Capítulo 16 de 28 · Edição 3.0 · Português Brasileiro Simples

Não se pode servir a Deus e ao dinheiro

Riqueza, desapego, desigualdade e uso responsável dos bens.
Edição do textoVocê pode mudar quando quiser. Seus favoritos, notas e marcações continuam nos mesmos trechos.

A voz é gerada gratuitamente pelo seu próprio dispositivo.

Sem conta, o progresso continua salvo neste aparelho.
Facilitar leitura

Riqueza e responsabilidade — O perigo do apego ao dinheiro — Zaqueu — O rico e Lázaro — A parábola dos talentos — Uso responsável dos bens — Desigualdade econômica na visão espírita — Verdadeira propriedade — Desapego e herança.

Salvação dos ricos

1. Jesus ensina que ninguém consegue servir plenamente a dois senhores quando eles exigem direções contrárias. A frase “não podem servir a Deus e a Mamon” alerta contra transformar dinheiro e riqueza no centro da vida. (Lucas 16:13)

2. Um jovem rico perguntou a Jesus o que deveria fazer para alcançar a vida eterna. Jesus lembrou mandamentos como não matar, não roubar, não trair, não mentir, honrar pai e mãe e amar o próximo.

O jovem disse que já seguia esses mandamentos. Jesus então o convidou a desapegar-se de seus bens, ajudar os pobres e segui-Lo. O jovem foi embora triste porque possuía muita riqueza. Jesus usa uma imagem extrema — o camelo e o buraco da agulha — para mostrar como o apego à riqueza pode dificultar o desenvolvimento espiritual. (Mateus 19:16-24; Marcos 10:17-25; Lucas 18:18-25)

Cuidado com o apego excessivo ao dinheiro

3. Quando alguém pede que Jesus resolva uma disputa de herança, Ele aproveita para alertar: a vida não deve ser medida pela quantidade de bens acumulados. Em seguida, conta a história de um homem cuja colheita foi tão grande que ele decidiu construir depósitos maiores para guardar tudo.

O homem imaginou que, tendo muitos bens guardados, poderia simplesmente descansar e aproveitar a vida por muitos anos. A parábola lembra que a morte pode chegar antes do esperado e pergunta: para quem ficará aquilo que foi acumulado?

Jesus conclui que acumular apenas para si não é o mesmo que ser “rico diante de Deus”. O valor espiritual dos bens estaria no uso que fazemos deles, não apenas na quantidade possuída. (Lucas 12:13-21)

Jesus na casa de Zaqueu

4. Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos e homem rico, queria ver Jesus. Como era baixo e a multidão impedia sua visão, subiu em uma árvore. Jesus o chamou e disse que ficaria em sua casa. A atitude provocou críticas porque Zaqueu era malvisto por muitas pessoas.

Nota da edição anterior: há uma discussão de tradução sobre a imagem do “camelo” passando pelo buraco de uma agulha, porque palavras antigas semelhantes também podem ser associadas a “cabo”. O sentido geral permanece o de uma dificuldade extrema.

Zaqueu então afirma que dará metade de seus bens aos pobres e devolverá quatro vezes mais a quem tiver prejudicado. Jesus apresenta essa mudança concreta de atitude como sinal de transformação. A riqueza não é condenada por existir; o foco está no modo como foi obtida e utilizada. (Lucas 19:1-10)

Parábola do mau rico

5. Jesus conta a história de um homem muito rico que vivia em luxo enquanto Lázaro, um homem pobre e doente, permanecia à sua porta desejando até os restos de comida. Depois da morte dos dois, a situação se inverte na narrativa: Lázaro encontra consolo e o rico enfrenta sofrimento.

O rico pede alívio e ouve que, durante a vida, teve bens em abundância enquanto Lázaro viveu em extrema dificuldade. A parábola não condena simplesmente possuir recursos; denuncia a indiferença de quem vive no conforto e ignora uma pessoa necessitada diante de sua própria porta.

