Capítulo 18 de 28 · linguagem simples
Muitos são chamados, poucos são escolhidos
Responsabilidade diante do conhecimento e das oportunidades recebidas.Parábola da festa de casamento - A porta estreita - Os que dizem: Senhor! Senhor! - Muito será pedido a quem muito foi dado - Instruções dos Espíritos: Será dado àquele que tem - Reconhece-se o cristão pelas suas obras.
Parábola da festa de casamento
1. “Falando ainda por parábolas, disse Jesus: O Reino dos Céus é semelhante a um rei, que preparando as bodas de seu filho, enviou seus servos a chamar os convidados para as bodas, mas os convidados se recusavam a vir. Enviou outros servos com a ordem de dizer aos convidados: Eis aqui tenho preparado o banquete, meus touros e animais cevados já estão mortos, e tudo está pronto. Venham às casamento. Mas eles desprezaram o convite, e se foram, um para sua casa de campo, outro para os seus negócios. Os outros lançaram mão dos servos que ele enviara, e os mataram depois de os haverem ultrajado. Mas o rei, tendo ouvido isto, se irou; e tendo enviado o seu exército, os homicidas foram exterminados, e a cidade, queimada. Então, ele disse aos seus servos: A festa de casamento está pronta, mas aqueles que foram chamados não foram dignos dela. Vão a todos os cantos e chamai para a festa todos aqueles que encontrarem, e convidai-os para as bodas.
E tendo saído os seus servos pelas ruas, congregaram todos os que acharam, maus e bons. E o salão de festas ficou repleto de pessoas. O rei, em seguida, entrou para ver quem estava à mesa e, tendo percebido um homem que não estava vestido com veste nupcial disse-lhe: Meu amigo, como vieram aqui sem o traje nupcial? E esse homem emudeceu. Então, disse o rei aos seus ministros: Amarrai as mãos e os pés dele e lancem-o nas trevas exteriores. Lá haverá choro e ranger de dentes, pois muitos são os chamados, e poucos os escolhidos.” (Mateus, XXII:1-14)
2. O descrente ri desta parábola, que lhe parece de uma ingenuidade pueril, pois não admite que possa haver tanta dificuldade para a realização de um banquete e, menos ainda, que os convidados façam resistência a ponto de massacrar os enviados do dono da casa. “As parábolas”, diz ele, “são símbolos, sem dúvida, mas é preciso que não saiam do limite do possível”. Pode-se dizer o mesmo de todas as símbolos, das fábulas mais engenhosas, se não lhes buscarmos o sentido oculto. Jesus se inspirava nos usos mais comuns da vida e adaptava as Suas parábolas aos costumes e ao caráter do povo a quem se dirigia. A maior parte delas tinha por objetivo atingir as massas com a ideia da vida espiritual, e seu sentido, muitas vezes, só parece incompreensível se não partirmos desse ponto de vista. Nesta parábola, por exemplo, Jesus compara o Reino dos Céus onde tudo é alegria e felicidade - a uma festa nupcial. Os primeiros convidados são os judeus, que Deus havia chamado, primeiramente, para o conhecimento de Suas leis. Os enviados do
rei são os profetas, que vinham exortá-los a seguir a estrada da verdadeira felicidade, mas as suas palavras foram pouco ouvidas. Suas advertências foram desprezadas, e muitos foram até mesmo massacrados, como os servos da parábola. Os convidados que se negaram a comparecer, sob o pretexto de irem para as suas casas de campo e seus negócios, são o conjunto das pessoas mundanas, que, absorvidas pelas coisas terrenas, mostram-se indiferentes em relação às celestiais. Os judeus da época acreditavam que a sua nação deveria conquistar a hegemonia. Deus não havia prometido a Abraão que a sua posteridade cobriria toda a Terra? Mas, como sempre, tomando a forma pela essência, eles acreditavam numa dominação efetiva e material. Antes da vinda do Cristo, com exceção dos hebreus, todos os povos eram idólatras e politeístas. Se alguns homens superiores conceberam a ideia da unidade divina, essa ideia, porém, permanecia como sistema particular, pois em nenhuma parte ela foi aceita como verdade fundamental, a não ser para