Capítulo 4 de 28 · linguagem simples
Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo
Ressurreição, reencarnação e os laços de família.Ressurreição e reencarnação - Laços de família fortalecidos pela reencarnação e rompidos pela unicidade da existência - Instruções dos Espíritos: Limites da encarnação -
Necessidade da encarnação.
1. “Estando Jesus perto de Cesareia de Filipe, interrogou Seus discípulos e lhes disse: que dizem os homens sobre o Filho do Homem? - Eles Lhe responderam: Alguns dizem que vocês são João Batista; outros, Elias; outros ainda, Jeremias ou algum dos profetas. - Jesus lhes disse: E vocês? Quem dizem vocês que Eu sou? - Simão Pedro, tomando a palavra, disse: Vocês são o Cristo, o Filho do Deus vivo. - Jesus lhe respondeu: Bem-aventurado é, Simão, filho de Jonas, porque não é o sangue nem a carne que te revelaram isto, mas, sim, meu Pai que está nos céus.” (Mateus, XVI:13-17; Marcos,
VIII:27-30)
2. “Porém, Herodes, o Tetrarca, ouviu falar de tudo o que Jesus fazia, e seu Espírito estava em dúvida, pois uns diziam que João tinha ressuscitado dentre os mortos, outros que Elias tinha aparecido e outros ainda que um dos antigos profetas havia ressuscitado. - Então Herodes disse: Eu mandei degolar a João, mas quem é este de quem se ouve dizer tão grandes coisas?
E ele buscava ocasião de vê-Lo.” (Marcos, VI:14-15; Lucas, IX:7-9)
3. (Após a transfiguração) “Seus discípulos O interrogaram, dizendo: Por que os escribas dizem que é preciso que Elias volte primeiro? - Mas Jesus lhes respondeu: É verdade que Elias há de vir e restabelecer as coisas, mas Eu lhes declaro que Elias já veio e eles não o conheceram, antes fizeram dele quanto quiseram. É assim que farão sofrer o Filho do Homem - Então Seus discípulos compreenderam que era de João Batista que Ele lhes havia falado.” (Mateus, XVII:10-13; Marcos, IX:11-13)
Ressurreição e reencarnação
4. A reencarnação fazia parte dos crenças consideradas incontestáveis judeus sob o nome de ressurreição. Somente os saduceus, acreditando que tudo terminava com a morte, não acreditavam nela. As ideias dos judeus sobre esse ponto, como sobre muitos outros, não estavam claramente definidas, porque só tinham vagas noções sobre a alma e a sua união com o corpo. Eles acreditavam que um homem poderia reviver, sem terem uma noção exata de como isto poderia acontecer. Designavam pela palavra ressurreição o que o Espiritismo chama, mais justamente, de reencarnação. Na verdade, a ressurreição supõe o retorno à vida do próprio cadáver, o que a Ciência comprova ser materialmente impossível, sobretudo quando os elementos desse corpo foram há muito tempo dispersos e absorvidos. A reencarnação é o retorno da alma ou do Espírito à vida
material, mas em outro corpo novamente constituído e que nada tem em comum com o antigo. A palavra ressurreição poderia, assim, aplicar-se a Lázaro, mas não a Elias nem aos demais profetas. Se, então, segundo sua crença, João Batista era Elias, o corpo de João não poderia ser o de Elias, pois João tinha sido visto criança, e seus pais eram
conhecidos. João poderia ser Elias reencarnado, mas não ressuscitado.