O rico pede então que seus irmãos sejam avisados para não repetirem o mesmo caminho. A resposta é que eles já possuem ensinamentos morais suficientes para escolher de maneira diferente.

A conclusão é que alguém decidido a ignorar esses ensinamentos talvez nem mesmo mude apenas por presenciar um acontecimento extraordinário. (Lucas 16:19-31)

Lucas 16:19-31

Parábola dos talentos

6. Na parábola dos talentos, um homem que vai viajar entrega quantias diferentes a três servidores, de acordo com a capacidade de cada um. Dois deles usam o que receberam e produzem novos resultados; o terceiro, com medo, enterra aquilo que recebeu.

Ao voltar, o senhor elogia o servidor que transformou cinco talentos em dez e reconhece sua responsabilidade no uso do que lhe foi confiado.

O mesmo acontece com quem recebeu dois talentos e produziu outros dois. O valor inicial era diferente, mas o princípio é igual: cada um responde pelo uso das oportunidades que recebeu.

O servidor que recebeu um talento devolve exatamente a mesma quantia, explicando que teve medo e preferiu escondê-la. O senhor critica a falta de iniciativa: aquilo que foi confiado permaneceu improdutivo.

Kardec usa a parábola como símbolo da responsabilidade pelo que recebemos — dinheiro, inteligência, influência, conhecimento ou qualquer capacidade. O problema não é receber quantidades diferentes, mas deixar de usar aquilo que temos para produzir algum bem. (Mateus 25:14-30)

Uso responsável da riqueza

7. Se a riqueza fosse, por si só, uma condenação, Deus estaria oferecendo a algumas pessoas um instrumento inevitável de perdição. Kardec rejeita essa interpretação. Para ele, riqueza é uma prova difícil porque amplia possibilidades, tentações e responsabilidades, mas também amplia a capacidade de realizar o bem.

É o supremo excitante do orgulho, do egoísmo e da vida voltado aos prazeres materiais. É o laço mais poderoso que liga o homem à Terra e desvia os seus pensamentos do Céu. Produz uma tal vertigem, que se vê, muitas vezes, aquele que passa da pobreza extrema à fortuna esquecer rapidamente a sua antiga posição, bem como dos seus companheiros, daqueles que o ajudaram, tornando-se sem sensibilidade, egoísta e sem importância.

Mas tornar a vida mais difícil não é o mesmo que torná-la inviável e pode se transformar a riqueza em meio de salvação nas mãos daquele que dela souber tirar proveito, como alguns venenos que podem recuperar a saúde, se forem empregados a propósito e com discernimento.

Quando Jesus disse ao jovem que O interrogava sobre os meios para ganhar a vida eterna: “Desfaze-te de todos os seus bens e segue-me”, não pretendia estabelecer como princípio absoluto que cada um devesse despojar-se do que possui, e que a salvação só se consegue a esse preço, mas mostrar que o apego aos bens terrenos é um obstáculo à salvação.

Esse jovem, na verdade, acreditava estar correto, já que havia observado certos mandamentos e, porém, recuava diante da ideia de abandonar os seus bens; seu desejo de obter a vida eterna não ia até esse sacrifício. A proposta que Jesus lhe fazia era uma prova decisiva, para esclarecer o fundo do seu pensamento. Ele poderia, sem dúvida, ser um padrão de homem honesto, segundo o mundo, não fazer mal a ninguém, não maldizer o seu próximo, não ser sem importância nem orgulhoso, honrar ao pai e à mãe.

Mas ele não tinha a verdadeira caridade?, pois a sua virtude não chegava até a desapego pessoal. Foi isso o que Jesus quis demonstrar. Era a aplicação do princípio: “fora da Caridade? não há salvação”. A consequência dessas palavras, tomadas num sentido rigoroso, seria a abolição da fortuna, como prejudicial à felicidade futura e como fonte de incontáveis males sobre a Terra. Seria, além disso, a condenação do trabalho que a pode proporcionar.

