Antes dos capítulos · linguagem simples
Introdução
O objetivo da obra, seus critérios e o contexto necessário para compreender os ensinamentos.I - Objetivo desta obra
Podemos dividir os assuntos contidos nos Evangelhos em cinco partes: os atos comuns da vida do Cristo; os milagres; as predições; as palavras que serviram de consolidação aos dogmas¹ da Igreja para fundamento de seus crenças consideradas incontestáveis e o ensino moral. Se as quatro primeiras partes são objeto de controvérsias; a última permanece inatacável. Diante desse código divino, submete-se a própria descrença. É o terreno em que todos as religiões se encontram, a bandeira sob a qual todos podem abrigar-se, sejam quais forem as suas crenças, pois ela nunca se fez objeto de disputas religiosas, sempre e por toda a parte levantadas pelos crenças consideradas incontestáveis. Se o discutissem, as grupos religiosos teriam encontrado nele a sua própria condenação, pois a maioria delas está ligada à parte mística do que à parte moral, que exige a renovação de si mesmo. Para os homens, em particular, é uma regra de conduta que abrange todas as circunstâncias da vida particular ou pública, o princípio de todas as relações sociais fundadas sobre a mais rigorosa justiça. É, enfim, e acima de tudo, o caminho infalível da felicidade que virá. É uma pequena parte do que ainda está oculto erguido sobre a vida após a morte. Este é o tema exclusivo desta obra.
Todo o mundo admira a ensinamento moral do Evangelho. Todos declaram a sua sublimidade e a sua necessidade; mas muitos o fazem confiando naquilo que ouviram, ou apoiados em algumas máximas que se
Crença considerada incontestável - Princípio de fé definido pela Igreja, apresentada como incontestável e indiscutível - ver
Kardec, Allan - O Livro dos Espíritos, cap. IV, q. 171 nota (2). Mundo Maior Editora, 1a edição, 2000.
tornaram conhecidas. Mas poucos a conhecem a fundo, menos ainda a compreendem e sabem deduzir-lhes as consequências. A razão disso está, em grande parte, nas dificuldades que a leitura do Evangelho apresenta, tornando-se incompreensível para a maioria. A forma simbólica e o linguagem misteriosa intencional da linguagem fazem com que a maioria o leia por desencargo de consciência e por obrigação, como leem as orações sem as compreender, ou seja, sem delas tirar proveito. Os ensinamentos morais, disseminados no texto, misturados às narrativas. Torna-se impossível, assim, compreendê-los como um todo e fazê-los objeto de leitura e de meditação separadamente. É bem verdade que já foram escritos tratados de ensinamento moral do Evangelho, mas o arranjo em estilo literário moderno lhe tira a primitiva espontaneidade primitiva, que lhes proporciona ao mesmo tempo, encanto e a autenticidade. Ocorre o mesmo com as máximas soltas, reduzidas à sua mais simples expressão muito conhecida; não são mais do que aforismos², que perdem uma parte do seu valor e de seu interesse, pela falta de complementos e das circunstâncias em que foram transmitidas.
Para evitar tais inconvenientes, reunimos nesta obra os trechos que podem constituir, por assim dizer, um código de moral universal sem distinção de prática religiosa. Nas citações, conservamos tudo o que era útil ao desenvolvimento do pensamento, suprimindo apenas o que era estranho ao assunto. Além disso, respeitamos, escrupulosamente, a tradução original de Sacy, bem como a divisão por versículos. Mas, em vez de nos atermos a uma ordem cronológica sem real utilidade neste caso, agrupamos e classificamos as sentenças metodicamente, segundo a natureza de cada uma delas, de maneira que elas se deduzam, o máximo possível, umas das outras. A ordem de numeração dos capítulos e dos versículos permite recorrer à consulta, caso seja necessário. Foi apenas um trabalho material, que teve somente uma utilidade secundária. O essencial era colocá-lo ao alcance de todos pela explicação das passagens obscuras e o desenvolvimento de todas as suas consequências,
Frase curta de ensinamento - Máxima ou sentença que em poucas palavras contém uma regra ou um princípio de
grande alcance. (N. do E.)
