Capítulo 24 de 28 · linguagem simples
Não esconda a luz
Compartilhar a verdade com discernimento e compreender a linguagem de Jesus.A candeia sob o recipiente usado como antiga medida. Por que Jesus fala por parábolas - Não ir aos não judeus - Os sãos não precisam de médico - A coragem da fé - Carregar a cruz. Quem quiser salvar a vida.
A candeia sob o recipiente usado como antiga medida.
Por que Jesus fala por parábolas
1. “Não se acende uma lâmpada para deixá-la sob o recipiente usado como antiga medida, e, sim, sobre um candeeiro, para que ela ilumine a todos aqueles que estão na casa.” (Mateus,
V:15)
2. “Não há uma só pessoa que depois de haver acendido uma lâmpada, cubra-a com uma vasilha ou a coloque sob a cama. Coloca-a, sim, sobre um candeeiro, para que aqueles que entrem vejam a luz, pois não há segredo que não deva ser descoberto, nem nada escondido
que não deva ser conhecido e levado a público.” (Lucas, VIII:16-17)
3. “Seus discípulos, se aproximando, Lhe disseram: Por que lhes falas por parábolas? E respondendo, lhes disse: Para vocês outros lhes é dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas para eles não lhes é concedido. Porque ao que tem, se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. Por isso é que Eu lhes falo por parábolas; porque olhando, eles não veem e ouvindo, eles não ouvem, nem entendem. E a profecia de Isaías neles se cumpre, pois diz: Ouvirão com seus ouvidos, mas não entenderão; olhareis com os seus olhos, e nada verão. Porque o coração deste povo está endurecido, e os seus ouvidos se tornaram tardos. E fecharam seus olhos: Para que não vejam com os olhos e ouçam com os ouvidos, e compreendam com o coração, e se convertam, e Eu os cure.” (Mateus, XIII:10-15)
4. Espanta-se de ouvir Jesus dizer que não se deve colocar a luz sob o recipiente usado como antiga medida, enquanto Ele próprio oculta a todo instante o sentido de Suas palavras sob o véu da símbolo, que não pode ser compreendida por todos. Ele se explica, dizendo aos Seus apóstolos: “Eu lhes falo por parábolas, porque eles não estão prontos para compreender certas coisas: eles olham, veem, ouvem e não compreendem. Dizer- lhes tudo seria inútil no momento, mas a vocês o digo, pois lhes foi dado compreender esses mistérios”. Ele tratava o povo, portanto, como se trata as crianças cujas ideias ainda não estão desenvolvidas. Com isto, Ele indica o verdadeiro sentido da máxima: “Não se deve colocar a candeia sob o recipiente usado como antiga medida, mas sobre o candeeiro, para que todos aqueles que entram possam vê-la”. Não significa que seja preciso revelar todas as coisas inconsideradamente, pois todo ensinamento deve ser
apropriado à inteligência daquele a quem se dirige, pois há pessoas para quem uma luz muito forte ofusca sem esclarecer. Ocorre com a sociedade, em geral, o mesmo que com os indivíduos: as gerações têm a sua infância, juventude e idade madura. Cada coisa deve vir a seu tempo, pois o grão semeado fora de estação não produz. O que a prudência manda calar momentaneamente deve, cedo ou tarde, ser descoberto, porque, chegando a um certo grau de desenvolvimento, os homens buscam por si mesmos a luz viva. A obscuridade lhes pesa. Deus, tendo-lhes dado a inteligência para compreenderem e se guiarem nas coisas da Terra e do céu, querem racionalizar a sua fé. É então, que é preciso não colocar a lâmpada sob o recipiente usado como antiga medida, pois sem a luz
da razão, a fé se enfraquece. (Ver Cap. XIX, no 7.)
5. Se, então, em sua prudente sabedoria, a Providência revela a verdade somente de forma gradual, é que a vai sempre desvelando, à medida que a Humanidade está madura para recebê-la. Ela mantém a luz em reserva, e não sob o recipiente usado como antiga medida. Mas os homens que a possuem, em geral, somente a ocultam do povo, com a intenção de dominá-lo.
São eles que colocam realmente a luz sob o recipiente usado como antiga medida. É assim que todas as religiões sempre tiveram os seus mistérios, vedados ao conhecimento público. Mas, enquanto essas religiões se atrasavam, a ciência e a inteligência caminharam e romperam o véu misterioso. O povo tornou-se adulto e quis penetrar o fundo das coisas, e então rejeitou na sua fé o que era contrário à observação. Não podem haver mistérios absolutos nesse terreno, e Jesus está com a razão quando afirma que não há segredo que não deva ser conhecido. Tudo o que está oculto será revelado um dia, e o que o homem ainda não pode compreender na Terra lhe será progressivamente desvendado nos mundos mais avançados, na proporção em que ele evoluir. Aqui, na
Terra, ainda se perde no nevoeiro.
