Capítulo 16 de 28 · linguagem simples
Não se pode servir a Deus e ao dinheiro
Riqueza, desapego, desigualdade e uso responsável dos bens.Salvação dos ricos - Cuidado com o apego excessivo ao dinheiro - Jesus na casa de Zaqueu - Parábola do mau rico - Parábola dos talentos - Uso responsável da riqueza - Desigualdade das riquezas - Instruções dos Espíritos: A verdadeira propriedade - Emprego da fortuna - Desapego dos bens terrenos - Legados.
Salvação dos ricos
1. “Nenhum servo pode servir a dois mestres, pois ou odiará um e amará o outro, ou se ligará a um e desprezará o outro. Não podem servir ao mesmo tempo a Deus e a Dinheiro e
riqueza material.” (Lucas, XVI:13)
2. “Então, um jovem se aproximou Dele e disse: - Bom Mestre, o que devo fazer para adquirir a vida eterna? - Jesus lhe respondeu: - Por que me chamas de bom? Somente Deus é bom. Porém, se quer entrar na vida, guarda esses mandamentos. - Quais? Jesus lhe disse: Não mate; não cometerás adultério; não roubarás; não dirás falso testemunho. Honrarás a seu pai e a sua mãe, e amarás o seu próximo como a você mesmo. O jovem Lhe respondeu: - Eu guardei todos esses mandamentos desde a minha infância, o que me falta ainda? Jesus lhe disse: se quiser ser perfeito, vai, vende o que tem e dá-o aos pobres, e terá um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-me. Ouvindo essas palavras, o jovem se foi, triste, porque ele tinha muitos bens. E Jesus disse aos Seus discípulos: - Eu lhes digo, na verdade, que é bem difícil um rico entrar no Reino dos Céus. Eu lhes digo mais uma vez: - É mais fácil um camelo1 passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.” (Mateus, XIX:16-24; Lucas, XII:18-25; Marcos, X:17-25)
Cuidado com o apego excessivo ao dinheiro
3. “Um homem, então, Lhe diz em meio à multidão: - Mestre, diga ao meu irmão para dividir comigo a herança que nos foi deixada. Mas Jesus lhe diz: - Homem! Quem me constituiu juiz para vocês julgar ou para fazer partilhas? Depois lhes disse: Têm cuidado com toda a apego excessivo ao dinheiro, pois a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que possui. Ele lhes diz, em seguida, esta parábola: Havia um homem rico cujas terras tinham dado abundantes frutos. E ele se revolvia em pensamentos, dizendo: Que farei, já que não há lugar onde eu possa guardar tudo o que recolhi? Já sei o que farei, derrubarei os meus celeiros e os farei maiores; e lá colocarei toda a minha colheita e todos os meus bens e direi à minha alma: Minha alma, você sem muitos bens reservados para muitos anos, repousa, come, bebe, aproveita. Mas Deus, ao mesmo tempo, disse a este homem: Sem bom senso que é! Sua alma será recolhida esta noite mesmo e para quem ficará tudo o que acumulaste? É isso o que acontece com aquele que acumula tesouros para si mesmo e que não é rico diante de Deus.” (Lucas, XII:13-21)
Jesus na casa de Zaqueu
4. “Estando Jesus em Jericó, passava pela cidade onde havia um homem chamado Zaqueu - chefe dos cobradores de impostos e muito rico - que, tendo vontade de ver a Jesus para conhecê-Lo, não o podia conseguir, pois era pequeno de estatura e a multidão o impedia. Por isso correu adiante, e subiu a uma árvore para vê-Lo, pois Ele passaria por ali. Tendo Jesus vindo a este lugar, levantou os olhos e o viu, chamando-o: Zaqueu, desça, pois é preciso que Eu me abrigue, hoje, na sua casa. Zaqueu desceu rapidamente e recebeu-O com
Esta figura de linguagem pode parecer estranha; na realidade, em hebreu, a mesma palavra serve
para designar “cabo” e “camelo”. A tradução com a primeira palavra seria a mais correta. (N. do E.)