em vista da aplicação nas diferentes circunstâncias da vida. Foi o que tentamos fazer, com a ajuda dos bons Espíritos que nos assistem. Muitas passagens do Evangelho, da Bíblia e de outros autores sagrados, em geral, são de difícil compreensão; muitas até parecem absurdas, por causa da falta de uma chave para se entender o verdadeiro sentido. Essa chave está inteiramente no Espiritismo, como já puderam convencer-se aqueles que o estudaram seriamente, e como também será ainda mais bem reconhecido. O Espiritismo encontra-se por toda a parte, na Antiguidade e em todas as épocas da Humanidade. Em tudo encontramos os seus traços: nas escrituras, nas crenças e nos monumentos. É por isto que, ao abrir novos horizontes para o futuro, lança uma luz tão esclarecedora sobre os mistérios do passado. Como complemento de cada ensinamento, acrescentamos algumas instruções escolhidas entre as que foram ditadas pelos Espíritos, em diversos países e por meio de diferentes médiuns. Se estas instruções tivessem surgido de uma única fonte, poderiam ter sofrido influência pessoal ou do meio, enquanto que a diversidade das origens prova que os Espíritos dão os seus ensinamentos por toda parte e que ninguém é privilegiado nessa questão³. Esta obra é para uso de todos. Dela podem todos obter os meios de conformar com a moral do Cristo o respectivo agir. Aos espíritas oferece aplicações que lhes dizem respeito de modo especial. Graças às relações estabelecidas, daqui em diante e permanentemente, entre os homens e o mundo espiritual, a lei evangélica, que os próprios Espíritos
intelectual para o qual apenas prestaram o seu concurso mecânico. (Nota de Allan Kardec.)
ensinaram a todas as nações, já não será ensinamento sem aplicação prática, porque cada um a compreenderá e se verá incessantemente compelido a pô-la em prática, a conselho de seus guias espirituais. As instruções que vêm dos Espíritos são verdadeiramente as vozes do Céu que vêm esclarecer os homens e convidá-los à prática do Evangelho.
II - Autoridade da Doutrina Espírita
Controle universal do ensinamento dos Espíritos Se a Doutrina Espírita fosse uma concepção puramente humana, ela teria como garantia somente as luzes daquele que a tivesse concebido. Ora, ninguém aqui na Terra poderia ter a pretensão de possuir para si a verdade absoluta. Se os Espíritos que a revelaram exclusivamente houvessem se manifestado a um só homem, nada lhe garantiria a origem, pois seria necessário crer na palavra daquele que dissesse ter recebido deles os seus ensinamentos. Admitindo-se absoluta sinceridade de sua parte, poderia no máximo convencer as pessoas de seu relacionamento e poderia ter seguidores, mas jamais conseguiria reunir a todos. Deus quis que a nova revelação chegasse aos homens por um meio mais rápido e mais autêntico. Por isso encarregou os Espíritos de levá-la de um polo a outro, manifestando-se por toda a parte, sem dar a ninguém o privilégio exclusivo de ouvir a sua palavra. Um homem pode ser enganado e pode enganar-se a si mesmo, mas tal não ocorre quando milhões veem e ouvem a mesma coisa. É uma garantia para cada um e para todos. Além disso, pode fazer-se desaparecer um homem, mas não se faz desaparecerem multidões; pode-se queimar livros, mas não se pode queimar Espíritos. Ora, mesmo que se queimassem todos os livros, a fonte da doutrina continuaria inesgotável, pois ela não se encontra na Terra. Surgiu de toda a parte e todos podem saciar a sejam nessa fonte. Se faltarem homens que a propaguem, haverá sempre os Espíritos, que atingem a todos e aos quais ninguém pode atingir. São os próprios Espíritos, na verdade, que fazem a propagação com a ajuda de inumeráveis médiuns que eles despertam por toda a parte. Se houvesse apenas um intérprete, por mais favorecido que fosse, o Espiritismo seria apenas conhecido. Esse intérprete, qualquer que fosse a sua categoria, teria sido objeto de desconfiança de muitos; nenhuma nação o aceitaria, enquanto os Espíritos, comunicando-se em todos os lugares, a todos os povos, a todas as grupos religiosos e a todos os grupos, são aceitos por todos. O Espiritismo não tem nacionalidade, independe das religiões particulares, não é imposto por nenhuma classe social, pois todos podem receber as instruções de seus parentes e
