Capítulo 19 de 28 · linguagem simples
A fé que transporta montanhas
Fé, confiança, perseverança e entendimento.O poder da fé - A fé religiosa. Condição da fé inabalável - Parábola da figueira seca - Instruções dos Espíritos: A fé, mãe da esperança e da caridade - A fé divina e a fé humana.
O poder da fé
1. “E depois que veio até o povo, um homem se aproximou Dele, colocou-se de joelhos aos Seus pés e Lhe disse: Senhor, tenham piedade de meu filho, que é lunático e sofre muito, pois cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na água. Eu o mostrei a Seus discípulos, mas eles não puderam curá-lo. - Jesus respondeu, dizendo: Oh! geração incrédula e perversa, até quando estarei com vocês? Até quando lhes hei de sofrer? Tragam a mim esta criança. E tendo Jesus ameaçado o demônio, ele o deixou e desde aquela hora ficou o menino curado. Então, os discípulos vieram encontrar Jesus em particular e Lhe disseram: Por que nós não pudemos lançá-lo fora? Jesus lhes respondeu: Por causa da sua descrença. Pois Eu lhes digo, na verdade, se tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, dirão a esta montanha: Transporta-te daqui para acolá, e ela se transportará, e nada lhes será impossível.” (Mateus,
XVII:14-20)
2. No sentido comum, é certo que a confiança em nossas próprias forças torna-nos capazes de executar coisas materiais que não podemos fazer, quando duvidamos de nós mesmos; mas, aqui, é unicamente no sentido moral que se deve entender essas palavras. As montanhas que a fé transporta são as dificuldades, as resistências, a má vontade, em uma palavra, que encontramos entre os homens, mesmo quando se trata das melhores coisas. Os preconceitos rotineiros, o interesse material, o egoísmo, o fanatismo cego, as paixões orgulhosas são também montanhas que embaraçam o caminho de qualquer um que trabalhe pelo progresso da Humanidade. A fé robusta dá a persistência, a energia e os recursos necessários para vencer os obstáculos, tanto nas grandes como nas pequenas coisas. A fé vacilante gera a incerteza, a hesitação, da qual se aproveitam os adversários que devemos combater. Ela não busca os meios de vencer, pois não acredita na
possibilidade de vitória.
3. Em uma outra concepção, considera-se fé a confiança que se tem no cumprimento de determinada coisa, na certeza de se atingir um objetivo. Ela proporciona um tipo de lucidez, que faz antever, pelo pensamento, os fins que se têm em vista e os meios de atingi-los. De forma que aquele que a possui caminha - por assim dizer - com passo certo. Num e noutro caso, ela realiza grandes coisas. A fé sincera e verdadeira é sempre calma; dá a paciência que sabe aguardar, pois, tendo seu ponto de apoio na inteligência e na
compreensão das coisas, tem a certeza de chegar ao fim. A fé insegura sente a sua própria fraqueza; quando é estimulada pelo interesse torna-se furiosa e crê suprir a força com a violência. A calma na luta é sempre um sinal de força e de confiança. A
violência, ao contrário, é prova de fraqueza e de falta de confiança em si mesmo.
4. É preciso cuidado para não confundir a fé com a presunção. A verdadeira fé se alia à humildade. Aquele que a possui deposita a sua confiança em Deus mais do que em si mesmo, pois sabe que é simples instrumento da vontade de Deus, nada podendo sem Ele. É por isso que os bons Espíritos vêm ajudá-lo. A presunção é mais orgulho do que fé, e o orgulho é sempre castigado, mais cedo ou mais tarde, pela decepção e as quedas que lhe
são infligidas.