alguns iniciados que ocultavam os seus conhecimentos sob um véu misterioso, impenetrável às massas. Os hebreus foram os primeiros a praticar publicamente o monoteísmo. Foi a eles que Deus transmitiu a Sua lei, primeiro por meio de Moisés, depois através de Jesus. Era desse pequeno foco que a luz deveria expandir-se por todo o mundo, triunfar sobre o paganismo e dar a Abraão uma posteridade espiritual “tão numerosa quanto as estrelas do firmamento”. Mas os judeus, embora afastando a idolatria, haviam negligenciado a lei moral para se dedicarem à prática mais fácil do prática religiosa exterior. O mal estava em seu ápice. A nação, dominada pelos romanos, estava dividida pelas facções, pelas grupos religiosos. A própria descrença havia penetrado até mesmo no santuário. Foi, então, que Jesus apareceu, para chamá-los ao cumprimento da lei e para abrir-lhes os novos horizontes da vida após a morte. Primeiros convidados para o grande banquete da fé universal, eles repeliram, porém, a palavra do celeste Messias e O sacrificaram. Foi assim que perderam o fruto que deveriam colher da sua própria iniciativa. Seria injusto, porém, acusar todo o povo pelo que aconteceu. A responsabilidade coube, principalmente, aos fariseus e aos saduceus, que puseram a perder a nação, pelo orgulho e o fanatismo dos primeiros, e pela descrença dos segundos. São eles, principalmente, que Jesus compara aos convidados que se recusaram a participar da festa das bodas. Em seguida, Ele acrescenta: “O rei, vendo isso, mandou convidar todos os que fossem encontrados nas ruas, bons e maus”. Fazia entender, assim, que a palavra seria pregada a todos os outros povos, pagãos e idólatras, e os que a aceitassem seriam admitidos na festa em lugar dos primeiros convidados. Mas não basta ser convidado; não basta dizer-se cristão, nem sentar-se à mesa para participar do banquete celestial. É preciso, antes de tudo, e como condição expressa, estar vestido com o traje nupcial, ou seja, ter a pureza de coração e praticar a lei segundo o Espírito. Ora, essa lei está inteira nestas palavras: “Fora da caridade não há
salvação”. Mas entre todos aqueles que ouvem a palavra divina, quão poucos a guardam e a colocam em prática! Quão poucos se tornam dignos de entrar no Reino dos Céus! Foi por isso que Jesus disse: “Haverá muitos chamados e poucos escolhidos”.
A porta estreita
3. “Entrem pela porta estreita, pois a porta da perdição é larga, e o caminho que a ela conduz é espaçoso e muitos entram por ela. A porta da vida é estreita! O caminho que a ela conduz é
apertado e poucos são os que acertam com ela!” (Mateus, VII:13-14)
4. “Tendo alguém Lhe feito esta pergunta: Senhor, poucos então serão salvos? Ele respondeu: Esforça-te por entrar pela porta estreita, pois Eu te asseguro que muitos buscarão entrar por ela e não o poderão. E quando o pai de família tiver entrado, e fechado a porta, e vocês, de fora, começardes a bater à porta, dizendo: Senhor, abre-nos! Ele lhes responderá: Não sei de onde são. Então, começareis a dizer: Nós somos aqueles que comemos e bebemos em sua presença, e a quem ensinaste em praça pública. E ele lhes responderá: Não sei de onde são; apartem-se de mim, todos vocês que obrai a injustiça. Haverá, então, choro e ranger de dentes, quando virem que Abraão, Isaac, Jacob e todos os profetas estão no Reino de Deus, e que vocês ficais fora dele. Virão do Oriente e do Ocidente, do Setentrião e do Meio-Dia, e muitos tomarão lugar à mesa do Reino de Deus. E, então, aqueles que forem os últimos serão
os primeiros, e os que são os primeiros serão os últimos.” (Lucas, XIII: 23-30)
5. A porta da perdição é larga, porque as más paixões são numerosas e porque a estrada do mal é a mais frequentada. A da salvação é estreita, porque o homem que quer atravessá-la deve fazer grandes esforços sobre si mesmo para vencer as suas más tendências, e poucos a isto se resignam. É o complemento da máxima: “Muitos são os chamados, e poucos os escolhidos”.