alegria. Todos viram a cena e comentaram: Ele foi se abrigar na casa de um homem de má vida.” (Ver Introdução, art. Cobradores de impostos.) “Porém, se apresentando diante do Senhor, Zaqueu Lhe diz: Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, pagar-lho-ei quadruplicado. Jesus lhe disse: Essa casa, hoje, recebeu a salvação, pois este também é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que estava perdido.” (Lucas, XIX:1-10)
Parábola do mau rico
5. “Havia um homem rico, vestido de púrpura e linho, que se banqueteava esplendidamente todos os dias. Havia também um pobre mendigo, chamado Lázaro, estendido à sua porta, todo coberto de chagas, que desejava as migalhas que caíam da mesa do rico, mas ninguém lhas dava; e os cães vinham lamber-lhe as feridas. Ora, esse pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. O rico também morreu e teve o inferno por sepulcro. Quando este, atormentado, ergueu os olhos, viu de longe Abraão e Lázaro, em seu seio. Gritando, ele disse essas palavras: - Pai Abraão, tenham piedade de mim e manda cá Lázaro, para que ele molhe a ponta do seu dedo na água, para refrescar-me a língua, pois eu sofro sofrimentos intensos extremos neste fogo. Mas Abraão lhe respondeu: - Meu filho, lembre-se de que recebeste os seus bens durante a vida, e Lázaro somente teve dificuldades; é por isso que ele está agora, consolado, enquanto você está atormentado. Além disso, há um grande abismo entre nós e vocês, de maneira que aqueles que quiserem passar daqui para onde estão não podem fazê- lo, como não se pode passar daí para onde estamos. O rico lhe disse: - Eu lhes suplico, pai Abraão, que envies à casa de meu pai, onde eu tenho cinco irmãos, para que eles saibam dessas coisas, pois temo que eles também venham para este lugar de sofrimentos intensos. Abraão lhe respondeu: - Eles têm Moisés e os profetas; ouçam-nos. - Não, pai, se algum dos mortos for encontrá-los, eles farão penitência. Abraão lhe respondeu: - Se eles não ouvem Moisés, nem os profetas, tampouco se deixarão persuadir, nem mesmo se algum dos mortos ressuscitar.” (Lucas,
XVI:19-31)
Parábola dos talentos
6. “O senhor age como um homem que, devendo fazer uma longa viagem, chamou seus servos e lhes entregou os seus bens. E tendo dado cinco talentos a um, dois a outro e um a outro, de acordo com a sua capacidade, partiu bem cedo. Aquele que tinha recebido cinco talentos foi negociar com o dinheiro e ganhou mais cinco. O que tinha recebido dois também ganhou mais dois. Mas aquele que apenas tinha recebido um, indo-se com ele foi cavar a terra, e nela escondeu o dinheiro de seu senhor. Muito tempo depois, o senhor desses servos voltou, e lhes pediu conta do que lhes tinha dado. Aquele que tinha recebido cinco talentos veio, e lhe apresentou mais cinco, dizendo: - Senhor, deram-me cinco talentos nas mãos e aqui estão mais cinco que eu ganhei. Seu senhor lhe respondeu: - Muito bem, bom e fiel servo, por teres sido fiel nas coisas pequenas, eu te reservarei a intendência das grandes; entra na alegria do seu Senhor. Aquele que havia recebido dois talentos veio da mesma forma se apresentar a ele e lhe disse: - Senhor, colocaram-me dois talentos nas mãos e aqui estão, além deles, mais dois que eu ganhei. Seu senhor lhe respondeu: Ó bom e fiel servo, por teres sido fiel nas pequenas coisas, eu te darei a intendência das grandes. Entra na alegria do seu senhor. Aquele que tinha recebido apenas um talento lhe disse: - Senhor, eu sei que é um homem rígido, segas onde não semeaste, e recolhes onde não espalhaste, é por isso que, temendo, escondi seu talento na terra e aqui lhe devolvo o que é seu. Mas seu mestre lhe respondeu: servo mau e preguiçoso, sabias que sego onde não semeei, e que recolho onde não tenho espalhado. Devias logo dar o meu dinheiro aos banqueiros, para que, na minha volte, eu o retirasse com os juros, que me pertence. Tirem-lhe, então, o talento, e deem-o ao que tem dez talentos. Pois a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância, mas ao que não tem, tirar- -se-lhe-á até o que parece ter. E lancem o servo inútil nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes.” (Mateus, XXV:14-30)
Uso responsável da riqueza