5. Havia um homem entre os fariseus, chamado Nicodemos, senador dos judeus, que veio uma noite encontrar Jesus e Lhe disse: “Rabi, sabemos que vocês são mestre, vindo da parte de Deus, porque ninguém saberia fazer os milagres que Você faz, se Deus não estiver com ele. Jesus lhe respondeu, dizendo: Na verdade, na verdade Eu te digo: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo. Nicodemos Lhe disse: Como pode nascer de novo um homem que já está velho? Por acaso pode entrar no ventre de sua mãe e nascer outra vez? Jesus lhe respondeu: Na verdade, na verdade Eu te digo: Se um homem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. - O que nasce da carne é carne e o que nasce do Espírito é Espírito. - Não te maravilhes de Eu te dizer que é preciso nascer de novo. - O Espírito sopra onde quer, e vocês escutam a sua voz, mas não sabe de onde vem ou para onde vai. Assim é com todo homem que nasce do Espírito. Nicodemos Lhe respondeu: Como isto pode acontecer? - Jesus lhe disse: Você é mestre em Israel e ignoras estas coisas? Na verdade, na verdade te digo, que nós só falamos daquilo que sabemos e somente damos testemunho do que vimos e, porém, você não recebes o nosso testemunho. Mas se você não me acreditas quando Eu falo das coisas
terrenas, como crerias se Eu te falasse das coisas celestiais?” (João, III:1-12)
6. A ideia de que João Batista fosse Elias e que os profetas pudessem reviver sobre a Terra encontra-se em muitas passagens dos Evangelhos, notadamente nestes relatados anteriormente (nos1, 2, 3). Se essa crença fosse um erro, Jesus a teria combatido, como fez com tantas outras. Ao contrário, Ele a confirmou com toda a Sua autoridade e a transformou num princípio, fazendo-a condição necessária, quando disse: “Ninguém pode ver o Reino dos Céus, se não nascer de novo” - e insistiu, acrescentando: “Não te
maravilhes de Eu ter dito que é preciso nascer de novo”.
7. Essas palavras: “Se não renascer da água e do Espírito”, foram interpretadas no sentido da renovação moral pela água do batismo. Mas o texto primitivo trazia simplesmente: “Não renascer da água e do Espírito”, enquanto que, em algumas traduções, a expressão do Espírito foi substituída por do Espírito Santo, o que não corresponde ao mesmo pensamento. Esse ponto capital provém dos primeiros comentários feitos sobre o Evangelho, assim como um dia será constatado sem equívoco possível1.
Kardec.)
8. Para compreender o sentido verdadeiro dessas palavras, é preciso igualmente se reportar à significação da palavra água que não foi empregada no seu sentido próprio. Os conhecimentos dos antigos sobre as ciências físicas eram muito imperfeitos; acreditavam que a Terra havia saído das águas. Por isso consideravam a água como o elemento gerador absoluto. É assim que está escrito na Gênese: “O Espírito de Deus era levado sobre as águas”, “flutuava na superfície das águas”; “que o firmamento seja feito em meio às águas”; “que as águas que estão sob o céu se reúnam num só lugar e que o elemento árido apareça”; “que as águas produzam animais viventes, que nadem nas águas, e pássaros que voem sobre a terra e sob o firmamento”. Conforme essa crença, a água havia se transformado no símbolo da natureza material, como o Espírito o era da natureza inteligente. Estas palavras: “Se o homem não renascer da água e do Espírito” ou “na água e no Espírito”, significam, então: “Se o homem não renascer com o corpo e a alma”. É nesse sentido que elas foram compreendidas no princípio. Esta interpretação se justifica, aliás, por estas outras palavras: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é Espírito”. Jesus faz aqui uma distinção positiva entre o Espírito e o corpo. “O que é nascido da carne é carne” indica claramente que somente o corpo
provém do corpo e que o Espírito é independente dele.
9. “O Espírito sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabe de onde vem nem para onde vai”, pode-se entender como o Espírito de Deus que dá a vida a quem quer, ou pela alma do homem. Nesta última acepção, “mas não sabe de onde vem ou para onde vai”, significa que não se sabe o que foi nem o que será o Espírito. Se, pelo contrário, o Espírito, ou alma, fosse criado com o corpo, poder-se-ia saber de onde ele vem, já que se saberia o seu começo. Em todo caso, esta passagem é a consagração do princípio da preexistência da alma e, por isso,
da pluralidade das existências.