Consequência absurda, que reconduziria o homem à vida selvagem e, exatamente por isso, estaria em contradição com a lei de progresso, que é uma lei de Deus.

Se a riqueza é a fonte de muitos males, se excita tanto as más paixões, se provoca tantos crimes, não é a ela que devemos nos ater, mas ao homem que dela abusa, assim como faz com todos os dons de Deus. Pelo abuso, ele torna prejudicial o que lhe poderia ser-lhe mais útil. É a consequência do estado de inferioridade do mundo terreno. Se a riqueza produzisse apenas o mal, Deus não a teria colocado na Terra. Cabe ao homem saber transformá-la em fonte do bem.

Se ela não é uma causa imediata do progresso moral, é, sem contestações, um poderoso elemento de progresso intelectual. Com certeza, o homem tem por missão trabalhar para o desenvolvimento material do globo. Ele deve desbravá-lo, saneá-lo, dispô-lo para receber, um dia, toda a população que a sua extensão comporta. É preciso aumentar a produção para alimentar essa população. Se a produção de uma região for insuficiente, é preciso buscá-la noutra.

Por isso, as relações de povo a povo torna-se uma necessidade, e para facilitá-las é indispensável destruir os obstáculos materiais que os separam e tornar mais rápidas as comunicações.

Para os trabalhos que são obras dos séculos, o homem teve de extrair materiais das próprias entranhas da terra. Buscou na Ciência os meios de executá-los mais segura e rapidamente. Mas, para fazê-lo, necessitava de recursos. A necessidade o fez produzir as riquezas, assim como esta o fez descobrir a Ciência. A atividade necessária para estes mesmos trabalhos lhe aumenta e desenvolve a inteligência, a qual ele concentra, primeiramente, sobre a satisfação das necessidades materiais, e que o ajudará, mais tarde, a compreender as grandes verdades morais. Sem a riqueza, o primeiro meio de execução, não haveria grandes trabalhos, nem atividades, nem estímulos, nem pesquisas.

Desigualdade das riquezas

8. A desigualdade das riquezas é um dos problemas que em vão se procuram resolver, se considerarmos apenas a vida presente. A primeira questão que se apresenta é esta: Por que todos os homens não são igualmente ricos? Por uma razão muito simples: é que não são igualmente inteligentes, ativos e laboriosos para adquirir, nem sóbrios e previdentes para conservar.

É, além disso, uma questão matematicamente demonstrada que, repartida por igual, a riqueza daria a cada qual uma parte mínima e insuficiente; que, supondo-se feita esta divisão, o equilíbrio seria rompido em pouco tempo, pela diversidade dos caracteres e das aptidões; que, a supondo possível e durável, tendo cada um o suficiente para viver, isso equivaleria ao destruição completa de todos os grandes trabalhos que concorrem para o progresso e o bem-estar da Humanidade.

Imaginando, portanto, que ela desse a cada um o necessário, desapareceria a mola propulsora das grandes descobertas e os empreendimentos úteis. Se Deus concentra a riqueza em alguns pontos, é para que, de lá, ela se propague, em quantidades suficientes, segundo as necessidades. Admitindo-se isto, pergunta-se por que Deus concede a riqueza a pessoas incapazes de fazê-la frutificar para o bem de todos. Essa é ainda uma prova da sabedoria e da bondade de Deus.

Dando ao homem o livre-arbítrio, quis que ele aprendesse, pela sua própria experiência, a discernir o bem e o mal, de maneira que a prática do bem fosse o resultado dos seus esforços, da sua própria vontade. O homem não deve ser conduzido fatalmente ao bem, nem ao mal, sem isso ele seria apenas um instrumento passivo e irresponsável, como os animais.

