Antes dos capítulos · Edição 3.0 · Português Brasileiro Simples
Introdução
O objetivo da obra, seus critérios e o contexto necessário para compreender os ensinamentos.A voz é gerada gratuitamente pelo seu próprio dispositivo.
I - Objetivo desta obra
Os Evangelhos tratam de cinco grandes assuntos: acontecimentos da vida de Jesus, milagres, previsões, ensinamentos que serviram de base para crenças religiosas e ensinamentos morais. Os quatro primeiros podem receber interpretações diferentes. Já os ensinamentos morais têm um valor mais direto para a vida, porque falam sobre nossas escolhas, atitudes e responsabilidades.
É principalmente nesses ensinamentos morais que pessoas de religiões diferentes podem encontrar pontos em comum. Eles podem ser estudados independentemente da crença de cada pessoa, porque tratam da maneira como nos relacionamos conosco e com os outros. Quando as discussões religiosas ficam concentradas apenas em crenças, ritos ou interpretações, a transformação interior ensinada pelo Evangelho pode acabar ficando em segundo plano.
Esses ensinamentos podem orientar tanto a vida pessoal quanto a convivência em sociedade. Eles ajudam a construir relações mais justas e mostram um caminho de crescimento moral e espiritual. Este livro se dedica especialmente a estudar esse aspecto do Evangelho e suas consequências para a vida.
Muitas pessoas admiram os ensinamentos morais do Evangelho e reconhecem sua importância. Mesmo assim, muitas conhecem apenas algumas frases ou ideias que ouviram de outras pessoas, sem terem estudado o conjunto com profundidade.
Nota de vocabulário: a edição anterior usa uma expressão para indicar uma crença religiosa apresentada como uma verdade que não deve ser questionada.
Referência da edição anterior: Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, capítulo IV, questão 171, nota 2, Mundo Maior Editora, 1ª edição, 2000.
Poucas pessoas conhecem esses ensinamentos em profundidade, compreendem seu sentido e percebem como eles podem ser aplicados à vida. Uma das dificuldades está na própria linguagem dos Evangelhos. Símbolos, expressões antigas e passagens difíceis podem fazer com que a pessoa leia sem compreender realmente o que está sendo ensinado. Quando isso acontece, a leitura pode virar apenas uma obrigação e deixar de produzir reflexão e aprendizado.
Outra dificuldade é que os ensinamentos morais aparecem espalhados entre diferentes histórias e acontecimentos. Isso pode dificultar a percepção de como eles se relacionam entre si. Já existiam obras que reorganizavam esses ensinamentos em uma linguagem mais moderna, mas Kardec considerava importante preservar também a força e a autenticidade dos textos utilizados como base.
Também existe um problema quando uma frase do Evangelho é apresentada sozinha. Ela pode trazer um ensinamento importante, mas parte do sentido pode se perder quando não conhecemos a situação em que foi dita, o que veio antes e o que veio depois.
Para diminuir essas dificuldades, esta obra reuniu passagens que formam um conjunto de ensinamentos morais que pode ser estudado por pessoas de diferentes crenças. Nas citações, foi mantido o que ajudava a compreender o assunto e retirado apenas o que não estava relacionado ao tema estudado. A divisão dos textos bíblicos por versículos também foi preservada para facilitar a consulta.
Em vez de organizar tudo apenas pela ordem dos acontecimentos, Kardec agrupou os ensinamentos por assunto. A intenção foi aproximar ideias relacionadas e facilitar o estudo. A numeração dos capítulos e versículos permite consultar as passagens utilizadas como referência sempre que necessário. Essa organização é uma ferramenta para facilitar a leitura, mas não é o objetivo principal do livro.
O objetivo mais importante é tornar os ensinamentos compreensíveis, explicar passagens difíceis e mostrar como essas ideias podem ser aplicadas às diferentes situações da vida.
Nota de vocabulário: uma máxima é uma frase curta que apresenta uma regra, um princípio ou um ensinamento importante.
Essa explicação corresponde à nota do editor existente na edição anterior.
Foi isso que Kardec procurou fazer com a ajuda dos bons Espíritos. Muitas passagens do Evangelho, da Bíblia e de outros textos religiosos podem ser difíceis de compreender. Algumas podem até parecer sem sentido quando não conhecemos o contexto ou a ideia que está sendo apresentada. Na visão desta obra, o Espiritismo oferece explicações que ajudam a compreender melhor muitas dessas passagens.
A obra considera que ideias relacionadas ao Espiritismo podem ser encontradas em diferentes épocas da humanidade, em escritos, crenças e registros históricos. Nessa perspectiva, o Espiritismo ajuda tanto a pensar o futuro quanto a compreender questões do passado. Como complemento ao estudo, Kardec incluiu comunicações atribuídas aos Espíritos, recebidas em diferentes países e por diferentes médiuns.
Se todas essas mensagens viessem de uma única pessoa ou de um único lugar, seria mais fácil pensar que elas foram influenciadas por aquela pessoa ou por aquele ambiente. A obra apresenta a diversidade de lugares e médiuns como um sinal de que os ensinamentos não estariam restritos a uma única fonte humana. O livro é destinado a todos e procura ajudar as pessoas a aproximarem suas atitudes dos ensinamentos morais de Jesus. Para quem segue o Espiritismo, apresenta também aplicações específicas da Doutrina Espírita.