5. O poder da fé recebe aplicação direta e especial na ação magnética. Por ela, o homem age sobre o fluido - agente universal - modificando as suas qualidades e lhe dando uma impulsão, por assim dizer, irresistível. É por isso que, juntando-se a um grande poder fluídico normal uma fé ardente, pode-se operar, unicamente pela sua vontade dirigida para o bem, esses fenômenos estranhos de curas e de outra natureza, que antigamente eram considerados acontecimentos extraordinários e, que, porém, não passam de consequências de uma lei natural. Tal é a razão pela qual Jesus disse aos Seus apóstolos: “Se não conseguistes curar é por causa da sua pequena fé”.
A fé religiosa.
Condição da fé inabalável
6. Do ponto de vista religioso, a fé é a crença nos crenças consideradas incontestáveis particulares que constituem as diferentes religiões, e todas elas têm os seus artigos de fé. Sob este ponto, a fé pode ser raciocinada ou cega. A fé cega, nada examinando, aceita sem controle o falso e o verdadeiro, e se choca a cada passo com a evidência da razão. Levada ao extremo, ela produz o fanatismo. Quando a fé se firma no erro, ela desmorona cedo ou tarde. A que tem por base a verdade é a única com futuro assegurado, porque nada deve temer do progresso do conhecimento, já que o que é verdadeiro na obscuridade também o é à plena luz. Cada religião pretende estar na posse exclusiva da verdade, mas preconizar a fé cega sobre uma questão de crença é confessar a impotência
para demonstrar que se tem razão.
7. Diz-se, vulgarmente, que a fé não se prescreve, o que leva muitas pessoas a alegarem que não são culpadas de não terem fé. Sem dúvida, a fé não se prescreve ou o que é ainda mais certo: a fé não se obriga. Não, ela não se prescreve, mas se adquire, e a ninguém é recusado possuí-la, mesmo entre os mais refratários. Falamos de verdades espirituais fundamentais, e não de tal ou qual crença particular. Não é a fé que vai até
elas, mas elas é que devem procurá-la e, se o fizerem com sinceridade, a encontrarão. Tomem por certo que aqueles que dizem: “Seria melhor se acreditássemos, mas não o podemos fazer”, dizem-no com os lábios, e não sinceramente, pois dizendo isso, eles fecham os ouvidos. As provas, porém, crescem ao seu redor. Por que, pois, se recusam a ver? Para uns, é a indiferença; para outros, o medo de serem forçados a mudar seus hábitos. Para a maioria, é o orgulho que se recusa a reconhecer um poder superior, pois seria preciso curvar-se diante dele.
Para algumas pessoas, a fé parece de alguma forma inata: uma faísca basta para desenvolvê-la. Essa facilidade em assimilar as verdades espirituais é um sinal evidente de progresso anterior. Para outras, ao contrário, são assimiladas com dificuldade, sinal não menos evidente de uma natureza em atraso. Os primeiros já acreditaram e compreenderam, e trazem, ao renascer, a intuição do conhecimento. Sua educação já foi realizada. As segundas têm tudo para aprender: sua educação está por fazer. Mas ela se fará, e, se não puder terminar nesta existência, será noutra. A resistência do descrente - é preciso convir - cabe menos a ele do que à maneira como se lhe apresentam as coisas. A fé precisa de uma base, e esta base é a perfeita compreensão daquilo em que se deve crer.
Para crer, não basta ver, é preciso antes de tudo, compreender. A fé cega não é mais deste século1. Ora, é exatamente o crença considerada incontestável da fé cega que faz, atualmente, o maior número de descrentes, pois ela quer obrigar- -se exigindo a abdicação de uma das mais preciosas prerrogativas do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio. É essa fé contra a qual, principalmente, se levanta o descrente, o que mostra a verdade de que a fé não se obriga. Não admitindo provas, ela deixa no Espírito um vazio, de onde nasce a dúvida. A fé raciocinada, que se apoia nos fatos e na lógica, não deixa nenhuma obscuridade: crê-se, porque se tem a certeza, e somente estamos certos se compreendemos. É por isso que ela não se dobra, pois a fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da Humanidade. É a este resultado que o Espiritismo conduz, triunfando assim sobre a descrença, todas as vezes em que não encontra oposição sistemática e interessada.