Esse é o estado atual da Humanidade terrena, pois a Terra, sendo um mundo de experiências de reparação, é dominada pelo mal. Quando estiver transformada, a estrada do bem será a mais frequentada. Essas palavras devem ser tomadas no sentido relativo, e não absoluto. Se tal devesse ser o estado normal da Humanidade, Deus teria voluntariamente condenado à perdição a imensa maioria das criaturas, suposição inadmissível, desde que se reconheça que Deus é todo justiça e bondade. De quais faltas, então, esta Humanidade teria podido tornar-se culpada, para merecer uma sorte tão triste, no presente e no futuro, se toda ela estivesse na Terra e a alma não tivesse outras existências? Por que tantos entraves semeados no seu caminho? Por que essa porta tão estreita, que apenas a uma minoria é dado transpor, se o destino da alma está definitivamente fixado após a morte? É assim que, com a unicidade da existência, estamos incessantemente em contradição conosco mesmos e com a justiça de Deus. Com a anterioridade da alma e a pluralidade dos mundos, o horizonte se alarga, a luz se faz
sobre os pontos mais obscuros da fé, o presente e o futuro se mostram solidários com o passado. Só assim pode-se compreender toda a profundidade, toda a verdade e toda a sabedoria das máximas do Cristo.
Os que dizem: Senhor! Senhor!
6. “Nem todos os que me dizem: Senhor! Senhor! entrarão no Reino dos Céus, mas, sim, aquele que fizer a vontade do meu Pai que está nos Céus. Muitos me dirão, naquele dia: Senhor! Senhor! Não temos profetizado em seu nome? Não temos expelido demônios em Seu nome e não obramos tantos acontecimentos extraordinários? E, então, Eu direi em voz alta: Pois Eu nunca lhes conheci: retirem-se de perto de mim, vocês que cometem injustiças.” (Mateus, VII:21-23)
7. “Todo aquele que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem sábio, que construiu a sua casa sobre a rocha e quando a chuva caiu, e transbordaram os rios, os ventos sopraram e combateram aquela casa, e ela não caiu, pois foi edificada sobre a rocha. Mas aquele que ouve estas palavras e não as observa será semelhante a um homem sem bom senso, que construiu a sua casa sobre a areia; e quando a chuva caiu, os rios transbordaram, os ventos sopraram e combateram aquela casa e ela caiu, e foi grande a sua
ruína.” (Mateus, VII:24-27; Lucas, VI:46-49)
8. “Aquele, pois, que violar o menor deram mandamentos e que assim ensinar aos homens será muito pequeno no Reino dos Céus, mas aquele que praticar e ensinar os mandamentos,
esse será grande no Reino dos Céus.” (Mateus, V:19)
9. Todos os que confessam a missão de Jesus dizem: “Senhor! Senhor!”. Mas de que serve chamá-Lo Mestre ou Senhor, se não seguimos os Seus ensinamentos? São cristãos aqueles que honram por meio de atos externos de devoção e se sacrificam ao mesmo tempo ao orgulho, ao egoísmo, à ganância e a todas as suas paixões? São discípulos do Cristo aqueles que passam dias em preces e não são por isto nem melhores, nem mais caridosos, nem mais compreensivos para com seus semelhantes? Não, pois, tanto quanto os fariseus, eles têm a oração nos lábios, não no coração. Com a formalidade exterior eles podem obrigar-se aos homens, mas não a Deus. É em vão que dirão a Jesus: “Senhor, nós profetizamos, ou seja, ensinamos em Seu nome, expulsamos os demônios em Seu nome, bebemos e comemos com vocês!”. Ele lhes responderá: “Não sei quem são. Retirem-se de perto de mim, vocês, que cometem injustiças, que desmentis as suas palavras pelas ações, que caluniais o seu próximo, que roubais as viúvas e cometem adultério! Retirem-se daqui, vocês, cujo coração destila ódio e fel, vocês, que derramais o sangue de seus irmãos em meu nome, que fazem correrem as lágrimas em vez de secá-las! Para vocês, haverá choro e ranger de dentes, pois o Reino de Deus é para aqueles que são dóceis, humildes e caridosos. Não espereis dobrar a justiça do Senhor pela multiplicidade de suas palavras e de suas genuflexões. O único caminho aberto para encontrarem a graça