10. Desde os tempos de João Batista até hoje, o Reino dos Céus é tomado pela violência, e são os violentos que o arrebatam. Até a época de João, a lei e todos os profetas profetizaram. “E se vocês querem compreender o que lhes digo, ele mesmo é o Elias que há de vir. Quem tiver
ouvidos para ouvir, ouça.” (Mateus, XI:12-15)
11. Se o princípio da reencarnação, expresso em João pudesse, a rigor, ser interpretado num sentido puramente místico, já não aconteceria o mesmo nesta passagem de Mateus, na qual não há equívoco possível: “Ele mesmo é o Elias que há de vir”. Não há aqui figura nem símbolo, é uma afirmação positiva. - “Desde o tempo de João
Batista até agora, o Reino dos Céus é tomado pela violência.” O que significam essas palavras, já que João Batista ainda vivia naquele momento? Jesus as explica, dizendo: “Se vocês querem compreender o que digo, é ele mesmo o Elias que há de vir”. Ora, João, não sendo outro que Elias, Jesus se referia ao tempo em que João vivia com o nome de Elias. “Até hoje o Reino dos Céus se toma pela violência” é uma outra alusão à violência da lei de Moisés, que ordenava o extermínio dos infiéis, para ganhar a Terra Prometida, paraíso dos hebreus, enquanto, segundo a nova lei, o céu se ganha com a caridade e a doçura. E, então, Ele acrescenta: “Aquele que tenha ouvidos de ouvir, ouça”. Essas palavras, tão frequentemente repetidas por Jesus, dizem claramente que nem todos
estavam em condições de compreender certas verdades.
12. “Os seus mortos viverão. Os meus, a quem tiraram a vida, ressuscitarão. Levantem e cantem louvores a Deus, vocês, que habitam no pó, pois o orvalho que cai sobre vocês é
orvalho de luz, e arruinarão a terra e o reino dos gigantes.” (Isaías, XXVI:19)
13. Essa passagem de Isaías é bem explícita: “Os seus mortos viverão”. Se o profeta tivesse querido falar da vida espiritual, se tivesse querido dizer que os mortos não estavam mortos em Espírito, teria dito: “ainda vivem”, e não “viverão”. No sentido espiritual, essas palavras seriam um contrassenso, pois implicariam uma interrupção na vida da alma. No sentido de renovação moral moral, seriam a negação das penas eternas,
já que estabelecem o princípio de que todos os que morreram reviverão.
14. “Quando o homem morre uma vez, e seu corpo, separado do Espírito, é consumido, em que se torna ele? - Tendo o homem morrido uma vez, poderia ele viver novamente? Nesta guerra em que me encontro, todos os dias da minha vida, espero que chegue a minha
mutação.” (Jó, XIV:10-
14. Tradução do Mestre de Sacy)
“Quando o homem morre, ele perde toda a sua força e expira, e, então, onde está ele? - Se o homem morre, ele reviverá? Esperarei eu todos os dias de meu combate, até que chegue a minha transformação?” (Idem. Tradução protestante de Osterwald.) “Quando o homem morre, vive sempre; terminando os dias de minha existência terrena, esperarei,
pois a ela voltarei novamente.” (Idem. Versão da Igreja Grega.)
15. O princípio da pluralidade das existências está claramente expresso nessas três versões. Não se pode supor que Jó tenha querido falar da renovação moral por meio da água do batismo, que ele certamente não conhecia. “Tendo o homem morrido uma vez poderia ele viver novamente?” A ideia de morrer uma vez e reviver implica a de morrer e reviver várias vezes. A versão da Igreja Grega é ainda mais explícita, se possível: “Terminando os dias de minha existência terrena, esperarei, pois a ela voltarei
novamente”. Ou seja, eu voltarei à existência terrena. Esta é tão clara como se alguém dissesse: “Eu saio de minha casa, mas a ela voltarei”. “Nesta guerra em que me encontro, todos os dias de minha vida, espero que chegue a minha mutação.” Jó quer, evidentemente, falar da luta que sustenta contra as misérias da vida. Ele aguarda a sua mutação, ou seja, ele se resigna. Na versão grega, eu esperarei, parece antes se aplicar à nova existência: “Quando minha existência terrena terminar, eu esperarei, pois para cá voltarei”. Jó parece colocar-se, depois da morte, no intervalo que separa uma existência
de outra, e dizer, então, que ali esperará o seu retorno.
16. Não é, portanto, duvidoso, que sob o nome de ressurreição, o princípio da reencarnação fosse uma das crenças fundamentais dos judeus e que fosse confirmado por Jesus e os profetas, de uma maneira formal. De onde se segue que negar a reencarnação é renegar as palavras do Cristo. Suas palavras terão, um dia, autoridade quanto a esse aspecto e quanto a muitos outros, quando forem meditadas sem ideias
preconcebidas.