6. Pergunta-se que proveito o povo poderia tirar desta grande quantidade de parábolas, cujo sentido ficava oculto para ele? É preciso notar que Jesus somente se exprimiu por parábolas sobre as questões, de alguma maneira abstratas de Sua Doutrina. Mas, tendo feito da caridade e da humildade as condições essenciais da salvação, tudo o que disse em relação a isto está perfeitamente claro, explícito e sem ambiguidade. Deveria ser assim, pois era regra de conduta, regra que todos deveriam compreender, para poderem seguir. Era o essencial para a multidão ignorante, a qual se limitava a dizer: É isto o que é preciso fazer para ganhar o Reino dos Céus. Sobre outras questões, o raciocínio era acompanhado apenas pelos seus discípulos. Estes, mais avançados moral e intelectualmente, podiam ser iniciados por Jesus nos princípios mais abstratos. É por isso que Ele disse: “Àquele que já tem, ainda mais lhe será dado, e terá em abundância”. (Ver
Cap. XVIII, no 15.) Porém, mesmo com Seus apóstolos, Ele tratou de modo vago sobre muitos pontos, cuja inteira compreensão estava reservada aos tempos posteriores. Estes pontos é que deram lugar a interpretações tão diversas, até que a Ciência de um lado e o Espiritismo de outro vieram revelar as novas leis da Natureza, que explicarão o seu
verdadeiro sentido.
7. O Espiritismo, hoje, vem lançar a luz sobre uma multidão de pontos obscuros. Porém, não o faz inconsideradamente. Os
Espíritos procedem, nas suas instruções, com admirável prudência. Apenas gradualmente é que eles abordaram as diversas partes conhecidas da Doutrina, e é assim que as demais partes serão reveladas no futuro, à medida que chegue o momento de fazê-las sair da obscuridade. Se a houvessem apresentado na íntegra, desde o início, elas seriam acessíveis apenas a um pequeno número. Teriam assustado aqueles que não estavam preparados, o que prejudicaria a sua propagação. Se, então, os Espíritos não dizem tudo ostensivamente, não é que haja mistérios na doutrina reservados aos privilegiados, nem que eles estejam colocando a candeia sob o recipiente usado como antiga medida, mas porque cada coisa deve vir no tempo oportuno. Eles dão a cada ideia o tempo de amadurecer e se propagar, antes de apresentarem outra, e deixam aos acontecimentos, o tempo de preparar-lhes a aceitação.
Não ir aos não judeus
8. “Jesus enviou os doze apóstolos, depois de ter-lhes dado as seguintes instruções: Não procurem os não judeus, não entrem na cidade dos samaritanos, vão antes às ovelhas desgarradas da casa de Israel. E nos lugares onde estiverem, preguem, dizendo que o Reino
dos Céus está próximo.” (Mateus, X:5-7).
9. Jesus prova, em diversas circunstâncias, que as Suas vistas não estão limitadas ao povo judeu, mas abrangem a toda a Humanidade. Se, então, diz aos Seus apóstolos para não se dirigirem aos pagãos, não é por desprezar a sua conversão - o que nada teria de caridoso - mas porque os judeus, acreditando no Deus único e aguardando o Messias, estavam preparados, pela lei de Moisés e pelos profetas, para receberem a Sua palavra. Para os pagãos, a base faltava, tudo estava por fazer, e os apóstolos não estavam suficientemente esclarecidos para uma tarefa tão pesada. É por isso que Ele disse: Vão às ovelhas desgarradas de Israel ou seja - vão semear em terreno já preparado, sabendo que a conversão dos não judeus viria a seu tempo. Mais tarde, de fato, foi no meio do
paganismo que os Apóstolos fincaram a cruz.