7. Se a riqueza fosse um obstáculo absoluto à salvação daqueles que a possuem - como se poderia inferir de algumas palavras de Jesus, interpretadas segundo a letra e não segundo o Espírito. Deus, que as distribui, teria colocado nas mãos de alguns um instrumento fatal de perdição, pensamento que revolta à razão. A riqueza é, sem dúvida, uma prova muito arriscada, mais perigosa do que a miséria, graças aos seus atrativos, às tentações e à fascinação que exerce. É o supremo excitante do orgulho, do egoísmo e da vida voltado aos prazeres materiais. É o laço mais poderoso que liga o homem à Terra e desvia os seus pensamentos do Céu. Produz uma tal vertigem, que se vê, muitas vezes, aquele que passa da miséria à fortuna esquecer rapidamente a sua antiga posição, bem como dos seus companheiros, daqueles que o ajudaram, tornando-se sem sensibilidade, egoísta e sem importância. Mas tornar a vida mais difícil não é o mesmo que torná-la inviável e pode se transformar a riqueza em meio de salvação nas mãos daquele que
dela souber tirar proveito, como alguns venenos que podem recuperar a saúde, se forem empregados a propósito e com discernimento. Quando Jesus disse ao jovem que O interrogava sobre os meios para ganhar a vida eterna: “Desfaze-te de todos os seus bens e segue-me”, não pretendia estabelecer como princípio absoluto que cada um devesse despojar-se do que possui, e que a salvação só se consegue a esse preço, mas mostrar que o apego aos bens terrenos é um obstáculo à salvação. Esse jovem, na verdade, acreditava estar correto, já que havia observado certos mandamentos e, porém, recuava diante da ideia de abandonar os seus bens; seu desejo de obter a vida eterna não ia até esse sacrifício. A proposta que Jesus lhe fazia era uma prova decisiva, para esclarecer o fundo do seu pensamento. Ele poderia, sem dúvida, ser um padrão de homem honesto, segundo o mundo, não fazer mal a ninguém, não maldizer o seu próximo, não ser sem importância nem orgulhoso, honrar ao pai e à mãe. Mas ele não tinha a verdadeira caridade, pois a sua virtude não chegava até a desapego pessoal. Foi isso o que Jesus quis demonstrar. Era a aplicação do princípio: “fora da Caridade não há salvação”. A consequência dessas palavras, tomadas num sentido rigoroso, seria a abolição da fortuna, como prejudicial à felicidade futura e como fonte de incontáveis males sobre a Terra. Seria, além disso, a condenação do trabalho que a pode proporcionar. Consequência absurda, que reconduziria o homem à vida selvagem e, exatamente por isso, estaria em contradição com a lei de progresso, que é uma lei de Deus.
Se a riqueza é a fonte de muitos males, se excita tanto as más paixões, se provoca tantos crimes, não é a ela que devemos nos ater, mas ao homem que dela abusa, assim como faz com todos os dons de Deus. Pelo abuso, ele torna prejudicial o que lhe poderia ser-lhe mais útil. É a consequência do estado de inferioridade do mundo terreno. Se a riqueza produzisse apenas o mal, Deus não a teria colocado na Terra. Cabe ao homem saber transformá-la em fonte do bem. Se ela não é uma causa imediata do progresso moral, é, sem contestações, um poderoso elemento de progresso intelectual. Com certeza, o homem tem por missão trabalhar para o desenvolvimento material do globo. Ele deve desbravá-lo, saneá-lo, dispô-lo para receber, um dia, toda a população que a sua extensão comporta. É preciso aumentar a produção para alimentar essa população. Se a produção de uma região for insuficiente, é preciso buscá-la noutra. Por isso, as relações de povo a povo torna-se uma necessidade, e para facilitá-las é indispensável destruir os obstáculos materiais que os separam e tornar mais rápidas as comunicações.
Para os trabalhos que são obras dos séculos, o homem teve de extrair materiais das próprias entranhas da terra. Buscou na Ciência os meios de executá-los mais segura e rapidamente. Mas, para fazê-lo, necessitava de recursos. A necessidade o fez produzir as riquezas, assim como esta o fez descobrir a Ciência. A atividade
necessária para estes mesmos trabalhos lhe aumenta e desenvolve a inteligência, a qual ele concentra, primeiramente, sobre a satisfação das necessidades materiais, e que o ajudará, mais tarde, a compreender as grandes verdades morais. Sem a riqueza, o primeiro meio de execução, não haveria grandes trabalhos, nem atividades, nem estímulos, nem pesquisas.