17. Mas a essa autoridade, de natureza religiosa, vem juntar-se, no plano filosófico, a das provas que resultam da observação dos fatos. Quando dos efeitos se quer remontar às causas, a reencarnação aparece como uma necessidade absoluta, como uma condição inerente à Humanidade, em uma palavra, como uma lei da Natureza. Ela se revela, pelos seus resultados, de uma maneira por assim dizer material, como o motor oculto se revela pelo movimento que produz. Somente ela pode dizer ao homem de onde ele vem, para onde vai, por que está na Terra, e justificar todas as anomalias e todas as injustiças aparentes que a vida apresenta. Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, a maior parte das máximas do Evangelho ficam sem sentido. É por isso que elas deram motivo a interpretações tão contraditórias. Esse princípio é a chave que deve restituir-lhes verdadeiro sentido2.
Laços de família fortalecidos pela reencarnação
e rompidos pela unicidade da existência
18. Os laços de família não são destruídos pela reencarnação, como pensam algumas pessoas. Ao contrário, são fortalecidos e estreitados. É o princípio oposto que os destrói. Os Espíritos formam, no espaço, grupos ou famílias, unidos pela afeição, pela simpatia e pela semelhança das inclinações. Estes Espíritos, felizes de estarem juntos, se buscam. A encarnação somente os separa momentaneamente, pois que, uma vez retornando à erraticidade, eles se reencontram, como amigos que voltam de uma viagem. Frequentemente, eles seguem juntos durante a encarnação, reunindo-se numa mesma família ou num mesmo círculo, trabalhando juntos para a evolução mútua. Se uns estão
encarnados e os outros não, continuarão unidos pelo pensamento. Os que estão livres velam pelos que estão cativos, os mais evoluídos procuram ajudar no progresso dos retardatários. Depois de cada existência, terão dado mais um passo no caminho da perfeição. Cada vez menos apegados à matéria, seu afeto é mais vivo, por isso mais puro e não é mais perturbado pelo egoísmo nem
Para o desenvolvimento do tema “Reencarnação”, ver Kardec, Allan, O Livro dos Espíritos, Livro
Segundo, capítulo IV e notas (Mundo Maior Editora, 5a ed.) (N. do E.)
obscurecido pelas sombras da paixão. Eles podem, então, percorrer um número ilimitado de existências corporais, sem que nenhum prejuízo perturbe a sua mútua afeição. Entenda-se bem que se trata da afeição real de alma para alma, a única que sobrevive à destruição do corpo, pois os seres que se unem na Terra apenas pela atração física não têm nenhum motivo de se procurar no mundo dos Espíritos. Apenas as afeições espirituais são duráveis. As afeições carnais extinguem-se com a causa que as originou. Ora, essa causa não existe no mundo dos Espíritos, enquanto que a alma existe sempre. Quanto às pessoas unidas apenas pelos interesses, nada significam umas às
outras; a morte as separa na Terra e no Céu.
19. A união e a afeição existente entre parentes são o indício da simpatia anterior que os aproximou. Por isso, diz-se de uma pessoa cujo caráter, gostos e inclinações não têm nenhuma semelhança com as de seus familiares, que ela não pertence à família. Dizendo isso, anuncia-se uma grande verdade na qual não se acredita: Deus permite essas encarnações de Espíritos antipáticos ou estranhos nas famílias, com o duplo objetivo de servir de provas para uns e de meio de evolução para outros. Os maus se aperfeiçoam pouco a pouco, em contato com os bons e com os cuidados que deles recebem. Seu caráter se abranda, seus costumes se apuram, as antipatias desaparecem. É assim que se estabelece a fusão entre as diferentes categorias de Espíritos, como se faz na Terra entre
as raças1 e os povos.
20. O receio do aumento indefinido da parentela, em consequência da reencarnação, é uma crença egoísta, provando que não se possui uma capacidade de amor tão ampla, para abranger um grande número de pessoas. Um pai que tem muitos filhos os amaria menos do que se tivesse apenas um? Mas que os egoístas se tranquilizem, pois esse medo não tem fundamento. Mesmo que um homem tenha tido dez encarnações, não significa que ele encontrará no mundo dos Espíritos dez mães, dez pais, dez esposas e um número
proporcional de filhos e de novos parentes. Ele sempre encontrará os mesmos objetos de sua
Ver Nota Explicativa no fim deste volume, página 391 afeição, que lhe estiveram
ligados na Terra por diversas maneiras e talvez pelas mesmas maneiras.