diante Dele é a prática sincera da lei de amor e de caridade”. As palavras de Jesus são eternas, pois elas são a verdade. Elas são não apenas a salvaguarda da vida celestial, mas também o penhor da paz, da tranquilidade e da estabilidade do homem entre as coisas da vida terrena. É por isso que todas as instituições humanas, políticas, sociais e religiosas, que se apoiarem nessas palavras, serão estáveis como a casa construída sobre a pedra. Os homens as conservarão, porque encontrarão nelas a sua felicidade. Mas as palavras que as violarem serão como a casa construída na areia: o vento das revoluções e o rio do progresso as levarão de roldão.
Muito será pedido a quem muito foi dado
10. “O servo que tiver conhecido a vontade de seu senhor, e que, apesar disso, não obrou conforme a sua vontade, dar-se-lhe-ão muitos açoites. Mas aquele que não a soube e tiver feito coisas dignas de castigo será menos atingido. Porque a todo aquele a quem muito foi dado, muito será pedido e muitas contas serão pedidas àquele a quem muito tiver sido
confiado.” (Lucas, XII:47-48)
11. “E Jesus lhe disse: Eu vim a este mundo para exercitar um juízo, para que aqueles que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos. Alguns fariseus que estavam com Ele ouviram estas palavras e disseram: Logo também nós somos cegos? Jesus respondeu-lhes: Se fossem cegos, não teriam culpa; mas já que dizem: nós vemos, o seu pecado subsiste em vocês.” (João, IX:39-41)
12. Estas máximas encontram suas aplicações sobretudo nos ensinamentos dos Espíritos. Quem quer que conheça os ensinamentos do Cristo é certamente culpado por não praticá-los. Mas além de não ser suficientemente difundido o Evangelho que os contém, senão entre as grupos religiosos cristãs, quantas pessoas existem que não o leem, e, entre as que o leem, quantas não o compreendem! Disso resulta que as próprias palavras de Jesus ficam perdidas para a maioria. O ensinamento dos Espíritos, reproduzindo essas máximas sob diferentes formas, desenvolvendo-as e comentando-as para colocá-las ao alcance de todos, tem de particular o fato de não ser circunscrito. Assim, todos, letrados ou não, crentes ou descrentes, cristãos ou não, podem recebê-lo, pois os Espíritos se comunicam em toda parte. Nenhum dos que o recebam - diretamente ou por meio de outros - pode pretextar ignorância, ou pode desculpar-se com a sua falta de instrução, ou com a obscuridade do sentido simbólico. Aquele, pois, que não os pratica para o seu aperfeiçoamento, que os admira como coisas interessantes e curiosas - sem que seu coração seja tocado - que não se faz menos indiferente, menos orgulhoso, menos egoísta, nem menos apegado aos bens materiais, nem melhor para o seu próximo, é tanto mais culpado quanto maior for a sua aptidão para conhecer a verdade. Os médiuns que obtêm boas comunicações são ainda mais repreensíveis se persistirem no mal, pois,
muitas vezes, escrevem a sua própria condenação, e, se não estivessem cegos pelo orgulho, reconheceriam que é a eles que os Espíritos se dirigem. Mas, em vez de tomarem para si as lições que escrevem, ou que veem serem escritas, o seu único pensamento é o de aplicá-las aos outros, configurando, assim, as palavras de Jesus: “Vedes um cisco nos olhos de seu vizinho e não vedes a grande viga no seu”. (Cap. X, no 9.) Por estas outras palavras: “Se fossem cegos, não teriam culpa”, Jesus diz que a culpabilidade está na razão do conhecimento que se possui. Ora, os fariseus, que tinham a pretensão de ser, e que realmente eram, portadores de muitos conhecimentos, eram mais repreensíveis aos olhos de Deus do que o povo ignorante. Ocorre o mesmo hoje. Aos espíritas, então, muito será pedido, pois muito receberam. O mesmo ocorre com aqueles que souberam aproveitar os ensinamentos, pois muito lhes será dado. O primeiro pensamento de todo espírita sincero deve ser o de buscar, nos conselhos dados pelos Espíritos, algo que lhe diga respeito. O Espiritismo vem multiplicar o número dos chamados. Pela fé que proporciona, multiplicará também o número dos escolhidos.
