Capítulo 18 de 28 · Edição 3.0 · Português Brasileiro Simples
Muitos são chamados, poucos são escolhidos
Responsabilidade diante do conhecimento e das oportunidades recebidas.A voz é gerada gratuitamente pelo seu próprio dispositivo.
Parábola da festa de casamento — A porta estreita — Não basta dizer “Senhor, Senhor” — Responsabilidade de quem recebeu mais conhecimento — Instruções dos Espíritos: desenvolver o que recebemos e reconhecer a fé pelas obras.
Parábola da festa de casamento
1. Jesus compara o Reino dos Céus a uma festa preparada por um rei para o casamento de seu filho. Os primeiros convidados recusam o convite e preferem cuidar de seus próprios interesses.
Na parábola, alguns convidados chegam a agredir e matar os mensageiros. O rei reage e, depois, manda seus servidores convidarem todas as pessoas que encontrarem pelos caminhos.
O salão fica cheio, mas a história apresenta ainda um convidado sem a roupa adequada para a festa. A conclusão é a conhecida frase: “Muitos são chamados e poucos são escolhidos”. (Mateus 22:1-14)
2. Kardec lembra que parábolas usam imagens para transmitir uma ideia. Por isso, não devem ser lidas como descrição literal de acontecimentos que necessariamente ocorreriam daquela maneira.
Na interpretação apresentada pela obra, a festa representa a felicidade espiritual e o convite representa o chamado para viver de acordo com as leis morais.
Kardec associa os primeiros convidados ao contexto religioso judaico em que surgiram os profetas e Jesus. Essa é uma interpretação histórica e teológica do século XIX, não uma justificativa para responsabilizar coletivamente o povo judeu.
Os convidados ocupados com propriedades e negócios representam pessoas tão absorvidas pelos interesses materiais que deixam em segundo plano o desenvolvimento moral e espiritual.
O texto original comenta a história do monoteísmo a partir do conhecimento disponível na época de Kardec. Hoje, a história das religiões é estudada de maneira mais ampla e complexa. Para a leitura desta obra, o ponto importante é entender o contexto usado por Kardec para construir sua interpretação.
Segundo a leitura de Kardec, conhecer uma tradição religiosa não basta quando a prática moral é substituída apenas por cerimônias e aparências externas.
A obra relaciona a chegada de Jesus a um chamado para colocar novamente a lei moral no centro da vida religiosa. Sua formulação histórica reflete a visão cristã de Kardec e deve ser compreendida dentro desse contexto.
O próprio texto afirma que seria injusto responsabilizar um povo inteiro pelos acontecimentos ligados à morte de Jesus. A responsabilidade histórica não deve ser transformada em acusação coletiva contra judeus ou qualquer outro grupo.
Na continuação da parábola, o convite se abre a todos. Para Kardec, porém, aceitar o convite ou usar o nome de cristão não é suficiente: a “roupa para a festa” simboliza pureza de intenção e prática real da lei moral.
A obra resume essa lei na caridade?. Assim, “muitos chamados e poucos escolhidos” significa que muitas pessoas podem conhecer o ensinamento, mas sua transformação depende de colocá-lo em prática.
A porta estreita
3. Jesus usa a imagem de uma porta estreita para ensinar que o caminho do bem exige esforço e escolhas conscientes, enquanto caminhos prejudiciais podem parecer mais fáceis. (Mateus 7:13-14)
4. Ao ser perguntado sobre quantos seriam salvos, Jesus responde convidando cada pessoa a se esforçar para entrar pela “porta estreita”. A imagem reforça que proximidade externa com uma religião não substitui a prática do bem.
A passagem também diz que pessoas vindas de diferentes lugares participarão do Reino de Deus e conclui que alguns dos últimos serão os primeiros e alguns dos primeiros serão os últimos. (Lucas 13:23-30)
5. Kardec interpreta a porta estreita como o esforço necessário para vencer tendências egoístas e desenvolver o bem. A dificuldade não está em pertencer a um grupo específico, mas em transformar a própria conduta.
A obra relaciona essa imagem à sua visão da Terra como lugar de aprendizado moral. Ao mesmo tempo, rejeita a ideia de que a maioria da humanidade esteja condenada para sempre, porque isso seria incompatível com a justiça e a bondade de Deus.
Kardec questiona a ideia de uma única existência seguida de destino eterno e definitivo. Para ele, as diferenças e dificuldades da vida precisam ser analisadas dentro de um processo espiritual mais longo.
A resposta proposta pela Doutrina é a continuidade da alma, a reencarnação? e a existência de diferentes mundos habitados. Essa é uma afirmação doutrinária espírita, apresentada aqui como parte da visão da obra.
Os que dizem: Senhor! Senhor!
6. Jesus afirma que não basta chamá-Lo de “Senhor”. O essencial é fazer a vontade de Deus e viver de maneira coerente com o ensinamento. (Mateus 7:21-23)
7. Quem ouve os ensinamentos e os pratica é comparado a alguém que constrói uma casa sobre rocha: quando chegam tempestades, ela permanece firme. Ouvir sem praticar é como construir sobre areia. (Mateus 7:24-27; Lucas 6:46-49)
8. A passagem reforça a importância de praticar e ensinar os mandamentos, e não apenas conhecê-los. (Mateus 5:19)
9. Kardec pergunta de que adianta chamar Jesus de Mestre se seus ensinamentos não aparecem nas atitudes. Práticas religiosas externas não compensam orgulho, egoísmo, ganância ou falta de respeito ao próximo.