Parábola da figueira seca
8. “Quando saíam de Betânia, Ele teve fome,e, vendo ao longe uma figueira, foi ver se poderia encontrar nela alguma coisa. Aproximando-se, encontrou apenas folhas, pois não era tempo de figos. Então, Jesus disse à figueira: Que jamais ninguém coma de ti nenhum fruto. No dia seguinte,
Referência ao século XIX. (N. do E.)
ao passarem pela figueira, eles a encontraram seca até as raízes. E Pedro, lembrando-se das palavras de Jesus, disse-Lhe: Mestre, vês como a figueira que amaldiçoastes está seca. Jesus, tomando a palavra, lhe disse: Tenham fé em Deus. Eu lhes digo, na verdade, que qualquer um que disser a esta montanha: Tira-te daqui e lança-te ao mar sem hesitar, no seu coração, e acreditando firmemente que tudo o que disse sucederá, realmente, assim vai acontecer.” (Marcos, XI:12-14 e 20-23)
9. A figueira seca é o símbolo das pessoas que têm apenas a aparência bondosa, mas, na verdade, nada produzem de bom: dos oradores que possuem mais brilho do que solidez; suas palavras têm o aparência exterior, agradam aos ouvidos; mas, quando as analisamos, nada revelam de substancial para o coração. Depois de tê-las ouvido, perguntamos que proveito delas tiramos. É ainda o símbolo de todos os que têm os meios de serem úteis e não o são; de todas as utopias, dos sistemas vazios, de todas as doutrinas sem base sólida. O que falta, na maior parte das vezes, é a verdadeira fé, a fé fecunda, a fé que comove as fibras do coração - ou seja - a fé que transporta montanhas. São árvores frondosas, mas sem fruto. É por isso que Jesus as condena à esterilidade, pois chegará o dia em que ficarão secas até as raízes. Isso quer dizer que todos os sistemas, todas as doutrinas que não tiverem produzido nenhum bem para a Humanidade, cairão no nada. Todos os homens voluntariamente inúteis, por não terem colocado em prática os
recursos que traziam em si mesmos, serão tratados como a figueira seca.
10. Os médiuns são os intérpretes dos Espíritos; eles suprem os órgãos materiais que faltam a estes para nos transmitirem as suas instruções. É por isso que são dotados de faculdades para tanto. Nestes tempos de renovação social, eles têm uma missão particular: são como as árvores que devem dar o alimento espiritual aos seus irmãos. Eles se multiplicam para que o alimento seja abundante. Espalham-se por toda a parte, em todas as regiões, em todas as camadas da sociedade, entre ricos e pobres, entre grandes e pequenos, para que não haja excluídos em parte alguma, e para provar aos homens que todos são chamados. Mas se eles desviam a faculdade preciosa que lhes é concedida, do seu objetivo ligado à Providência divina, ou se a colocam a serviço de coisas sem importância e prejudiciais, de interesses mundanos; se, em vez de frutos salutares, dão maus frutos; se recusam-se a torná-la proveitosa para os outros; se nem mesmo para si tiram os benefícios da melhoria própria, são como a figueira estéril. Deus, então, lhes retirará um dom que se tornou inútil entre as suas mãos - a semente que não souberam semear - e os deixará que se tornem presas dos maus Espíritos.