10. Essas palavras também podem ser aplicadas aos seguidores e aos propagadores do Espiritismo. Os descrentes sistemáticos, os zombadores insistentes, os adversários
interesseiros são para eles o que eram os não judeus para os Apóstolos. A exemplo deles, devem buscar prosélitos, primeiramente entre as pessoas de boa vontade, aqueles que desejam a luz, nos quais se encontra o germe fecundo, cujo número é grande, sem perderem tempo com aqueles que se recusam a ver e entender, e que mais se aferram ao seu orgulho. Mais vale abrir os olhos a cem cegos que desejam ver claramente do que a um só que se compraz na obscuridade, pois é aumentar o número dos que sustentam a causa em maior proporção. Deixar os outros em paz não significa indiferença, mas boa política. A vez deles chegará, quando serão dominados pela opinião geral, e ouvirão a mesma coisa ser repetida incessantemente ao seu redor, então, acreditarão aceitar a ideia voluntariamente, e por si mesmos, e não sob a pressão de um indivíduo. Depois, há ideias que são como sementes; não podem germinar antes da estação própria, e a não ser em terreno preparado. Por isso é melhor aguardar o tempo propício, cultivando antes aquelas sementes que estão em condições, para não abortar as outras, por precipitação. Na época de Jesus, e em consequência das ideias restritas e materialistas do momento, tudo estava circunscrito e localizado. A Casa de Israel era um pequeno povoado. Os não judeus eram pequenos povos vizinhos. Hoje, as ideias se universalizam e se espiritualizam. A nova luz não é privilégio de nação alguma. Para ela, não existem mais barreiras. Ela tem o seu foco por toda a parte, e todos os homens são irmãos. Mas os não judeus não são mais um povo determinado, são uma opinião que se encontra por toda a parte, e cuja verdade triunfa pouco a pouco, assim como o Cristianismo venceu o paganismo. Não é mais com armas de guerra que se combate, mas com o poder da ideia.
Os sãos não precisam de médico
11. “Estando Jesus sentado à mesa numa casa, para lá se dirigiam muitos cobradores de impostos e gente de má vida, que se colocaram à mesa com Jesus e Seus discípulos. Tendo os fariseus visto isso, disseram aos discípulos: Por que seu mestre come com os cobradores de impostos e gente de má vida? Mas Jesus, ouvindo-lhes, disse: os sãos não têm necessidade de
médico, mas, sim, os enfermos.” (Mateus, IX:10-12)
12. Jesus dirigia-se, sobretudo, aos pobres e aos excluídos, pois são esses os que mais necessitam de consolação; e aos cegos humildes e de boa-fé, porque eles pedem para ver, e não aos orgulhosos, que acreditam possuir toda a luz e não precisar de nada. (Ver Introdução: Cobradores de impostos,
Cobradores de taxas.) Estas palavras, como muitas outras, encontram explicação no Espiritismo. Surpreende-se, às vezes, que a mediunidade seja concedida a pessoas indignas, e por isso capazes de fazer mau uso dela. Parece, diz-se, que uma faculdade tão preciosa devesse ser atributo exclusivo de pessoas de maior merecimento. Digamos, antes de tudo, que a
mediunidade é inerente a uma condição orgânica, da qual todo homem pode ser dotado, como a visão, a audição, a fala. Não há nenhuma de que o homem, com seu livre- -arbítrio, não possa abusar, e se Deus não tivesse concedido a palavra, por exemplo, apenas para aqueles incapazes de dizer coisas más, haveria muito mais mudos do que falantes. Deus deu ao homem as suas faculdades, e o deixa livre para usá-las como quiser, mas pune sempre aqueles que delas abusam. Se o poder de comunicação com os Espíritos somente fosse dado aos mais dignos, quem ousaria pretendê-lo? Onde estaria, aliás, o limite da dignidade e da indignidade? A mediunidade é dada sem distinção, para que os Espíritos possam levar a luz a todos os lugares, a todas as classes da sociedade, ao pobre como ao rico; para os virtuosos fortificando-os no bem - e para os viciosos, corrigindo-os. Estes últimos não são os doentes que necessitam de médico? Por que Deus, que não quer a morte do pecador, o privaria do socorro que pode tirá-lo da lama? Os bons Espíritos, então, vêm em sua ajuda e os seus conselhos - que ele recebe diretamente - são de natureza a impressioná-lo mais vivamente do que se os recebesse de maneira indireta. Deus, em Sua bondade, para lhe poupar a dor de ir buscar a luz a distância, a coloca em suas mãos. Não será ele bem mais culpado se não a observar? Poderá ele desculpar-se de sua ignorância quando viu, com os seus próprios olhos, ouviu com os seus ouvidos e pronunciou com a sua própria boca a sua condenação? Se ele não aproveitar a oportunidade, é punido com a perda ou a perversão de sua faculdade, de que os maus Espíritos se apoderarão, para obsedá-lo e enganá-lo, sem prejuízo do sofrimentos comuns com que Deus castiga os seus servidores indignos e os corações endurecidos pelo orgulho e pelo egoísmo. A mediunidade não implica, necessariamente, as relações habituais com os Espíritos superiores. É simplesmente uma aptidão para servir de instrumento, mais ou menos dócil, aos Espíritos em geral. O bom médium não é, então, aquele que tem facilidade de comunicação, mas o que é simpático aos bons Espíritos e somente por eles é assistido. É neste sentido, unicamente, que a excelência das qualidades morais é de suma importância para a mediunidade.