Segundo a obra, a comunicação entre as pessoas e o mundo espiritual ajuda a compreender de forma mais direta como os ensinamentos do Evangelho podem ser colocados em prática.
Kardec acrescenta que o médium atua como intermediário da comunicação e, por isso, não deveria transformar essa participação em motivo de orgulho pessoal.
Dessa forma, os ensinamentos do Evangelho não precisam permanecer apenas no campo das ideias. Eles podem ser levados para as escolhas e atitudes do dia a dia. Na visão apresentada por Kardec, os conselhos dos guias espirituais ajudam cada pessoa a compreender esses princípios e colocá-los em prática. As mensagens atribuídas aos Espíritos são apresentadas como um convite para compreender e viver o Evangelho.
II - Autoridade da Doutrina Espírita
Controle universal do ensinamento dos Espíritos. Se a Doutrina Espírita fosse apenas uma ideia criada por uma pessoa, sua credibilidade dependeria do conhecimento e da palavra dessa pessoa. Ninguém pode afirmar que possui sozinho toda a verdade. Da mesma forma, se os Espíritos tivessem transmitido seus ensinamentos somente a uma pessoa, quem quisesse aceitá-los teria de confiar apenas no relato dela.
Mesmo que essa pessoa fosse totalmente sincera, ela poderia convencer quem a conhecesse e conquistar seguidores, mas dificilmente alcançaria todas as pessoas. Segundo a obra, Deus permitiu que essa revelação chegasse de maneira mais ampla: os Espíritos se manifestariam em muitos lugares, sem dar a ninguém o privilégio exclusivo de receber seus ensinamentos.
Uma pessoa pode ser enganada ou pode se enganar. A obra considera diferente a situação em que muitas pessoas, em lugares diversos, relatam ensinamentos semelhantes. Essa concordância é apresentada como uma forma de confirmação. Uma pessoa pode morrer e livros podem ser destruídos, mas, segundo essa visão, a fonte dos ensinamentos continuaria existindo no mundo espiritual e não dependeria de uma única pessoa ou de um único livro.
Mesmo que faltassem pessoas para divulgar a Doutrina, os Espíritos continuariam, segundo a obra, a se comunicar por meio de muitos médiuns em diferentes lugares. Se existisse apenas um intérprete, por mais respeitado que fosse, o conhecimento do Espiritismo ficaria dependente da confiança depositada naquela pessoa.
Um único intérprete também poderia despertar desconfiança e dificilmente seria aceito por todos os povos. A obra afirma que as comunicações dos Espíritos ocorreriam entre pessoas de diferentes países, religiões e grupos sociais. Por isso, apresenta o Espiritismo como uma doutrina que não pertence a uma única nacionalidade, religião ou classe social. Segundo essa visão, qualquer pessoa poderia receber comunicações de familiares e amigos que já morreram.
Essa característica é apresentada como necessária para aproximar as pessoas, em vez de aumentar as divisões. Para Kardec, a força do Espiritismo estaria na existência de ensinamentos semelhantes recebidos em muitos lugares. Se tudo dependesse da voz de uma única pessoa, mesmo com a ajuda de livros e jornais, seriam necessários muitos anos para que a mensagem alcançasse tanta gente.
Por isso, segundo a obra, muitas vozes se manifestariam ao mesmo tempo em diferentes lugares, transmitindo princípios semelhantes tanto a pessoas com pouco estudo quanto a pessoas muito instruídas. Kardec apresenta essa ampla divulgação como uma proteção para a Doutrina: se o Espiritismo estiver baseado em uma verdade espiritual, mudanças políticas, sociais ou materiais não poderiam atingir os Espíritos que estariam na origem desses ensinamentos.
Kardec também vê nessa forma de divulgação uma proteção contra divisões internas. Grupos ou pessoas poderiam tentar impor suas próprias ideias, e diferentes Espíritos poderiam apresentar mensagens contraditórias. Para ele, essas contradições não deveriam ser escondidas: elas precisariam ser analisadas e comparadas para que o próprio conjunto dos ensinamentos ajudasse a identificar o que merece confiança.
A obra ensina que nem todos os Espíritos possuem o mesmo conhecimento ou o mesmo grau de evolução. Alguns saberiam pouco, outros poderiam ser orgulhosos, acreditar que sabem mais do que realmente sabem ou repetir ideias pessoais como se fossem verdades. Kardec considera que os Espíritos mais elevados estariam menos presos aos preconceitos e às ideias humanas.
A obra também alerta que alguns Espíritos poderiam enganar e até usar nomes falsos para dar mais autoridade às próprias mensagens. Por isso, Kardec recomenda cuidado com informações que vão além dos ensinamentos morais. Uma mensagem recebida isoladamente deveria ser tratada como a opinião daquele Espírito, e não divulgada de imediato como uma verdade absoluta.
O primeiro critério proposto por Kardec é usar a razão. Tudo o que for atribuído aos Espíritos deveria ser analisado com bom senso, lógica e também à luz dos conhecimentos disponíveis. Uma teoria que contradiga claramente esses critérios não deveria ser aceita apenas porque foi assinada por um nome respeitado. Ao mesmo tempo, Kardec reconhece que a análise individual tem limites, porque ninguém possui todo o conhecimento e cada pessoa pode confundir sua própria opinião com a verdade.
