que peçam ao seu Pai celestial que faça por vocês.

Substituí a raiva que mancha pelo amor que purifica. Preguem-a, pelo exemplo, essa caridade? ativa e infatigável que Jesus lhes ensinou. Preguem-a como Ele mesmo o fez por todo o tempo em que viveu na Terra, visível aos olhos do corpo, e como ainda prega, sem cessar, depois que se fez visível somente aos olhos do Espírito. Sigam esse divino modelo, caminhem sobre as Suas pegadas e elas lhes conduzirão ao lugar de refúgio onde encontrarão o repouso após a luta.

Como Ele, tomem a sua cruz e subi penosamente, mas com coragem, o seu calvário: ao final estará a glorificação.

Dufêtre, Bispo de Nevers - Bordeaux

18. Caros amigos, sejam severos com vocês mesmos e compreensivos com a fraqueza dos outros; essa é também uma forma de praticar a caridade?, que bem poucas pessoas observam. Todos vocês têm más tendências a vencer, defeitos a corrigir, hábitos a modificar. Todos vocês têm um fardo mais ou menos pesado que aliviar, para subir ao cume da montanha do progresso. Por que, então, ser tão clarividentes quando se trata do próximo e tão cegos com vocês?

O ensinamento do cisco e da viga volta aqui: quem se considera muito superior aos demais corre o risco de não perceber os próprios defeitos. A humildade começa reconhecendo que todos ainda têm algo para aprender.

Caridade? e humildade procuram enxergar também o que há de bom em cada pessoa. Ninguém deve ser reduzido ao seu pior erro. Mesmo alguém com muitos defeitos pode conservar qualidades que podem ser fortalecidas.

A orientação final é praticar caridade? nas ações e nas intenções: com o próximo e também consigo mesmo. Na mensagem, amar a Deus e praticar caridade? são deveres inseparáveis.

É correto repreender alguém? Observar suas falhas? Divulgar algo errado que essa pessoa fez?

19. Se ninguém é perfeito, isso significa que ninguém pode corrigir outra pessoa?

São Luís responde que corrigir pode ser necessário, especialmente quando temos responsabilidade de orientar alguém. Mas a finalidade deve ser ajudar, não humilhar. Antes de apontar uma falha, também devemos perguntar se praticamos aquilo que estamos cobrando.

São Luís - Paris, 1860

20. Perceber uma imperfeição não é errado por si só. Precisamos reconhecer problemas para aprender e proteger pessoas. O erro está em usar essa percepção para desacreditar alguém sem necessidade ou alimentar prazer com sua queda.

Observar erros também pode servir para nosso próprio aprendizado: aquilo que criticamos nos outros pode nos ajudar a reconhecer comportamentos que não queremos repetir. A intenção e o uso dessa observação fazem toda a diferença.

São Luís - Paris, 1860

21. Existem situações em que revelar um comportamento prejudicial é necessário para proteger outras pessoas. Se o problema afeta apenas quem o pratica, a exposição pública pode ser inútil e cruel. Mas diante de fraude, abuso ou risco real para terceiros, alertar pode ser um dever. A decisão deve considerar proteção, verdade, proporcionalidade e o menor dano possível.

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