A riqueza é um meio de testá-lo moralmente; mas como, ao mesmo tempo, é um poderoso meio de ação para o progresso, Deus não quer que ela permaneça improdutiva, e é por isso que ele a transfere incessantemente. Cada um deve possuí-la, para exercitar-se em seu uso e provar a utilização que sabe fazer dela, mas como é impossível, materialmente, que todos a possuam ao mesmo tempo - e, além disso, se todos a possuíssem, ninguém trabalharia, e o desenvolvimento do globo sofreria com isso: cada um a possui a seu tempo.

Na explicação espírita do século XIX, riqueza e pobreza poderiam alternar-se entre diferentes existências, oferecendo experiências e responsabilidades distintas. Pobreza seria uma prova de resistência e riqueza, uma prova de uso responsável dos recursos. Essa é uma interpretação doutrinária, não uma justificativa para desigualdade social nem um motivo para culpar pessoas pobres por sua condição.

Kardec procura responder por que algumas pessoas usam riqueza de modo egoísta enquanto outras vivem sem o necessário. Sua resposta se apoia na pluralidade das existências. Hoje, essa crença não deve servir para naturalizar pobreza, exploração ou desigualdade que podem e devem ser enfrentadas por escolhas sociais concretas.

Quem tem poucos recursos não precisa considerar sua condição sinal de inferioridade; quem tem muito não deve tratá-la como prova de superioridade. A mensagem coloca o problema moral no egoísmo e no orgulho e afirma que leis externas, embora necessárias, não substituem transformação de valores e responsabilidade social.

Quanto mais a caridade? orientar pessoas e instituições, menor será o espaço para abusos ligados ao dinheiro e ao poder.

Instruções dos Espíritos

A verdadeira propriedade

Pascal - Genebra, 1860

9. Pascal pergunta: o que realmente é nosso se tudo aquilo que pertence ao corpo fica para trás na morte? Na visão espiritual da mensagem, os bens mais duradouros são conhecimento, inteligência desenvolvida e qualidades morais.

Esses valores fariam parte do próprio Espírito e não poderiam ser retirados por perda financeira, mudança social ou morte. A imagem de preparar uma bagagem para uma viagem representa escolher aquilo que realmente terá utilidade na etapa seguinte.

Na chegada ao mundo espiritual, segundo a mensagem, títulos e patrimônio não definiriam a condição de ninguém. O que teria valor seria aquilo que a pessoa construiu interiormente e o bem que realizou.

O trabalhador poderia ser espiritualmente mais “rico” que um príncipe. Lugares no mundo espiritual não seriam comprados com dinheiro; a metáfora afirma que o verdadeiro patrimônio é formado pelas qualidades do coração.

A riqueza espiritual, portanto, não depende da conta bancária. Ela estaria relacionada àquilo que a pessoa se tornou e à maneira como tratou os outros.

M., Espírito Protetor - Bruxelas, 1861

10. A mensagem descreve os bens materiais como recursos temporariamente administrados por nós. Mesmo aquilo que parece completamente seguro pode ser perdido por circunstâncias fora do nosso controle.

Uma riqueza adquirida honestamente possui valor diferente daquela construída prejudicando pessoas. Trabalho e esforço merecem reconhecimento, mas não eliminam a responsabilidade sobre a forma de aquisição e de uso dos bens.

Ganhar dinheiro honestamente pode ser resultado de dedicação, mas usar tudo apenas para alimentar orgulho, ostentação e prazer pessoal desperdiça parte da oportunidade moral criada por esses recursos.

A mensagem resume: o esforço para adquirir riqueza não basta; também importa aquilo que fazemos depois com o que conquistamos.

Emprego da fortuna

Cheverus - Bordeaux, 1861

11. Cheverus dirige-se a quem transformou dinheiro em prioridade absoluta. A pergunta moral é: o que você fez com os recursos que estavam sob sua responsabilidade?