Por isso, além da análise pessoal, Kardec propõe comparar ensinamentos recebidos por diferentes pessoas e em diferentes lugares. Para ele, uma concordância ampla entre essas mensagens seria um critério mais seguro. Ainda assim, essa comparação precisa seguir algumas condições. Perguntar a vários Espíritos por meio de um único médium, por exemplo, não seria suficiente para garantir uma confirmação realmente independente.
Kardec explica o motivo: se um médium estivesse sob influência de um Espírito enganador, esse mesmo Espírito poderia se apresentar com nomes diferentes e repetir a mesma ideia várias vezes. Da mesma forma, médiuns de um único grupo poderiam receber influências parecidas. Por isso, a repetição de uma mensagem dentro do mesmo ambiente não seria, por si só, uma confirmação suficiente.
Para Kardec, uma confirmação mais segura aconteceria quando mensagens semelhantes surgissem espontaneamente por meio de muitos médiuns que não se conhecem e vivem em lugares diferentes. Ele deixa claro que esse critério se refere principalmente aos princípios fundamentais da Doutrina, e não a assuntos pessoais ou questões menores.
A obra afirma que, quando um novo princípio importante precisa ser apresentado, ele tenderia a aparecer de forma espontânea em diferentes lugares ao mesmo tempo. As palavras poderiam variar, mas a ideia principal seria semelhante. Se um Espírito apresentasse uma teoria muito particular, baseada apenas em suas próprias ideias, essa teoria permaneceria isolada e perderia força diante de mensagens semelhantes recebidas em muitos outros lugares.
Segundo Kardec, foi essa comparação que ajudou a afastar várias explicações particulares surgidas no começo do Espiritismo, quando cada pessoa tentava interpretar os fenômenos à sua maneira. Por isso, ele afirma que um princípio da Doutrina não deveria ser considerado verdadeiro apenas porque combina com a opinião de quem o recebe.
Kardec diz que não se considera uma autoridade absoluta da verdade e não pede que alguém acredite em uma ideia simplesmente porque ele a apresentou. Sua própria opinião poderia estar certa ou errada. Da mesma forma, receber um ensinamento de um Espírito não bastaria para torná-lo verdadeiro. Para ele, o que daria maior segurança seria a concordância obtida por meio de muitas comunicações independentes.
Kardec afirma que recebia comunicações e informações vindas de muitos centros espíritas espalhados por diferentes regiões. Isso lhe permitia comparar os princípios que apareciam nessas mensagens e observar onde existia concordância. Segundo ele, esse método orientava seu trabalho e deveria continuar sendo usado diante de novos assuntos estudados pelo Espiritismo.
Ao comparar mensagens recebidas em diferentes lugares, Kardec diz ter percebido sinais de que o Espiritismo entraria em uma nova etapa. Muitas dessas mensagens usavam palavras indiretas e, por isso, passaram despercebidas para várias pessoas. Outras pessoas acreditaram que tinham recebido uma orientação exclusiva, sem saber que ideias semelhantes apareciam em outros lugares.
Para Kardec, uma mensagem isolada teria pouco valor como base doutrinária. O que lhe dava importância era a coincidência com mensagens semelhantes recebidas de forma independente. Ele afirma que observava esse movimento geral com a orientação de seus guias espirituais, usando essa comparação para decidir quando avançar em determinado assunto e quando esperar por novas confirmações.
Kardec apresenta esse método como um dos critérios para avaliar novos ensinamentos. Segundo ele, o sucesso de O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns teria ocorrido porque muitos leitores encontraram, em suas próprias experiências mediúnicas, ideias semelhantes às apresentadas nesses livros. Para Kardec, se as comunicações recebidas em outros lugares contradissessem continuamente suas obras, elas não teriam alcançado a mesma aceitação.
Ele acrescenta que nem mesmo o apoio da imprensa seria suficiente para sustentar uma ideia que fosse constantemente contrariada pelas comunicações atribuídas aos Espíritos. Por outro lado, acredita que ideias realmente confirmadas por mensagens independentes teriam mais força para se espalhar. Esse mesmo critério, segundo ele, deveria valer tanto para ideias atribuídas aos Espíritos quanto para ideias apresentadas por pessoas.
Kardec considera ainda a possibilidade de aparecerem livros ou mensagens contrários à Doutrina, inclusive comunicações falsas produzidas com a intenção de desacreditá-la. Para ele, uma mensagem desse tipo teria pouca força se fosse contrariada, de maneira ampla, por comunicações semelhantes recebidas em muitos outros lugares. Por isso, antes de apresentar uma ideia como ensinamento dos Espíritos, seria necessário buscar uma concordância mais ampla.
Na visão de Kardec, existe uma grande diferença entre a opinião de uma única pessoa e uma ideia confirmada por muitas fontes independentes. Ele cita críticas e publicações contrárias ao Espiritismo para defender que uma corrente de ideias amplamente aceita não seria facilmente interrompida por argumentos isolados. Esse trecho reflete a forma como Kardec avaliava a expansão do movimento espírita em seu próprio tempo.
Kardec observa que esse modo de analisar a questão ainda não havia recebido a atenção que ele considerava necessária.
Nota de vocabulário: neste trecho, a edição anterior usa uma palavra para indicar comunicações ou textos que não são autênticos.