21. Vejamos agora as consequências da doutrina antirreencarnacionista. Essa doutrina anula, necessariamente, a preexistência da alma. Se as almas tivessem sido criadas ao mesmo tempo que os corpos, não existiria entre elas nenhum laço anterior. Seriam, pois, completamente estranhas umas às outras. O pai seria estranho ao seu filho, e a união das famílias ficaria assim reduzida unicamente à filiação corporal, sem nenhum lastro espiritual. Não há nenhum motivo, portanto, para se glorificar de ter tido por ancestrais tais ou tais personagens ilustres. Com a reencarnação, ancestrais e descendentes podem ser conhecidos, ter vivido juntos, podem-se ter amado, e mais tarde
podem reunir-se de novo para estreitarem os seus laços de simpatia.
22. Isto quanto ao passado. Quanto ao futuro, segundo os crenças consideradas incontestáveis fundamentais que resultam do princípio antirreencarnacionista, o destino dessas almas está irrevogavelmente fixado depois de uma única existência. A fixação definitiva do destino implica a negação de todo o progresso, pois se há algum progresso, não há destino definitivo. Segundo tenham elas bem ou mal-vivido, vão imediatamente para a morada dos bem-aventurados ou para o inferno eterno. Desta forma, ficam imediatamente separadas para sempre, e sem esperanças de reaproximação, de tal maneira que pais, mães e filhos, maridos e esposas, irmãos e amigos não têm nunca a certeza de se reencontrarem: é a mais absoluta ruptura dos laços de família. Com a reencarnação e o progresso que lhe é consequente, todos os que se amaram se reencontram na Terra e no espaço, e juntos rumam para Deus. Se há os que fracassam no caminho, retardam a sua evolução e a sua felicidade, mas nem toda a esperança está perdida. Ajudados, encorajados e sustentados por aqueles que os amam, sairão, um dia, do atoleiro em que caíram. Com a reencarnação, enfim, há perpétua solidariedade entre
os encarnados e os desencarnados, do que resulta o estreitamento dos laços de afeição.
23. Em resumo, quatro alternativas se apresentam ao homem para o seu futuro de depois da morte: 1o) o nada, segundo a doutrina materialista; 2o) a absorção no todo universal, segundo a doutrina panteísta; 3o) a conservação da individualidade, com destino fixado, segundo a doutrina da Igreja; 4o) a conservação da individualidade, com progresso infinito, segundo a Doutrina Espírita. Segundo as duas primeiras, os laços de família são rompidos pela morte, e não há nenhuma esperança de se reencontrarem; com a terceira, há possibilidade de se reverem, contanto que estejam no mesmo meio, e
esse meio pode ser tanto o inferno quanto o paraíso. Com a pluralidade das existências, que é inseparável da evolução gradual, há a certeza da continuidade das relações entre os que se amam e é isso que constitui a verdadeira família.
Instruções dos Espíritos
Limites da encarnação
24. Quais são os limites da encarnação?
São Luiz - Paris, 1859 A encarnação não tem, propriamente falando, limites nitidamente traçados, se por isto se entende o envoltório que constitui o corpo do Espírito, visto que a materialidade desse envoltório diminui à medida que o Espírito se purifica. Em certos mundos, mais avançados que a Terra, ele é menos compacto, menos pesado e menos grosseiro e, consequentemente, menos sujeito a dificuldades e mudanças. Num grau mais elevado, ele é diáfano e quase fluídico. Passo a passo, ele se desmaterializa e termina por se confundir com o perispírito. Segundo o mundo ao qual o Espírito é chamado a viver, ele se reveste do envoltório apropriado à natureza desse mundo. O próprio perispírito sofre transformações sucessivas; eteriza-se mais e mais, até a purificação completa, que constitui a índole dos Espíritos puros. Se os mundos especiais estão destinados, como estações, aos Espíritos mais avançados, estes não estão sujeitos a eles, como nos mundos inferiores. O estado de desapego no qual se encontram lhes permite viajar por toda a parte, onde são chamados pelas missões que lhes são confiadas. Se considerarmos a encarnação do ponto de vista material, tal qual a vemos na Terra, pode-se dizer que ela está limitada aos mundos inferiores. Depende do Espírito, por isso, libertar-se mais ou menos prontamente, trabalhando pela sua purificação. É preciso considerar também que, no estado errante, ou seja, no intervalo das existências corporais, a situação do Espírito tem relação com a natureza do mundo a que o liga o seu grau de evolução. Assim, na erraticidade, ele é mais ou menos feliz, livre e esclarecido, conforme for mais ou menos desmaterializado.