A oração pode ser importante, mas a obra insiste que palavras sem transformação interior são insuficientes. A fé precisa chegar ao coração e à conduta.
O texto condena a incoerência de usar a religião enquanto se pratica injustiça, violência, exploração, calúnia ou ódio. Fazer outras pessoas sofrerem em nome da fé contradiz a mensagem de amor que se afirma seguir.
Não seria a quantidade de palavras, gestos ou cerimônias que aproximaria alguém de Deus, mas a prática sincera do amor e da caridade?.
Kardec amplia a comparação da casa sobre a rocha para a sociedade: instituições seriam mais sólidas quando baseadas em justiça, respeito e bem comum, e mais frágeis quando contrariassem esses princípios.
Muito será pedido a quem muito foi dado
10. Jesus ensina que responsabilidade aumenta com conhecimento e oportunidades: “a quem muito foi dado, muito será pedido”. A passagem original usa a imagem histórica de castigos aplicados a servos; aqui preservamos seu princípio moral, não a violência da imagem. (Lucas 12:47-48)
11. Em outra passagem, Jesus usa “ver” e “cegueira” como metáforas para consciência e responsabilidade. Não se trata de associar deficiência visual a falha moral. (João 9:39-41)
12. Kardec aplica o princípio da responsabilidade aos ensinamentos espíritas: conhecer uma orientação moral aumenta a responsabilidade de tentar colocá-la em prática.
A obra afirma que os ensinamentos dos Espíritos procurariam apresentar as máximas morais de diferentes maneiras e torná-las acessíveis a pessoas com diferentes níveis de estudo e diferentes crenças.
Se o conhecimento não torna alguém menos egoísta, menos orgulhoso e mais disposto a ajudar, a simples admiração intelectual pelo ensinamento não teria cumprido seu objetivo moral.
Kardec aplica esse princípio também aos médiuns: receber ou transmitir uma boa mensagem não coloca ninguém acima dos demais. O primeiro uso de um conselho deveria ser examinar a própria conduta antes de apontar os defeitos dos outros.
Quanto maior a compreensão, maior a responsabilidade de agir de acordo com ela. É nesse sentido que a obra repete que muito será pedido a quem muito recebeu.
Para o espírita sincero, portanto, a primeira pergunta diante de um conselho deveria ser: “O que disso se aplica a mim e ao que preciso melhorar?”.
Instruções dos Espíritos
Será dado àquele que tem
13. Ao explicar por que falava por parábolas, Jesus diz que algumas pessoas ouvem sem compreender. A passagem usa a frase “a quem tem será dado; de quem não tem até o que tem será tirado”. (Mateus 13:10-14)
Mateus 13:10-14
14. Outra passagem apresenta ideia semelhante: devemos prestar atenção ao que ouvimos e ao modo como usamos aquilo que recebemos. (Marcos 4:24-25)
Um Espírito amigo - Bordeaux, 1862
15. A instrução interpreta a frase em sentido figurado. Quem cultiva um ensinamento e se esforça para praticá-lo desenvolve novas capacidades; quem abandona aquilo que recebeu deixa de aproveitar seu potencial.
Segundo a mensagem, não é Deus retirando arbitrariamente o bem de alguém. A imagem procura falar da responsabilidade de cuidar, desenvolver e usar aquilo que recebemos.
A mensagem compara isso a um campo herdado: se ninguém o cultiva, ele deixa de produzir. Não é quem entregou o campo que destruiu a colheita; faltou cuidado para desenvolvê-lo.
A proposta não é viver em culpa, mas reconhecer escolhas, corrigir o que for possível e voltar a agir com esperança e responsabilidade.
O cultivo do campo simboliza o esforço pessoal: escolher boas sementes, trabalhar com perseverança e alimentar atitudes de amor e caridade?.
Em resumo: cuide do próprio coração, retire hábitos que produzem sofrimento e desenvolva aquilo que pode gerar bons frutos.
Reconhece-se o cristão pelas suas obras
Simeão - Bordeaux, 1863
16. A mensagem volta à frase de Jesus: não basta dizer “Senhor, Senhor”. Ela afirma que uma identidade religiosa é reconhecida principalmente pelas obras e pela maneira de tratar as pessoas, e não apenas pelo nome que alguém usa para definir sua fé.
Usando a imagem da árvore e de seus frutos, a mensagem pergunta quais resultados concretos uma religião produz: esperança, fé, amor, cuidado e transformação seriam os frutos esperados.
O texto critica quando interesses humanos deformam uma mensagem religiosa e ela deixa de produzir esses frutos. A crítica é dirigida à incoerência entre ensinamento e prática.
A mensagem convida a recuperar o sentido essencial do Cristianismo, representado pela árvore da vida, em vez de deixar que formas externas escondam seus frutos.
Esses frutos não deveriam ser acumulados por um grupo. A imagem é de uma árvore cuja sombra e alimento estão disponíveis para todos os que precisam deles.
O convite é acolher pessoas cansadas, compartilhar apoio e evitar caminhos que aumentem divisões ou sofrimento.
A instrução termina repetindo a mensagem central: a fé é demonstrada por quem procura fazer a vontade de Deus e produzir bons frutos. O convite final é acreditar, agir e orar.
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