Desigualdade das riquezas
8. A desigualdade das riquezas é um dos problemas que em vão se procuram resolver, se considerarmos apenas a vida presente. A primeira questão que se apresenta é esta: Por que todos os homens não são igualmente ricos? Por uma razão muito simples: é que não são igualmente inteligentes, ativos e laboriosos para adquirir, nem sóbrios e previdentes para conservar. É, além disso, uma questão matematicamente demonstrada que, repartida por igual, a riqueza daria a cada qual uma parte mínima e insuficiente; que, supondo-se feita esta divisão, o equilíbrio seria rompido em pouco tempo, pela diversidade dos caracteres e das aptidões; que, a supondo possível e durável, tendo cada um o suficiente para viver, isso equivaleria ao aniquilamento de todos os grandes trabalhos que concorrem para o progresso e o bem-estar da Humanidade. Imaginando, portanto, que ela desse a cada um o necessário, desapareceria a mola propulsora das grandes descobertas e os empreendimentos úteis. Se Deus concentra a riqueza em alguns pontos, é para que, de lá, ela se propague, em quantidades suficientes, segundo as necessidades. Admitindo-se isto, pergunta-se por que Deus concede a riqueza a pessoas incapazes de fazê-la frutificar para o bem de todos. Essa é ainda uma prova da sabedoria e da bondade de Deus. Dando ao homem o livre-arbítrio, quis que ele aprendesse, pela sua própria experiência, a discernir o bem e o mal, de maneira que a prática do bem fosse o resultado dos seus esforços, da sua própria vontade. O homem não deve ser conduzido fatalmente ao bem, nem ao mal, sem isso ele seria apenas um instrumento passivo e irresponsável, como os animais. A riqueza é um meio de testá-lo moralmente; mas como, ao mesmo tempo, é um poderoso meio de ação para o progresso, Deus não quer que ela permaneça improdutiva, e é por isso que ele a transfere incessantemente. Cada um deve possuí-la, para exercitar-se em seu uso e provar a utilização que sabe fazer dela, mas como é impossível, materialmente, que todos a possuam ao mesmo tempo - e, além disso, se todos a possuíssem, ninguém trabalharia, e o desenvolvimento do globo sofreria com isso: cada um a possui a seu tempo. Aquele que hoje não a tem, já a teve no passado ou a terá no futuro, em outra existência, e aquele que agora a possui, poderá não tê-la mais amanhã. Há ricos e pobres porque Deus, sendo justo, cada qual deve trabalhar por sua vez. A pobreza é para uns a prova de paciência e de aceitação serena; para outros, é a prova da caridade e da desapego pessoal. Lamenta-se, com razão,
o triste uso que algumas pessoas fazem de sua fortuna, as indignos paixões que a desejo excessivo de possuir provoca, e pergunta-se se Deus é justo, quando dá a riqueza a tais pessoas. É verdade que, se o homem tivesse apenas uma existência, nada justificaria uma tal divisão dos bens terrenos; mas se, em vez de limitar a sua vida ao presente, considerássemos o conjunto das existências, veríamos que tudo se equilibra com justiça. O pobre não tem, então, motivos para acusar a Providência, nem para invejar os ricos, e estes não o têm para se vangloriarem do que possuem. Se abusam da fortuna, nenhum decreto ou lei suntuária remediará o mal. As leis podem mudar momentaneamente o exterior, não podem mudar o coração. É por isso que têm um efeito temporário e provocam sempre uma reação mais desenfreada. A fonte do mal está no egoísmo e no orgulho. Os abusos de toda natureza acabarão por si mesmos, quando os homens se dirigirem pela lei da caridade.
Instruções dos Espíritos
A verdadeira propriedade
Pascal - Genebra, 1860
9. O homem simplesmente possui de seu o que pode levar deste mundo. O que ele encontra ao chegar e o que deixa ao partir, usufrui segundo a sua permanência na Terra. Mas, já que é forçado a abandonar o que possui, apenas tem o usufruto, e não a posse real. O que é, então, que ele possui? Nada do que se destina ao uso do corpo, e tudo o que se refere ao uso da alma: a inteligência, os conhecimentos, as qualidades morais. É isto o que ele traz e leva consigo, o que ninguém tem o poder de tirar-lhe, e o que lhe servirá muito mais no outro mundo do que neste. Dele depende ser mais rico na sua partida do que em sua chegada, pois do que ele tiver conquistado no bem, depende a sua posição futura. Quando um homem vai a um país longínquo, arruma a sua bagagem com objetos que usará naquele país, mas não se sobrecarrega com coisas que lhe seriam inúteis. Façam, pois, o mesmo, em relação à vida após a morte, abastecendo-se de tudo o que poderá lhes servir. Ao viajante que chega a uma estalagem, dá-se-lhe um bom alojamento, se ele puder pagar. Àquele que pode menos, dá-se um pior. Quanto àquele que nada tem, é deixado ao relento. Assim ocorre com o homem, quando chega ao mundo dos Espíritos: sua colocação está subordinada às suas posses, mas não é com ouro que ele salda seu compromisso. Não lhe será perguntado: quanto possuístes na Terra? Que função ocuparam? Eras príncipe ou operário? Mas lhe será perguntado: O que trazes? Não será computado o valor de seus bens, nem dos seus títulos, mas a soma de suas virtudes. Sendo assim, o operário pode ser mais rico do que o príncipe. Em vão alegará que, antes de sua partida, pagou em ouro a sua entrada no Céu. A isto lhe
responderão: os lugares não se compram aqui, eles são ganhos pelo bem que se faz. Com a moeda terrestre podem comprar terras, casas, palácios. Aqui, tudo se paga com as qualidades do coração. São ricos destas qualidades? Sejam bem-vindos, vão ao primeiro lugar, no qual todas as venturas lhes esperam. São pobre? Vão ao último, onde serão tratado em razão de suas posses.