Necessidade da encarnação
25. A encarnação é uma punição, e somente os Espíritos culpados é que lhe estão sujeitos?
São Luiz - Paris, 1859 A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária, para que eles possam realizar, com a ajuda de uma ação material, os planos cuja execução Deus lhes confiou. Ela é necessária por eles mesmos, pois a atividade que são obrigados a desempenhar ajuda-os no desenvolvimento da inteligência. Deus, sendo soberanamente justo, deve dotar de forma equitativa a todos os Seus filhos. É por isso que Ele concede a
todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de ação. Todo privilégio seria uma preferência, e toda preferência uma injustiça. Mas a encarnação, para todos os Espíritos, é apenas um estado transitório. É uma empreitada que Deus lhes impõem, no início da existência, como primeira prova do uso que farão de seu livre-arbítrio. Aqueles que realizam essa tarefa com zelo percorrem rapidamente, e de maneira menos difícil, estes primeiros degraus da iniciação e desfrutam mais cedo do fruto de seu trabalho. Aqueles que, ao contrário, fazem mau uso da liberdade que Deus lhes concede retardam a sua evolução. E é assim que, por sua insistência, podem prolongar indefinidamente a necessidade de reencarnar. E é assim
que a reencarnação se torna um castigo.
26. Observação - Uma comparação comum dará uma melhor compreensão dessa diferença. O estudante somente chega aos níveis superiores após ter percorrido a série de classes que o levam até lá. Essas classes, por mais trabalho que exijam, são um meio de se chegar ao objetivo, e não uma punição. O estudante dedicado abrevia o caminho e nele encontra menas dificuldades. É diferente para aquele em que a negligência e preguiça obrigam a repetir algumas séries. Não é o estudo a punição, mas a obrigação de recomeçar o mesmo trabalho. Assim é com o homem na Terra. Para o Espírito selvagem, que está no início da vida espiritual, a encarnação é um meio de desenvolver a inteligência. Mas, para o homem esclarecido, no qual o senso moral está largamente desenvolvido, e que se vê obrigado a repetir as etapas da vida material cheia de angústias - enquanto poderia já ter alcançado o objetivo - é um castigo, pela necessidade em que se acha de prolongar a sua permanência nos mundos inferiores e infelizes. Aquele que, ao contrário, trabalha ativamente para o seu progresso moral pode não somente abreviar a duração de sua encarnação material como transpor de uma só vez os degraus intermediários que o separam dos mundos superiores. Os Espíritos não poderiam encarnar apenas uma vez sobre o mesmo globo e passar suas diferentes existências em esferas diversas? Esta opinião somente seria admissível, se os homens estivessem, na Terra, exatamente no mesmo nível intelectual e moral. As diferenças que existem entre eles, desde o selvagem até o homem civilizado, revelam os níveis que têm a percorrer. Além disso, a encarnação deve ter uma finalidade útil. Ora, qual seria a finalidade das encarnações passageiras, das crianças que morrem em tenra idade? Teriam sofrido sem qualquer proveito, nem para elas nem para os outros?! Deus, cujas leis são soberanamente sábias, nada faz de inútil. Com as reencarnações no mesmo globo, quis que os mesmos Espíritos - encontrando-se de novo frente a frente - tivessem a ocasião de reparar as suas falhas recíprocas provenientes de suas relações anteriores. Ele quis, também, estabelecer os laços de família sobre uma base espiritual, apoiando numa lei natural os princípios de solidariedade, união entre irmãos e igualdade.