O melhor critério proposto é o amor ao próximo. Recursos podem financiar alimento, moradia, educação, saúde, trabalho, cultura e inúmeras ações que melhoram concretamente a vida de outras pessoas.

Caridade? não é apenas distribuir aquilo que sobra depois de uma vida de excessos. Também exige inteligência: compreender a necessidade, não humilhar quem recebe e, quando possível, atuar nas causas que mantêm aquela situação.

Dinheiro não é o único recurso compartilhável. Conhecimento, orientação, oportunidade de trabalho, educação e afeto também podem produzir autonomia e mudanças duradouras.

Um Espírito Protetor - Cracóvia, 1861

12. A mensagem critica quando quase toda a energia da vida é consumida apenas para ampliar conforto material e muito pouco tempo é dedicado ao desenvolvimento moral e aos vínculos humanos.

Trabalhar muito pode ser necessário e digno. O alerta é diferente: quando o acúmulo continua indefinidamente mesmo depois de atendidas as necessidades, vale perguntar se o esforço ainda responde a uma necessidade real ou apenas a medo, comparação, vaidade e desejo de possuir mais.

Na visão religiosa da mensagem, dedicar toda a existência ao corpo e às posses enquanto se abandona solidariedade e crescimento moral é inverter prioridades entre aquilo que é temporário e aquilo que acompanharia o Espírito.

O dinheiro deve servir à vida; a vida não deveria se tornar escrava do dinheiro.

Fénelon - Argel, 1860

13. Fénelon apresenta a pessoa rica como administradora de recursos que trazem responsabilidade. Usar tudo apenas para satisfação própria seria uma oportunidade desperdiçada; um uso que melhora a vida de outras pessoas transforma riqueza em instrumento de bem.

Doação direta é importante para aliviar fome, frio e falta de moradia. A mensagem também valoriza prevenir a miséria por meio de oportunidades de trabalho digno e outras condições que aumentem autonomia.

Trabalho não deve ser usado para humilhar quem precisa de ajuda nem como desculpa para negar socorro imediato. A ideia preservada é que grandes recursos podem gerar emprego, formação e desenvolvimento quando administrados com responsabilidade social.

A parábola dos talentos volta como comparação: riqueza parada apenas para acumulação é uma capacidade não colocada em movimento. Quando produz bem-estar e oportunidades, o recurso cumpre uma função social e moral maior.

A mensagem reconhece que formas modernas de trabalho e produção ampliaram as maneiras de usar recursos para o bem coletivo. Ajuda emergencial continua necessária, mas emprego digno e remuneração justa podem oferecer autonomia e reduzir dependência.

Desapego dos bens terrenos

Lacordaire - Constantina, 1863

14. Lacordaire chama atenção para o apego excessivo aos bens. O problema não é possuir coisas, mas permitir que o desejo de possuir ocupe todo o espaço destinado ao afeto, à consciência e aos outros valores da vida.

É natural sentir satisfação por uma conquista obtida com trabalho honesto. A pergunta é se a riqueza, depois de alcançada, trouxe liberdade ou apenas criou um novo medo de perder e uma necessidade permanente de acumular mais.

Entre avareza e desperdício existe equilíbrio. Caridade? não exige destruir o próprio patrimônio nem viver irresponsavelmente; exige aprender a usar recursos sem egoísmo, inclusive para beneficiar quem precisa.

A mensagem usa a imagem de que somos administradores, e não proprietários absolutos: um dia deixaremos para trás corpo, dinheiro e objetos. Essa consciência deveria diminuir o apego e aumentar a disposição de compartilhar o que excede nossas necessidades.

Comparando riqueza a um empréstimo, a mensagem pergunta como usamos aquilo que recebemos temporariamente. O objetivo da metáfora é criar responsabilidade, não culpa por possuir recursos.

Quanto maior a capacidade econômica, maior também pode ser o impacto das escolhas. Recursos podem sustentar apenas consumo privado ou também educação, trabalho, cuidado, cultura, saúde e inúmeras formas de benefício coletivo.