Kardec afirma que muitas pessoas analisavam essas questões apenas a partir de suas próprias ideias, sem considerar o conjunto das comunicações atribuídas aos Espíritos. Para ele, a concordância entre mensagens independentes também serviria como proteção contra tentativas de grupos religiosos ou outras correntes de modificar o Espiritismo para adaptá-lo aos próprios interesses.
Segundo a obra, tentativas de alterar profundamente a direção da Doutrina poderiam provocar confusão em determinado lugar ou por algum tempo, mas não conseguiriam mudar todo o conjunto se os ensinamentos recebidos em diferentes lugares continuassem apontando em outra direção. Kardec apresenta essa ideia como uma forma de preservar a unidade do Espiritismo.
Kardec conclui que ensinamentos novos sobre pontos ainda não esclarecidos deveriam ser recebidos com cautela enquanto permanecessem isolados. Se fosse necessário divulgá-los, o mais correto seria apresentá-los como opiniões ou hipóteses que ainda precisam de confirmação, e não como verdades definitivas da Doutrina.
Antes de apresentar um princípio como verdade absoluta, Kardec recomenda esperar por confirmações suficientes. Segundo ele, os Espíritos superiores agiriam com prudência e apresentariam as grandes questões da Doutrina de forma gradual, à medida que as pessoas estivessem preparadas para compreendê-las e quando as circunstâncias fossem favoráveis.
Por isso, segundo a obra, nem tudo teria sido revelado desde o início. Kardec critica a pressa de quem deseja respostas antes do tempo e afirma que os Espíritos sérios não se prestariam a antecipar aquilo que ainda não estivesse maduro para ser compreendido. Já Espíritos menos responsáveis poderiam responder sem o mesmo compromisso com a verdade.
É por essa razão que, sobre todas as questões prematuras, há sempre respostas contraditórias.
Kardec afirma que esses princípios não seriam fruto apenas de uma teoria pessoal, mas das próprias condições em que, segundo a Doutrina, ocorrem as comunicações dos Espíritos. Para ele, se uma mensagem isolada contradiz um grande número de comunicações semelhantes recebidas em outros lugares, não seria razoável dar a essa mensagem solitária o mesmo peso das demais.
Segundo Kardec, Espíritos realmente sábios não apresentariam como certeza aquilo que ainda não conhecessem suficientemente. Eles reconheceriam os limites do próprio conhecimento e aconselhariam esperar por confirmação. Uma ideia nova, por melhor que pareça, poderia encontrar resistência no início, e esse confronto de opiniões ajudaria a esclarecer o que é verdadeiro.
Kardec considera útil que ideias diferentes sejam examinadas, porque as que não se sustentam tendem a perder força diante da comparação. Para ele, a união do Espiritismo não deveria depender da opinião de uma única pessoa, mas da concordância ampla dos ensinamentos atribuídos aos Espíritos.
Da mesma forma, não seria um único Espírito que deveria impor sua opinião. Kardec apresenta como característica essencial da Doutrina a multiplicidade de comunicações recebidas em diferentes lugares. Nessa visão, a força e a autoridade do Espiritismo estariam justamente em não depender de uma única pessoa.
Kardec compara esse conjunto de comunicações a um grande tribunal de avaliação, que não deveria estar sujeito a acordos particulares, rivalidades pessoais, divisões de grupos ou interesses nacionais.
Nesse sentido, Kardec afirma que pretensões de autoridade individual deveriam ceder diante de uma concordância mais ampla. Para ele, questões controversas seriam resolvidas pela comparação do conjunto das comunicações, e não pela opinião isolada de uma pessoa ou de um Espírito.
Kardec chama essa concordância ampla de opinião universal. Para ele, cada opinião individual tem um peso relativo: se for verdadeira, contribui para o conjunto; se for falsa, não deveria prevalecer apenas pela força de quem a defende. Essa visão também funciona como uma crítica ao orgulho individual.
Kardec acreditava que esse conjunto de ideias se tornaria cada vez mais claro com o tempo. Ele esperava que novas vozes contribuíssem para aproximar as pessoas em torno de princípios comuns, à medida que houvesse condições para isso.
Enquanto existirem sistemas diferentes, Kardec recomenda observar em que direção se forma a concordância geral das comunicações. Para ele, esse seria um indício de qual interpretação teria maior sustentação dentro do conjunto da Doutrina.
III - Notícias históricas
Para compreender melhor certas passagens dos Evangelhos, é útil conhecer algumas palavras, costumes e aspectos da sociedade judaica da época de Jesus. Muitos termos tinham sentidos diferentes dos atuais. Entender esse contexto ajuda a esclarecer ensinamentos que, sem essa informação, podem parecer estranhos ou difíceis.
Samaritanos: depois da divisão das dez tribos, Samaria tornou-se a capital do reino de Israel separado de Judá. A cidade foi destruída e reconstruída várias vezes. Sob domínio romano, tornou-se centro administrativo da região da Samaria. Herodes, chamado o Grande, embelezou a cidade e, em homenagem ao imperador Augusto, deu-lhe o nome de Sebaste. Samaritanos e judeus mantiveram longos períodos de rivalidade.
A separação entre samaritanos e judeus produziu uma forte rivalidade religiosa e social. Os samaritanos construíram seu próprio templo para não depender de Jerusalém e adotaram práticas próprias. Reconheciam especialmente o Pentateuco, os cinco primeiros livros atribuídos a Moisés, e rejeitavam outros textos incorporados posteriormente à tradição judaica.