A coragem da fé
13. “Quem quer que se confesse e me reconheça diante dos homens, Eu o reconhecerei e o confessarei também diante do meu Pai que está nos céus. E quem quer que negue a mim diante dos homens, Eu também o negarei diante de meu Pai que está nos Céus.” (Mateus,
X:32-33)
14. “Se alguém se envergonhar de mim, e de minhas palavras, o Filho do
Homem se envergonhará dele também, quando Ele estiver em Sua glória, e na de Seu Pai
e dos santos anjos.” (Lucas, IX:26)
15. A coragem das opiniões sempre mereceu a consideração dos homens, pois há mérito em enfrentar os perigos, as perseguições, as discussões e mesmo os meros sarcasmos, aos quais se expõe quase sempre aquele que não teme confessar abertamente ideias que não são admitidas por todos. Nisto, como em tudo, o mérito está na razão das circunstâncias e na importância dos resultados. Há sempre fraqueza em recuar diante das consequências da sustentação das opiniões, mas há casos em que isso equivale a uma covardia tão grande quanto a de fugir no momento do combate. Jesus estigmatiza essa covardia, do ponto de vista especial de Sua Doutrina, dizendo que se alguém se envergonhar de Suas palavras, Ele também se envergonhará daquele; que renegará o que o houver renegado; mas aquele que O confessar diante dos homens será reconhecido por Ele diante de Seu Pai que está nos Céus. Em outras palavras: aqueles que tiverem medo de se confessar discípulos da verdade não serão dignos de serem admitidos no Reino da Verdade. Eles perderão assim o benefício de sua fé, pois é uma fé egoísta, que guardam para si mesmos, mas que ocultam com medo que ela lhes traga prejuízo neste mundo. Enquanto isso, aqueles que colocam a verdade acima de seus interesses materiais, proclamando-a abertamente, trabalham ao mesmo tempo para o futuro
próprio e pelo dos outros.
16. Assim será com os seguidores do Espiritismo, já que sua Doutrina não é nada além do desenvolvimento e da aplicação da Doutrina do Evangelho. É a eles também que se dirigem essas palavras do Cristo. Eles semeiam na Terra o que colherão na vida espiritual: os frutos de sua coragem ou da sua fraqueza.
Carregar a cruz. Quem quiser salvar a vida
17. “Bem-aventurados serão quando os homens lhes odiarem, separarem, quando lhes tratarem injuriosamente e rejeitarem o seu nome como mau por causa do Filho do Homem. Alegrem-se neste dia e sejam felizes, pois uma grande recompensa lhes aguarda no céu. Foi
assim que seus pais trataram os profetas.” (Lucas, VI:22-23)
18. “Chamando a si o povo, com Seus discípulos, Ele lhes disse: Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, carregue a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e aquele que se perder por amor a mim e ao Evangelho, salvá-la-á. Na verdade, de que serviria ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma.” (Lucas, IX:23-25; Mateus, X:38-39; João, XII:25-26,
Marcos VIII:34-36)
19. “Alegrem-se”, disse Jesus, “quando os homens lhes odiarem e lhes perseguirem por minha causa, pois serão recompensados no céu”. Estas palavras podem ser interpretadas assim: Sejam felizes quando os homens, tratando-se com má vontade, lhes derem a ocasião de provar a sinceridade de sua fé, pois o mal que eles lhes fizerem resultará em seu proveito.
Lamentai-lhes, então, a cegueira e não os amaldiçoeis. Em seguida, Ele acrescenta: “Aquele que quiser me seguir carregue a sua cruz”, ou seja, que ele suporte corajosamente as dificuldades que a sua fé provocar, pois aquele que quiser salvar a sua vida e os seus bens, renunciando a mim, perderá as vantagens do Reino dos Céus, enquanto os que tudo perderem na Terra, até mesmo a vida pela vitória da verdade, receberão, na vida após a morte, o prêmio pela sua coragem, persistência e desapego pessoal. Mas àqueles que sacrificam os bens celestes pelos da Terra, Deus dirá: “Já receberam a sua recompensa”.