É fácil dar nomes positivos às próprias escolhas. Economia pode ser prudência ou medo excessivo; generosidade pode ser verdadeira partilha ou apenas ostentação. A consciência precisa olhar para a intenção e para os efeitos reais.

Guardar recursos para os filhos pode ser uma atitude responsável. Mas também vale examinar quando a preocupação legítima com a família vira justificativa para acumular sem limite enquanto necessidades graves existem ao redor.

Ensinar filhos a proteger somente o patrimônio familiar pode fortalecer egoísmo. Mais importante que deixar apenas bens é transmitir educação, responsabilidade e capacidade de usar aquilo que possuem também para o bem comum.

Quem conheceu pessoalmente o esforço necessário para conquistar estabilidade pode desenvolver maior compreensão por quem enfrenta dificuldades. Essa experiência pode tornar a caridade? mais consciente e menos distante.

O contrário também pode acontecer: alguém usa a própria história de superação para concluir que todos que não conseguiram o mesmo resultado simplesmente não se esforçaram. Essa comparação ignora diferenças de oportunidade, saúde, contexto e condições sociais.

A frase “faça como eu fiz” pode esconder orgulho quando desconsidera circunstâncias diferentes. Reconhecer o próprio trabalho não exige negar ajuda, oportunidades recebidas ou fatores fora de nosso controle.

Desapego também não significa gastar irresponsavelmente. Desperdício e ostentação continuam presos ao dinheiro, apenas de outra maneira. Generosidade responsável procura equilibrar necessidades próprias, compromissos e capacidade de compartilhar.

Desapegar-se é reconhecer o valor relativo da fortuna: usá-la bem enquanto existe e não construir toda a identidade em torno dela. Se houver uma perda, a fé pode ajudar a atravessar a mudança sem acreditar que tudo o que dava sentido à vida desapareceu.

A mensagem oferece confiança em Deus diante de perdas, mas isso não significa passividade. Podemos procurar novas soluções, reconstruir a vida e buscar apoio enquanto preservamos a ideia de que existem valores maiores que patrimônio.

Jesus não ensina que todos devam abandonar seus bens e escolher a miséria. Desapego não é mendicância voluntária. Possuir recursos pode criar responsabilidade e oportunidade de fazer bem quando eles são administrados com equilíbrio.

Rejeitar automaticamente recursos apenas por considerá-los espiritualmente perigosos também pode significar fugir da responsabilidade de administrá-los. O desafio é possuir sem ser possuído pelo que se tem.

Aprenda a viver sem riqueza quando ela não existe, use-a de forma útil quando estiver disponível e saiba abrir mão de parte dela quando uma necessidade real exigir. Contentamento reduz a escravidão da comparação constante.

Quem tem poucos recursos não precisa invejar quem tem muito; quem possui muito não deve esquecer a responsabilidade associada aos seus bens. A mensagem trata a fortuna como um recurso temporário que precisa justificar-se também pelo modo como beneficia outras vidas.

Na linguagem religiosa da mensagem, compartilhar com quem precisa é uma forma de devolver a Deus parte daquilo que recebemos da vida.

São Luís - Paris, 1860

15. Se os bens são vistos como administração temporária, ainda é legítimo deixá-los aos descendentes? São Luís responde que sim. A pessoa pode transmitir legalmente sua propriedade e organizar uma herança. O fato de tudo ser passageiro não elimina essa responsabilidade familiar.

A herança, porém, não transforma riqueza em posse eterna nem garante que permanecerá para sempre na família. O ensinamento é administrar o patrimônio com equilíbrio durante a vida e transmiti-lo de maneira responsável, sem fazer dele o único valor deixado aos filhos.

Continue sua jornada

Explore outros capítulos ou aprofunde este tema no Evangelho no Lar.

Ver índice completo →