M., Espírito Protetor - Bruxelas, 1861
10. Os bens da Terra pertencem a Deus, que os dá de acordo com a sua vontade. O homem tem apenas o usufruto, é o administrador mais ou menos íntegro e inteligente. Pertencem tão pouco ao homem, como propriedade individual, que Deus frustra, muitas vezes, todas as suas previsões. A fortuna escapa àquele que acredita possuí-la com os melhores títulos. Dirão, talvez, que isto acontece com a fortuna hereditária, mas não àquela que se adquire trabalhando. Sem dúvida nenhuma - se há uma fortuna legítima, é a que foi adquirida honestamente - pois uma propriedade somente é legitimamente adquirida quando, para possuí-la, não se prejudicou a ninguém. Pedir-se-á contas de um centavo mal adquirido, prejudicando alguém. Mas por que um homem deva a sua riqueza a si mesmo, trará alguma vantagem ao morrer? Os cuidados que ele toma para transmiti-la aos seus descendentes não são, muitas vezes, inúteis? Se Deus não quer que estes a recebam, nada poderá prevalecer sobre a Sua vontade. Pode ele usar e abusar dela, impunemente, durante a sua vida, sem ter de prestar contas? Não. Permitindo que o homem a adquira, Deus quis recompensá-lo, durante a sua vida, pelos seus esforços, coragem e persistência. Mas se ele somente a empregou para a satisfação de seus sentidos ou de seu orgulho, se ela se tornou causa de queda para si mesmo, melhor seria se não a tivesse possuído.
Nesse caso, ele perde de um lado o que ganhou de outro, anulando por si mesmo o mérito de seu trabalho, e quando deixar a Terra, Deus lhe dirá que já recebeu a sua recompensa.
Emprego da fortuna
Cheverus - Bordeaux, 1861
11. Não podem servir a Deus e a Dinheiro e riqueza material; guardem bem isto, vocês a quem o amor do ouro domina, que venderíeis a alma para possuir tesouros, porque isso poderia lhes colocar acima dos outros e dar-se as alegrias das paixões. Não, não podem servir a Deus e a Dinheiro e riqueza material! Se sentis sua alma dominada pelas cobiças da carne, apressem-se em sacudir o peso que lhes esmaga, pois Deus, justo e severo, lhes dirá: O que fez ecônomo infiel, dos bens que te confiei? Empregaste este poderoso móvel das boas obras, apenas para a sua satisfação pessoal? Qual é o melhor
emprego da fortuna, então? Procurem nestas palavras: “amem uns aos outros”, a solução desse problema. Está aí o segredo do bom uso das riquezas. Aquele que tem em si o amor ao próximo tem a sua linha de conduta inteiramente traçada, pois a aplicação que agrada a Deus, é a da caridade. Não essa caridade fria e egoísta, que consiste em espalhar em volte de si o que é além do necessário de uma existência dourada, mas aquela que socorre sem humilhar. Rico, dá do seu o que é além do necessário. Faze melhor: dá um pouco do que te é necessário, pois o seu necessário é ainda o que é além do necessário, mas dá com sabedoria. Não repilas o pranto, com medo de seres enganado, mas vá à fonte do mal. Ajuda antes, informa-te em seguida, e verá se o trabalho, os conselhos, até a afeição não seriam mais eficazes do que a sua ajuda material. Difunde à sua volte, com a abastança, o amor do trabalho, o amor ao próximo, o amor de Deus. Põe a sua riqueza sobre uma base segura e ela te garantirá grandes lucros: as boas obras. A riqueza da inteligência deve servir-te como a do ouro: distribui à sua volte os tesouros da educação, distribui aos seus irmãos o fruto do seu amor e eles frutificarão.