Seus textos sagrados eram escritos em caracteres hebraicos antigos. Para muitos judeus ortodoxos, os samaritanos eram considerados hereges e, por isso, eram desprezados e perseguidos. A rivalidade entre os dois povos tinha forte componente religioso, embora suas tradições tivessem origem comum. Comunidades samaritanas continuaram existindo em regiões do Oriente.
Nazarenos: na tradição antiga, esse nome também era usado para judeus que faziam determinados votos religiosos, temporários ou permanentes. Esses votos podiam envolver castidade, abstinência de bebidas alcoólicas e o costume de não cortar os cabelos. Sansão, Samuel e João Batista são citados nesse contexto. Mais tarde, o nome também foi usado para os primeiros cristãos, por referência a Jesus de Nazaré.
O nome nazarenos também foi aplicado a um grupo religioso dos primeiros séculos do Cristianismo que combinava práticas ligadas à lei de Moisés com crenças cristãs. Esse grupo desapareceu por volta do século IV. Publicanos: em Roma, esse nome era dado a responsáveis pela cobrança de impostos e outras rendas públicas.
Os publicanos administravam ou contratavam a cobrança de impostos e rendas públicas em Roma e em outras partes do Império. Como esse sistema permitia abusos, muitos enriqueceram por meio de cobranças consideradas excessivas, o que contribuiu para a má reputação da categoria.
Com o tempo, a palavra publicano passou a ser usada de forma negativa para designar pessoas ligadas à administração do dinheiro público e seus agentes, especialmente quando eram vistos como pouco escrupulosos. A expressão tornou-se associada a riqueza obtida de maneira duvidosa.
Durante o domínio romano, os impostos eram uma das questões que mais provocavam resistência entre os judeus. Houve revoltas e movimentos que tratavam o pagamento de impostos também como problema religioso. Por isso, os responsáveis pela cobrança eram frequentemente rejeitados pela população.
Essa rejeição atingia publicanos de diferentes níveis. Mesmo pessoas honestas podiam ser desprezadas por causa da função que exerciam, e quem mantinha relações próximas com elas também podia sofrer críticas. Havia ainda cobradores de categoria inferior responsáveis por taxas de entrada nas cidades e por cobranças semelhantes às de alfândega.
Esses cobradores de categoria inferior também carregavam a mesma má reputação atribuída aos publicanos em geral. Por isso, nos Evangelhos, o termo publicano aparece muitas vezes associado a pessoas vistas socialmente como de má companhia ou indignas de convivência.
Ebionitas: integrantes de um movimento religioso dos primeiros séculos do Cristianismo que reconhecia Jesus como Messias, mas não aceitava sua divindade.
Os ebionitas aceitavam o Antigo Testamento e rejeitavam grande parte do Novo Testamento, utilizando outros textos próprios. Essa explicação corresponde à nota editorial da edição anterior.
Fariseus: o nome é relacionado à ideia de separação. Na época de Jesus, a tradição e as interpretações acumuladas das Escrituras tinham grande importância na vida religiosa judaica. Essas interpretações formavam um conjunto de ensinamentos e regras debatidos entre estudiosos e grupos religiosos.
Esses debates podiam se tornar longos e concentrados em detalhes de palavras, formas e interpretações. Dessa diversidade nasceram grupos que defendiam suas próprias compreensões da verdade e, muitas vezes, mantinham forte rivalidade entre si.
Entre esses grupos, os fariseus tinham grande influência. A tradição menciona Hillel, importante mestre judeu nascido na Babilônia, ligado a uma escola de interpretação religiosa. Os fariseus passaram por períodos de perseguição e também por momentos de grande poder político e religioso.
Depois de recuperarem influência, os fariseus permaneceram importantes até a destruição de Jerusalém no ano 70. Participavam ativamente das discussões religiosas e valorizavam muito as práticas exteriores, as cerimônias e a fidelidade às tradições.
Kardec critica o que considera excesso de formalismo e aparência religiosa entre alguns fariseus. Segundo essa leitura, a preocupação com prestígio e poder podia se sobrepor à transformação interior. A obra usa essa crítica para destacar a diferença entre aparência de virtude e vida moral sincera.
Nota de vocabulário: a edição anterior menciona a filosofia religiosa medieval, especialmente a tradição conhecida como escolástica.
A escolástica foi uma tradição filosófica e teológica desenvolvida nas escolas medievais, que procurava relacionar fé e razão e recebeu forte influência de autores como Aristóteles. Essa explicação corresponde à nota editorial da edição anterior.
Os fariseus exerciam grande influência sobre o povo e eram vistos por muitos como autoridades religiosas. Acreditavam, ou afirmavam acreditar, na Providência?, na imortalidade da alma, em recompensas e penas futuras e na ressurreição dos mortos.
Jesus valorizava a simplicidade, a sinceridade e as qualidades do coração. Por isso, criticou duramente a hipocrisia e o excesso de formalismo religioso, o que aumentou a oposição de grupos influentes contra ele. Escribas: inicialmente, esse nome era usado para secretários e funcionários ligados à administração e, mais tarde, para estudiosos e intérpretes da lei de Moisés.
Os escribas ensinavam e interpretavam a lei para o povo e frequentemente atuavam em conjunto com os fariseus. Sinagoga: palavra de origem grega que significa assembleia ou reunião. Na Judeia havia um templo central em Jerusalém, enquanto em outras cidades os judeus se reuniam em sinagogas.