Instruções dos Espíritos
A fé, mãe da esperança e da caridade José, Espírito Protetor - Bordeaux, 1862
11. A fé, para ser proveitosa, deve ser ativa; não pode adormecer. Mãe de todas as virtudes que conduzem a Deus, deve velar atentamente pelo desenvolvimento das suas próprias filhas. A esperança e a caridade são uma consequência da fé. Estas três virtudes formam uma trindade inseparável. Não é a fé que nos sustenta a esperança de vermos cumpridas as promessas do Senhor? Pois, se não tivermos fé, o que esperaremos? Não é a fé que nos dá o amor? Pois, se não tiverem fé, que reconhecimento terão e, consequentemente, que amor? A fé, divina inspiração de Deus, desperta todos os nobres sentimentos que conduzem o homem ao bem: é a base da renovação moral. É preciso, pois, que esta base seja forte e durável, porque se a menor dúvida vier abalá-la, o que acontecerá com o edifício que construístes sobre ela? Ergam, portanto, este edifício sobre bases inabaláveis. Que a sua fé seja mais forte do que os sofismas e as zombarias dos descrentes, pois a fé que não desafia o ridículo dos homens não é a verdadeira fé. A fé sincera é dominadora e contagiosa. Comunica-se aos que não a possuíam, ou mesmo não desejariam possuí-la. Ela encontra palavras persuasivas, que tocam a alma, enquanto a fé aparente somente tem palavras sonoras, que produzem o frio e a indiferença. Preguem pelo exemplo de sua fé, para transmiti-la aos homens; preguem pelo exemplo de suas obras, para que vejam o mérito da fé. Preguem pela sua esperança inabalável, para lhes fazer a ver a confiança que fortifica e estimula a enfrentar todas as dificuldades e mudanças da vida.
Tenham, pois, a verdadeira fé, na plenitude da sua beleza e da sua bondade, na sua pureza e na sua racionalidade. Não admitais a fé sem comprovação, essa filha cega da cegueira. Amem a Deus, mas saibam por que O amam. Acreditem nas suas promessas, mas saibam por que o fazem. Sigam os nossos conselhos, mas conscientes dos fins que lhes propomos e dos meios que lhes trazemos para atingi-los. Acreditem e esperem, sem jamais enfraquecer: os milagres são a obra da fé.
A fé divina e a fé humana
Um Espírito Protetor - Paris, 1863
12. A fé é o sentimento inato, no homem, da sua destinação. É a consciência das prodigiosas faculdades cujo germe foi nela depositado, primeiro em estado latente, e que deve eclodir e crescer por sua vontade ativa. Até hoje, a fé somente foi compreendida no seu sentido religioso, pois o Cristo a revelou como poderosa alavanca, e porque foi visto apenas como o chefe de uma religião. Mas o Cristo, que realizou verdadeiros milagres, mostrou, através dos mesmos, o que pode o homem quando tem fé - ou seja - a vontade de querer e a certeza de que essa vontade pode realizar-se a si mesma. Os apóstolos, com o seu exemplo, não fizeram milagres também? Ora, o que eram esses milagres senão os efeitos naturais de uma causa desconhecida pelos homens de então, mas hoje em grande
parte explicada, e que será compreendida totalmente com o estudo do Espiritismo e do Magnetismo? A fé é humana ou divina, dependendo de como os homens aplicam as suas faculdades às necessidades terrenas, ou às aspirações celestes e futuras. O homem de gênio que persegue a realização de alguma grande empreitada triunfa, se tiver fé, pois ele sente que pode e deve conseguir, e esta certeza lhe dá uma força imensa. O homem de bem que, crendo em seu futuro celeste, quer realizar em sua vida belas e nobres ações, tira da sua fé e da certeza da felicidade que o espera, a força necessária. E assim também se realizam os milagres da caridade, do sacrifício e da desapego pessoal. Enfim, com a fé, não há más tendências que não possam ser vencidas.
O Magnetismo é uma das maiores provas do poder da fé, quando posta em ação. É pela fé que ele cura e produz esses fenômenos estranhos que, antigamente, foram qualificados como milagres. Eu repito; a fé é humana e divina. Se todos os encarnados estivessem persuadidos da força que trazem consigo e quisessem colocar a sua vontade a serviço dessa força, seriam capazes de realizar o que, até o momento, chamam de acontecimentos extraordinários, e que não passam de desenvolvimento das faculdades humanas.