Um Espírito Protetor - Cracóvia, 1861
12. Quando considero a brevidade da vida, causa-me dolorosa impressão a sua incessante preocupação com o bem-estar material, enquanto dedicais tão pouco do seu tempo ao aperfeiçoamento moral, que lhes será levado em conta na eternidade. Acreditar-se-ia, vendo a atividade desenvolvida, que se trata de questão do mais alto interesse para a Humanidade, quando, na verdade, trata-se quase sempre de satisfazer a vocês mesmos nas necessidades exageradas, na vaidade, ou de vocês entregardes aos excessos. Quanta dor, preocupações, sofrimentos intensos, quantas noites de insônia para aumentar uma fortuna muitas vezes mais do que suficiente! O absurdo, não raro, é ver aqueles que têm um amor imoderado pela fortuna e prazeres que ela proporciona, sujeitarem-se a um trabalho difícil, vangloriarem-se de uma existência de sacrifício e de merecimento, como se trabalhassem para os outros e não para si mesmos. Sem bom senso! Credes realmente que lhes serão levados em conta as preocupações e os esforços que o egoísmo, a ganância ou o orgulho puseram em ação, enquanto negligenciais o seu futuro, e os deveres da solidariedade fraterna inerentes a todos os que desfrutam das vantagens da vida social? Pensastes apenas no seu corpo, em seu bem-estar, nos prazeres. São o único objeto de sua cuidado egoísta. Em prol do corpo que morre, negligenciastes seu Espírito que viverá para sempre. Também esse amo, tão mimado e acariciado, tornou-se o seu tirano. Ele comanda o seu Espírito, que dele se fez escravo. Foi esse o objetivo da existência que Deus lhes deu?
Fénelon - Argel, 1860
13. Sendo o homem o depositário, o administrador dos bens que Deus envia às suas mãos, ser-lhe-ão pedidas severas contas do emprego que houver feito deles, por causa de seu livre-arbítrio. O mau emprego consiste em usá-los apenas para a sua satisfação pessoal. Ao contrário, o emprego é bom sempre que dele resulta um bem para os outros. O mérito é proporcional ao sacrifício que para tanto se obriga. A ajuda ao próximo é apenas um dos modos de emprego da fortuna: ela alivia a miséria atual, aplaca a fome, protege do frio e dá abrigo àquele que não o tem; no entanto, é um dever imperioso, igualmente meritório, e consiste em prevenir a miséria. É essa, sobretudo, a missão das grandes fortunas, pelo trabalho, em geral, que podem proporcionar. Pudessem elas tirar disso um proveito legítimo, o bem não deixaria de existir, pois o trabalho desenvolve a inteligência e exalta a dignidade do homem, seguro de poder dizer que ele mesmo ganhou o próprio pão, enquanto que a ajuda material humilha e degrada. A riqueza concentrada numa só mão deve ser como uma fonte de água viva, que espalha a fecundidade e o bem-estar ao seu redor. Ó vocês, ricos, que a empregardes segundo os planos do Senhor, terão o coração como o primeiro a beneficiar-se nessa fonte benfazeja. Terão, nesta vida, as difíceis de descrever alegrias da alma, em vez dos prazeres materiais do egoísta, que deixam o vazio no coração. Seu nome será bendito na Terra e quando a deixarem, o Soberano Senhor lhes dirigirá as palavras da parábola dos talentos: “Oh! bom e fiel servo, entrem na alegria do Senhor”. Nessa parábola, o servo que enterrou o dinheiro que lhe foi confiado não é a imagem dos muito apegados ao dinheiro, nas mãos de quem a riqueza é improdutiva? Se, porém, Jesus fala principalmente das ajudas materiais, é que naquele tempo, e no país em que vivia, ainda não se conheciam os trabalhos que as artes e a indústria desenvolveriam mais tarde, e nos quais a fortuna pode ser empregada utilmente, para benefício geral. A todos os que podem dar, pouco ou muito, direi, portanto: Deem ajudas materiais, quando necessário, mas o quanto possível, convertei-a em salário, para que aquele que a recebe não tenha do que se envergonhar.