Nas sinagogas, especialmente aos sábados, eram feitas orações públicas, leituras das Escrituras e explicações dos textos. Essas reuniões eram orientadas por anciãos, escribas e doutores da lei. Foi nesse ambiente que Jesus também ensinou em diferentes ocasiões.
Depois da destruição de Jerusalém e da dispersão dos judeus, as sinagogas passaram a ter papel ainda mais importante na vida religiosa das comunidades. Saduceus: grupo religioso judeu antigo, tradicionalmente associado ao nome de Sadoc. Os saduceus não aceitavam a imortalidade da alma nem a ressurreição dos mortos.
Os saduceus também não aceitavam a existência de anjos bons e maus como entendida por outros grupos. Apesar disso, acreditavam em Deus e valorizavam recompensas ligadas à vida presente. Em matéria religiosa, davam grande importância ao texto da lei antiga e rejeitavam muitas tradições e interpretações posteriores.
Valorizavam as boas obras e o cumprimento direto da lei acima de certas práticas exteriores. Kardec os compara aos materialistas, deístas e sensualistas de sua época. O grupo era pequeno, mas incluía pessoas influentes e também atuava politicamente. Essênios: grupo judeu surgido aproximadamente no século II a.C., cujos membros viviam em comunidades organizadas.
Os essênios eram conhecidos por costumes simples e disciplina rigorosa. Ensinavam o amor a Deus e ao próximo, acreditavam na imortalidade da alma e na ressurreição. Muitos viviam sem casamento, condenavam a escravidão e a guerra, compartilhavam bens e se dedicavam ao trabalho.
Eles se diferenciavam tanto dos saduceus, mais ligados aos interesses materiais, quanto dos fariseus, fortemente ligados às práticas exteriores. Por causa de algumas semelhanças morais, alguns autores levantaram a hipótese de que Jesus teria conhecido ou convivido com esse grupo antes de sua missão pública.
A obra afirma que Jesus provavelmente conhecia os essênios, mas considera sem prova a ideia de que tenha pertencido ao grupo. Terapeutas: grupo judeu da época de Jesus, estabelecido principalmente em Alexandria, no Egito, que mantinha semelhanças e relações com os essênios.
Os terapeutas valorizavam vida simples, reflexão, disciplina e prática das virtudes. Alguns viviam em celibato e de forma retirada. Fílon de Alexandria escreveu sobre eles. Autores cristãos antigos chegaram a considerá-los cristãos. Para Kardec, eles representam um ponto de contato histórico entre tradições judaicas e cristãs.
IV - Sócrates e Platão, antecessores da ideia cristã e do Espiritismo
Mesmo que Jesus conhecesse os essênios, não seria correto concluir que sua doutrina veio simplesmente daquele grupo ou que teria sido diferente em outro ambiente. Grandes ideias geralmente são preparadas ao longo do tempo por pessoas e movimentos anteriores.
Segundo Kardec, quando chega o momento adequado, uma pessoa pode reunir, organizar e desenvolver ideias que antes estavam espalhadas. Assim, novas doutrinas encontram pessoas já preparadas para compreendê-las. Ele considera Sócrates e Platão importantes antecedentes de ideias que mais tarde apareceriam no Cristianismo.
Sócrates, assim como Jesus, não deixou escritos próprios conhecidos. Foi condenado à morte depois de questionar crenças tradicionais e colocar a virtude acima do formalismo e da aparência religiosa. Kardec compara a acusação feita contra Sócrates à oposição enfrentada por Jesus. Sócrates ensinava a unidade de Deus, a imortalidade da alma e a continuidade da vida após a morte.
Sócrates (470–399 a.C.) foi um filósofo ateniense conhecido por estimular seus alunos a refletir, questionar e examinar criticamente suas próprias ideias.
Assim como conhecemos os ensinamentos de Jesus principalmente pelos escritos de seus discípulos, conhecemos grande parte do pensamento de Sócrates pelos textos de seu discípulo Platão.
Kardec considera útil resumir alguns desses ensinamentos para mostrar semelhanças com princípios cristãos. Ele afirma que a comparação não diminui a missão de Jesus e lembra que Sócrates também combateu práticas e crenças que considerava inadequadas em seu tempo.
Para Kardec, comparar essas ideias é parte do estudo histórico e não uma tentativa de reduzir a importância de Jesus. Ele defende que o conhecimento deve ser examinado de forma ampla, sem ficar preso a rivalidades entre grupos religiosos ou tradições.
Segundo Kardec, essas citações também mostram que alguns princípios associados ao Espiritismo já apareciam, de forma anterior ou parcial, no pensamento de Sócrates e Platão.
Resumo de ideias de Sócrates e Platão selecionadas por Allan Kardec
I. O ser humano é uma alma encarnada. Antes de encarnar, a alma teria existido em contato com ideias de verdade, bem e beleza. Ao entrar na vida corporal, conservaria uma lembrança imperfeita desse estado e sentiria desejo de retornar a ele.
Kardec vê nessa ideia uma distinção clara entre o princípio espiritual e o princípio material. Também identifica nela a noção de preexistência da alma, da lembrança intuitiva de outro estado de existência e da continuidade da vida além do corpo.
Nota de vocabulário: a edição anterior menciona um recipiente usado como antiga medida de capacidade, equivalente a aproximadamente 13,8 litros.