Instruções dos Espíritos
Será dado àquele que tem
13. “E chegando-se a Ele os discípulos Lhe disseram: Por que lhes falas por parábolas? Respondendo, Ele lhes disse: Porque para vocês foi dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não lhes é concedido. Pois ao que já tem, se lhe dará e estará na abundância, mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. É por isto que Eu lhes falo por parábolas pois, vendo, eles nada veem, e ouvindo, nada ouvem e nem compreendem. E a profecia de Isaías neles se cumpre, quando diz: Ouvirão com os ouvidos e não entenderão; verão com os olhos e nada percebereis.” (Mateus,
XIII:10-14)
14. “Prestai atenção no que ouvis, pois com vocês será usada a mesma medida com que medirem aos demais e se lhes acrescentará, pois dar-se-á àquele que tem e ao que nada possui será tirado até mesmo o que tem.” (Marcos, IV:24-25)
Um Espírito amigo - Bordeaux, 1862
15. “Dá-se àquele que já tem e retira-se ao que não tem.” Reflitam nestes grandes ensinamentos, que frequentemente lhes parecem paradoxais. Aquele que recebeu é aquele que possui o sentido da palavra divina. Ele somente a recebeu porque procurou dela fazer-se digno, e o Senhor, em Seu amor misericordioso, encoraja os esforços que tendem ao bem. Estes esforços contínuos, perseverantes, atraem as graças do Senhor. São como um ímã, que atrai as melhoras progressivas, as graças abundantes que lhes tornam fortes para a subida da montanha sagrada, em cujo cume encontrarão o repouso depois do trabalho. “Tira-se àquele que nada tem, ou que tem pouco”. Tomem isto como um ensino em sentido figurado.
Deus não retira de Suas criaturas o bem que se dignou conceder-lhes. Homens cegos e surdos! Abri suas inteligências e seus corações; procurem ver pelo Espírito; compreendam com a alma; e não interpreteis de maneira tão grosseiramente injusta as palavras daquele que fez resplandecer aos seus olhos a Justiça do Senhor! Não é Deus quem retira daquele que pouco recebeu. É o próprio Espírito que, gastador e descuidado, não sabe conservar o que tem e aumentar, fecundando-a, a migalha caída em seu coração. O filho que não cultiva o campo que o trabalho de seu pai conquistou, que lhe coube por herança, vê esse campo cobrir-se de ervas parasitas. É o seu pai quem lhe tira as colheitas que ele não preparou? Se ele deixou os grãos destinados a produzir neste campo morrerem por falta de cuidado, deve ele acusar seu pai pela falta de produção? Não, não! Em vez de acusar aquele que tudo lhe deu, como se lhe houvesse retomado os bens, deve acusar-se a si mesmo, que é o verdadeiro autor de suas misérias e que assim, arrependido e ativo, coloque-se a trabalhar com coragem. Que trabalhe o solo ingrato, com o esforço de sua própria vontade; que trabalhe intensamente com a ajuda do arrependimento e da esperança; que nele atire, com confiança, o bom grão que tiver escolhido entre os maus, e que o regue com seu amor e sua caridade e Deus, o Senhor de amor e de caridade, dará àquele que já tem. E então, ele verá os seus esforços coroados de sucesso, e um grão produzir cem, e outro, mil. Coragem, trabalhadores! Tomem as suas grades e as suas charruas. Trabalhem seus corações; arrancai deles o joio; semeai o bom grão que o Senhor lhes confia, e o orvalho do amor fará produzir os frutos da caridade.