Desapego dos bens terrenos
Lacordaire - Constantina, 1863
14. Venho, meus irmãos, meus amigos, trazer-se o meu auxílio, para vocês ajudar a caminhar corajosamente no caminho do aperfeiçoamento em que entrastes. Somos devedores uns dos outros e somente com uma união sincera e fraternal, entre os Espíritos e os encarnados, a renovação moral será possível. Seu apego aos bens terrenos é um dos mais fortes entraves ao seu progresso moral e espiritual. Por causa desse desejo pela posse, destruís as suas faculdades afetivas, dirigindo-as para as coisas materiais. Sejam sinceros; a riqueza traz a felicidade sem manchas? Quando seus cofres estão
cheios, não há sempre um vazio no coração? No fundo desse buquê de flores, não há sempre um réptil oculto? Eu entendo que o homem que, por um trabalho assíduo e honrado, conquistou uma fortuna, prove uma satisfação, bem justa por sinal. Mas desta satisfação, muito natural e aprovada por Deus, a um apego que absorve outro sentimento e paralisa os impulsos do coração, há uma grande distância, igual a que vai da sórdido apego excessivo ao dinheiro à desperdício exagerada, dois vícios entre os quais Deus colocou a caridade, santa e salutar virtude que ensina o rico a dar sem exibição, para que o pobre receba sem humilhação. Quer a riqueza venha de sua família, quer ela tenha sido ganha com o trabalho, há uma coisa que nunca devem esquecer: tudo o que vem de Deus, a Ele retorna. Nada lhes pertence na Terra, nem mesmo o seu pobre corpo; a morte lhes despoja dele, assim como de todos os bens materiais. São administradores, e não proprietários, não lhes enganeis. Deus lhes emprestou, devem restituir. E Ele lhes empresta com a condição de que, ao menos o que é além do necessário, seja revertido àqueles que não têm o necessário. Um de seus amigos lhes empresta uma quantia. Por menos honestidade que tenham, terão escrúpulos de pagá-la e lhe ficarão agradecido. Aí está a posição de todo homem rico! Deus é o amigo celestial que lhes emprestou a riqueza, pedindo apenas o amor e o reconhecimento, mas exige, por sua vez, que o rico dê aos pobres, pois são Seus filhos tanto quanto ele. O bem que Deus lhes confiou excita em seus corações uma ardente e desvairada desejo excessivo de possuir. Já refletistes quando lhes apegais desmedidamente a uma fortuna passageiro, e tão passageira como vocês mesmos, que, um dia, terão de prestar contas ao Senhor daquilo que veio Dele? Esqueceis que, pela riqueza, foram investidos do caráter sagrado de ministros da caridade na Terra, para serem os administradores inteligentes? O que serão, pois, quando usais apenas em proveito próprio o que lhes foi confiado além de administradores infiéis? Qual será o resultado desse esquecimento voluntário de seus deveres? A morte, inflexível e implacável, virá levantar o véu sob o qual lhes escondestes, e lhes forçará a prestar contas ao amigo que lhes favoreceu, e que nesse momento se reveste aos seus olhos da toga de juiz. Em vão, procuram, na Terra, lhes iludir, colorindo com o nome de virtude o que normalmente não passa de egoísmo. O que chamam de economia e prudência não passa de ganância e apego excessivo ao dinheiro, ou generosidade o que não passa de desperdício em seu proveito. Um pai de família, por exemplo, se eximirá de fazer caridade, economizará, juntará ouro sobre ouro, e tudo isso, diz ele, para deixar aos seus filhos o máximo de bens possível, evitando-lhes a queda na miséria. É justo e paternal, convenhamos, e não se pode censurá-lo. Mas é realmente este o único objetivo que o orienta? Não seria, muitas vezes, uma desculpa para a própria consciência, para justificar aos seus próprios olhos e aos olhos do mundo o seu apego pessoal aos bens terrenos? Admitindo, porém, que o amor paternal seja o único motivo, é
suficiente para fazê-lo esquecer-se de seus irmãos diante de Deus? Quando já tiver o que é além do necessário, deixará os seus filhos na miséria, simplesmente por deixar-lhes um pouco menos desse o que é além do necessário? Com isso, não lhes estará dando uma lição de egoísmo que lhes endurecerá o coração? Não será asfixiar neles o amor ao próximo? Pais e mães, estão muito enganados, se credes com isso aumentar o afeto de seus filhos por vocês. Ensinando-lhes a serem egoístas para com os outros, ensinai-lhes a sê-los para vocês mesmos. Quando um homem trabalhou muito, e com o suor de seu rosto reuniu bens, costuma dizer que quando o dinheiro é ganho, se sabe melhor o valor dele. Nada é mais verdadeiro. Pois bem, se este homem que alega conhecer todo o valor do dinheiro - fizer a caridade segundo os seus meios, terá mais mérito do que aquele que, nascido na abundância, ignora o cansaço do trabalho. Mas, se ao contrário, esse homem que se recorda de suas dores, seus esforços, se fizer egoísta, duro em relação aos pobres, será bem mais culpado que os outros, pois quanto mais se conhece por si mesmo as dores ocultas da miséria, mais devemos ser levados a socorrer os outros. Infelizmente, há sempre no homem rico um sentimento tão forte quanto o apego à fortuna: o orgulho. Não é raro ver o novo rico aturdir o infeliz que pede ajuda a sua assistência, com a história de seus trabalhos e das suas habilidades, em vez de ajudá-lo, acabando por dizer- lhe: “Faça como eu fiz!”