Esse recipiente era utilizado para medir cereais. As proposições de Sócrates e Platão selecionadas por Kardec foram retiradas dos Diálogos de Platão.
Essa observação corresponde à nota do editor existente na edição anterior.
Kardec relaciona essas ideias à crença na existência de outro mundo, à sobrevivência da alma após a morte, à encarnação? e ao retorno da alma ao mundo espiritual. Ele vê nelas também uma origem antiga para ideias posteriormente desenvolvidas em tradições religiosas.
II. Segundo o pensamento apresentado, a alma se confunde quando depende apenas dos sentidos do corpo para compreender a realidade, porque o mundo material está sempre sujeito a mudanças. Quando se volta para aquilo que considera puro, eterno e imutável, aproxima-se de sua própria natureza espiritual.
Nesse estado, cessariam parte de suas perturbações, e essa estabilidade seria chamada de sabedoria. Kardec interpreta essa ideia como um convite para não limitar a visão da vida apenas ao aspecto material, mas considerar também uma perspectiva espiritual.
III. Enquanto a alma estiver ligada ao corpo, suas necessidades e desejos podem dificultar a busca da verdade. O corpo exige cuidados e pode gerar distrações, ilusões e interesses que desviam a atenção do que é considerado essencial.
A partir dessa visão, alguns filósofos antigos consideravam que o conhecimento pleno da verdade só seria possível depois da morte, quando a alma estivesse livre das limitações do corpo. Por isso, a morte não seria vista necessariamente como algo a temer, mas como passagem para outro estado.
Kardec relaciona essa ideia ao desenvolvimento das faculdades da alma após a morte. Ele observa, porém, que essa condição seria diferente conforme o grau de evolução moral de cada Espírito.
IV. A alma ainda muito ligada à matéria seria atraída novamente para experiências materiais. O texto antigo descreve imagens de almas perturbadas próximas a túmulos e outros lugares, como representação de Espíritos que ainda conservariam forte ligação com a vida corporal.
Segundo essa descrição, essas almas continuariam presas a desejos e hábitos da existência anterior e poderiam retornar a uma nova vida corporal, retomando tendências que ainda não haviam superado.
Kardec interpreta esse trecho como uma referência antiga à reencarnação? e ao estado de Espíritos ainda ligados à matéria. Para ele, a necessidade de reencarnar estaria relacionada às imperfeições da alma, enquanto Espíritos mais purificados estariam menos presos a esse ciclo.
O Espiritismo acrescenta que a alma pode aproveitar o período entre as encarnações para refletir, aprender e tomar novas decisões. Assim, cada nova existência poderia trazer oportunidades de progresso intelectual e moral.
V. O texto antigo afirma que, após a morte, um gênio ou espírito protetor conduziria a pessoa a outro estado, onde ela seria julgada, e que depois de determinado período poderia retornar à vida corporal. Kardec relaciona essa ideia aos Espíritos protetores e às reencarnações sucessivas.
VI. Na linguagem antiga, os chamados demônios eram apresentados como seres intermediários entre o mundo divino e os seres humanos.
Hades: termo da tradição grega antiga usado para designar o mundo dos mortos.
Na Antiguidade, a palavra daimon não tinha necessariamente o sentido negativo que a palavra demônio adquiriu mais tarde. Podia indicar seres espirituais intermediários, relacionados à comunicação entre o mundo divino e os seres humanos.
Por isso, o termo podia ser aplicado de maneira ampla aos seres espirituais, distinguindo-se entre aqueles considerados mais elevados e outros vistos como menos evoluídos.
Kardec aproxima essa ideia da visão espírita segundo a qual o espaço é habitado por Espíritos e a comunicação com o mundo espiritual ocorre por diferentes graus de intermediários. Ele também observa semelhanças com a noção cristã de anjos.
VII. Para Sócrates e Platão, uma das principais preocupações do filósofo deveria ser o cuidado com a alma.
Se a alma é imortal, a vida atual seria apenas uma parte de sua existência. Por isso, o cuidado com a vida moral e espiritual deveria considerar também a continuidade da alma além da experiência presente.
Kardec afirma que o Cristianismo e o Espiritismo ensinam princípio semelhante.
VIII. Se a alma é imaterial, após a morte ela retornaria a um estado também imaterial, enquanto o corpo voltaria à matéria. O texto diferencia a alma mais pura, voltada para o conhecimento e para o bem, daquela ainda fortemente marcada por interesses e imperfeições materiais.
Kardec considera que Sócrates e Platão já reconheciam diferentes graus de pureza da alma. Para ele, o Espiritismo desenvolveria essa ideia ao descrever diferentes condições espirituais após a morte.
IX. Se a morte significasse o desaparecimento completo do ser, ela poderia parecer uma vantagem para quem pratica o mal, pois toda responsabilidade terminaria junto com a vida. O texto defende, ao contrário, que quem procura desenvolver virtudes pode encarar com mais tranquilidade a passagem para outra existência.
Kardec interpreta essa ideia como uma crítica ao materialismo entendido como negação de qualquer responsabilidade depois da morte. Na visão espírita, a continuidade da vida preserva também as consequências morais das escolhas feitas.
Segundo Kardec, as experiências mediúnicas mostrariam que a passagem da vida corporal para a vida espiritual pode ser difícil para quem permanece fortemente ligado ao mal ou às próprias imperfeições.