Reconhece-se o cristão pelas suas obras
Simeão - Bordeaux, 1863
16. “Nem todos os que me dizem: Senhor, Senhor, entrarão no Reino dos Céus, e sim aquele que fizer a vontade de meu Pai, que está nos céus.” Escutem estas palavras do Mestre, todos vocês, que repelis a Doutrina Espírita como obra do demônio! Abri os seus ouvidos, pois o momento de ouvir chegou. Basta trazer a libré1 do Senhor para ser um fiel servidor? Basta dizer: “Eu sou cristão”, para seguir o Cristo? Busquem os verdadeiros cristãos e os reconhecerão por suas obras. “Uma boa árvore não pode dar maus frutos, nem uma má árvore dar bons frutos.” - “Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo.” Essas são as palavras do Mestre. Discípulos do Cristo, compreendam-as bem! Quais são os frutos que pode dar a árvore do Cristianismo, árvore poderosa, cujos ramos frondosos cobrem com sua sombra uma parte do mundo, mas ainda não abrigaram a todos aqueles que devem reunir-se à sua volta? Os frutos da árvore da vida são frutos de vida, de esperança e de fé. O Cristianismo, como o vem fazendo desde muitos séculos, prega sempre essas divinas virtudes, buscando distribuir os seus frutos. Mas quão poucos os colhem! A árvore é sempre boa, mas os jardineiros são maus. Quiseram moldá-la segundo as suas ideias, segundo as suas conveniências. Para tanto a podaram, diminuíram, mutilaram. Seus ramos estéreis já não carregam maus frutos, pois nada mais produzem.
O viajante cansado que para sob a sua sombra, para buscar o fruto da esperança, que deve restituir-lhe a força e a coragem, não percebe que os galhos áridos pressagiam a tempestade. Em vão ele busca o fruto da vida na árvore da vida. As folhas caem secas aos seus pés. As mãos do homem tanto as manipularam, que acabam por crestá-las! Abri, então, seus ouvidos e seus corações, meus bem-amados! Cultivai esta árvore da vida, cujos frutos dão a vida eterna. Aquele que a plantou lhes conclama a cuidá-la com amor, pois ainda a verão dar com abundância os seus frutos divinos. Deixem-a tal como o Cristo a entregou: não a mutileis. Sua sombra imensa quer estender-se pelo universo. Não lhe corteis os ramos. Seus frutos benéficos caem em abundância, para sustentar o viajante cansado, que aguarda chegar ao seu destino. Não os amontoeis para guardá-los e deixá- los apodrecer, não servindo a mais ninguém. “Muitos são os chamados, poucos os escolhidos”. É que há os usurpadores do pão da vida, como os há, muitas vezes, do pão material. Não lhes coloquem entre eles. A árvore que carrega bons frutos deve distribuí- los para todos. Vão buscar aqueles que estão cansados. Tragam-os sob os ramos da árvore e partilhai com eles o abrigo que ela lhes oferece. “Não se colhem uvas dos espinheiros.” Meus irmãos, afastem-se daqueles que lhes chamam para vocês mostrar as pedras do caminhoe sigam os que lhes conduzem à sombra da árvore da vida. O divino Salvador, o justo por excelência, disse, e Suas palavras não passarão: “Nem todos os que dizem Senhor, Senhor, entrarão no Reino dos Céus, e sim os que fazem a vontade do meu Pai, que está nos céus”. Que o Senhor de bênçãos lhes abençoe; que o Deus da luz lhes ilumine; que a árvore da vida lhes entregue os seus frutos com abundância! Acreditem e orem.