. Segundo ele, a bondade de Deus não influi em nada na sua fortuna; somente a ele cabe todo o mérito. O seu orgulho põe-lhe uma venda nos olhos e um tampão nos ouvidos. Ele não entende que, com toda a sua inteligência e capacidade, Deus pode derrubá-lo com uma só palavra. Esbanjar a sua fortuna não é desapego aos bens terrenos, é descuido e indiferença. O homem, que administra os bens que possui, não tem o direito de dilapidá-los, nem de confiscá-los em benefício próprio. A desperdício não é generosidade. É, muitas vezes, uma forma de egoísmo. Quem joga ouro a mancheias na satisfação de uma fantasia não dará um centavo para prestar um auxílio. O desapego aos bens terrenos consiste em apreciar a fortuna em seu justo valor, em saber servir-se dela para os outros e não apenas para si mesmo, em não sacrificar por ela os interesses da vida após a morte, em saber perder sem se lamentar, se convir a Deus retirá-la. Se, por imprevistos reveses, lhes tornarem como Jó, digam como ele: “Senhor, vocês me deram, vocês me tiraram, que a sua vontade seja feita”. Esse é o verdadeiro desapego. Sejam, pois, submissos. Tenham fé naquele que, tendo dado e tirado, pode também devolver-se. Resistam com coragem ao abatimento e ao desespero que paralisam as suas forças. Não lhes esqueçam jamais de que quando Deus lhes aplicar uma prova, ao seu lado é colocada também uma consolação. Pensem, sobretudo, que há bens infinitamente mais preciosos do que os da Terra, e esse pensamento lhes ajudará a desligar-se deles. Quanto menor for o valor dado a uma coisa, menos sensíveis somos à sua perda. O homem que se apega aos bens da Terra é como a criança que vê apenas o
momento presente. Aquele que se desapega é como o adulto que vê coisas mais importantes, pois compreende essas palavras proféticas do Salvador: “Meu Reino não é deste mundo”. O Senhor não ordena que nos despojemos do que possuímos para nos reduzir à mendicância voluntária, pois então nos tornaríamos uma carga para a sociedade. Agir dessa maneira seria compreender mal o desapego aos bens terrenos. É um egoísmo de outro gênero, pois significa fugir à responsabilidade que a riqueza dá àquele que a possui. Deus a dá àquele que melhor lhe parece poder administrá-la em proveito de todos. O rico tem, portanto, uma missão. Missão que pode tornar-se bela e proveitosa para si mesmo. Rejeitar a fortuna, quando Deus a concede, é renunciar ao benefício do bem que se pode fazer, administrando-a com sabedoria. Saber passar sem ela, quando não a temos, saber empregá-la utilmente, quando a recebemos; saber sacrificá-la, quando necessário; isto é agir segundo os planos do Senhor. Que aquele que possui o que chamamos no mundo de boa fortuna, diga a si mesmo: Meu Deus, enviaram-me um novo encargo; deem-me a força para desempenhá-lo segundo a sua santa vontade! É isso, meus amigos, o que eu queria ensinar-se quanto ao desapego aos bens terrenos. Finalizo dizendo: Aprendam a vocês contentar com pouco. Se são pobres, não invejeis os ricos, pois a riqueza não é necessária à felicidade. Se são ricos, não lhes esqueçam de que esses bens lhes foram confiados, e que devem justificar o seu emprego, como numa prestação de contas de tutela. Não sejam administradores infiéis, servindo-se da riqueza para a satisfação de seu orgulho e de sua sensualidade. Não lhes julguem no direito de dispor deles unicamente para vocês, pois não o receberam como doação, mas como empréstimo apenas. Se não sabem pagar, não têm o direito de pedir, e lembrem-se de que aquele que dá aos pobres quita a dívida contraída com Deus.
São Luís - Paris, 1860
15. O princípio, segundo o qual o homem é simplesmente um administrador da fortuna que Deus lhe permite desfrutar durante a vida, tira-lhe o direito de transmiti-la aos seus descendentes? O homem pode perfeitamente transmitir, ao morrer, os bens que usufruiu durante a vida, pois a execução desse direito está sempre subordinada à vontade de Deus, que pode, quando o quiser, impedir que os descendentes possam usufruí-los. É assim que se vê ruírem fortunas que pareciam solidamente firmadas. A vontade do homem, em manter a sua fortuna para os descendentes é, dessa forma, impotente; o que não lhe tira o direito de transmitir o empréstimo que recebeu, já que Deus o retirará, quando julgar conveniente.