X. Assim como o corpo conserva marcas dos cuidados e acidentes que recebeu, a alma conservaria os efeitos de suas escolhas, sentimentos e atitudes. Nessa visão, o maior prejuízo seria chegar à vida espiritual carregando culpa e desequilíbrios morais.
Sócrates dirige-se a Cálicles e afirma que seus interlocutores não conseguiram demonstrar que uma vida injusta seria mais vantajosa quando se considera o destino da alma depois da morte.
Entre opiniões diferentes, Sócrates sustenta que é melhor sofrer uma injustiça do que cometê-la e que a prioridade deve ser tornar-se uma pessoa realmente boa, e não apenas parecer boa. Kardec relaciona essa ideia à responsabilidade moral da alma.
Kardec aproxima esse princípio do ensinamento cristão de não responder ao mal com o mal. Ele lembra a passagem em que Jesus ensina a oferecer a outra face, entendida como orientação para evitar a vingança.
XI. Sócrates considera duas possibilidades: ou a morte seria o fim absoluto da consciência, ou seria a passagem da alma para outro estado. Na segunda hipótese, haveria a possibilidade de reencontrar pessoas conhecidas e continuar aprendendo.
Ele imagina a possibilidade de conversar com aqueles que já morreram e distinguir os que realmente são sábios daqueles que apenas acreditam ser. Ao final, aceita a própria morte enquanto seus juízes continuam vivendo.
Kardec relaciona essa ideia à visão espírita de que a morte não interrompe a existência, mas representa uma mudança de estado. Para ele, as relações entre os Espíritos continuam e a vida prossegue de outra forma.
Kardec considera natural encontrar semelhanças entre ideias antigas e ensinamentos posteriores, porque acredita que grandes verdades espirituais são permanentes e podem ser percebidas em diferentes épocas.
Ele também admite a possibilidade, dentro da visão espírita, de que grandes pensadores do passado participem posteriormente de novas etapas de ensino espiritual.
XII. Não se deve responder à injustiça com outra injustiça nem fazer mal a alguém apenas porque essa pessoa nos prejudicou. Kardec relaciona esse princípio à caridade? cristã, ao perdão e à orientação de não retribuir o mal com o mal.
XIII. Uma ação pode ser avaliada pelos resultados que produz. Se suas consequências são más, ela deve ser reconhecida como prejudicial; se produz o bem, pode ser considerada boa.
Kardec observa que a ideia de conhecer a árvore pelos frutos aparece diversas vezes nos Evangelhos.
XIV. A riqueza pode representar um perigo quando se transforma no centro da vida. Quem se apega excessivamente aos bens materiais corre o risco de colocar aquilo que possui acima do próprio desenvolvimento moral.
XV. O texto afirma que preces e sacrifícios exteriores têm menos valor do que uma alma virtuosa que procura agir de acordo com o bem. A justiça e a sabedoria estariam mais ligadas às palavras e atitudes corretas do que às ofertas externas.
XVI. O texto critica o amor reduzido apenas ao corpo e apresenta o amor como uma força presente em toda a Natureza. Essa força é associada à harmonia, à beleza, à paz e à capacidade de aliviar o sofrimento.
Kardec relaciona essa visão à ideia de amor universal em Platão. Quando Sócrates chama o amor de grande daimon, Kardec entende que ele se refere a um grande Espírito ligado ao princípio do amor universal.
XVII. O texto apresenta a virtude como dom de Deus. Kardec observa que, se fosse apenas um favor concedido a algumas pessoas, não haveria mérito em possuí-la. O Espiritismo, segundo ele, acrescenta que a virtude é desenvolvida pelo esforço ao longo de existências sucessivas. A graça seria a ajuda divina oferecida a quem deseja sinceramente superar o mal e praticar o bem.
XVIII. É comum percebermos com mais facilidade os defeitos das outras pessoas do que os nossos próprios. Kardec relaciona essa ideia ao ensinamento de Jesus sobre enxergar o pequeno cisco no olho do irmão e não perceber a grande viga no próprio olho.
XIX. O texto afirma que cuidar apenas do corpo, sem considerar a dimensão espiritual do ser humano, seria insuficiente para compreender certas doenças. Kardec entende que corpo e alma exercem influência um sobre o outro e acredita que o estudo dessa relação poderia ampliar a compreensão da saúde.
XX. Sócrates afirma que, desde cedo, as pessoas tendem a praticar mais o mal do que o bem. Kardec relaciona essa ideia ao problema da presença do mal na Terra e à visão espírita sobre a diversidade dos mundos e o processo de evolução dos Espíritos.
XXI. Há sabedoria em reconhecer aquilo que não sabemos. Kardec dirige essa reflexão a quem critica assuntos que não conhece suficientemente. Ele recomenda estudar, buscar a verdade e evitar discussões que não produzam aprendizado, inclusive diante de opositores de boa ou má-fé.
Kardec observa que Sócrates também enfrentaria, em qualquer época, pessoas que zombariam de sua crença em realidades espirituais ou o considerariam insensato por defendê-las.
Kardec lembra que Sócrates foi ridicularizado, acusado de desrespeitar as crenças de seu tempo e condenado a beber cicuta. Ele usa esse exemplo para afirmar que ideias novas, quando enfrentam interesses e preconceitos estabelecidos, muitas vezes encontram resistência antes de serem aceitas.
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