amigos de além- -túmulo. É necessário que assim seja, para que ele possa conclamar todos os homens à união entre irmãos, pois se não se colocasse sobre um terreno neutro, teria mantido as divisões, em vez de apaziguá-las. Na universalidade dos ensinamentos dos Espíritos está a força do Espiritismo e, também, a causa de sua tão rápida propagação. A voz de um só homem, mesmo com o auxílio da imprensa, teria levado séculos para chegar aos ouvidos de todos. Por isso, milhares de vozes se fazem ouvir simultaneamente, pela Terra, para proclamarem os mesmos princípios e transmiti-los aos mais ignorantes e aos mais sábios, para que ninguém seja excluído. É uma vantagem da qual não desfrutou nenhuma das doutrinas aparecidas até hoje. Se, portanto, o Espiritismo é uma verdade, ele não teme a má vontade dos homens, nem as revoluções morais, nem as transformações físicas do globo, pois nenhuma dessas coisas pode atingir os Espíritos. Mas esta não é a única vantagem que resulta dessa posição excepcional. O Espiritismo nela encontra uma poderosa garantia contra os cismas que poderiam ser provocados, seja pela ambição de alguns, seja pelas contradições de certos Espíritos. Essas contradições são certamente um obstáculo, mas carregam em si mesmas o remédio ao lado do mal. Sabe-se que os Espíritos, pela diferença que há em seus conhecimentos, estão longe de estar individualmente de posse de toda a verdade; que não é dado a todos o poder de conhecer certos mistérios; que o seu saber é proporcional à sua evolução; que os Espíritos comuns não sabem mais do que muitos homens; que há, entre eles, como entre os homens, os presunçosos e os pseudossábios, que acreditam saber o que não sabem; os sistemáticos, que tomam suas próprias ideias como verdadeiras e, enfim, os Espíritos de ordem mais elevada, que são completamente desmaterializados, os únicos livres das ideias e dos preconceitos terrenos. Mas também sabemos que os Espíritos enganadores não têm escrúpulos para se ocultar sob nomes falsos, para fazerem que suas utopias sejam aceitas. Disto resulta que, para tudo o que se encontra fora do ensinamento exclusivamente moral, as revelações que cada um possa obter terão um caráter individual, sem garantia de autenticidade e devem ser consideradas opiniões pessoais deste ou daquele Espírito, sendo imprudência aceitá-las e divulgá-las levianamente como verdades absolutas. O primeiro controle é, sem dúvida, o da razão, ao qual é necessário submeter, sem exceção, tudo o que vem dos Espíritos. Toda teoria contrária ao bom senso, com uma lógica rigorosa e, com os dados positivos que possuímos, por mais respeitável que seja o nome que assine, deve ser rejeitada. Mas esse controle é incompleto em muitos casos, por insuficiência de conhecimentos de algumas pessoas e da tendência de muitos de tomarem seu próprio julgamento por único árbitro da verdade. Em caso semelhante, o que fazem os homens que não confiam absolutamente em si mesmos? Levam em consideração a opinião da maioria, que lhes serve de guia desta. Assim deve ser acerca do ensinamento dos Espíritos, que nos
fornecem por si mesmos os meios de consegui-lo. A acordo nos ensinamentos dos Espíritos é, então, a sua melhor comprovação, mas é ainda necessário que ela aconteça em certas condições. A menos segura de todas é quando um médium interroga por si mesmo vários Espíritos, sobre um ponto duvidoso. É evidente que, se ele estiver sob o domínio de uma obsessão, ou se relaciona com um Espírito mistificador, este Espírito pode dizer-lhe a mesma coisa sob nomes diferentes. Não há também nenhuma garantia suficiente na acordo que se possa obter pelos médiuns de um mesmo centro, pois podem sofrer a mesma influência. A única garantia segura do ensino dos Espíritos está na acordo que existe entre as revelações feitas espontaneamente, através de um grande número de médiuns, estranhos uns aos outros e em diferentes lugares. Entenda-se que não se trata aqui de comunicações relativas a interesses secundários, mas das que se relacionam com os princípios da
Doutrina. A experiência prova que quando um novo princípio deve ser transmitido, ele é ensinado espontaneamente, em diferentes pontos ao mesmo tempo, e de uma maneira idêntica, senão pela forma, ao menos pelo conteúdo. Se, portanto, agrada a um Espírito formular um sistema excêntrico, baseado em suas próprias ideias e fora da verdade, podemos estar certos de que esse sistema permanecerá circunscrito, e cairá, diante da unanimidade das instruções dadas por toda parte, assim como já tivemos vários exemplos. É esta unanimidade que fez cair todos os sistemas parciais surgidos na origem do Espiritismo, quando cada qual explicava os fenômenos à sua maneira, e antes que fossem conhecidas as leis que regem as relações do mundo visível com o mundo espiritual. Tal é a base sobre a qual nos apoiamos, quando formulamos um princípio da Doutrina: não é por estar de acordo com as nossas ideias que o consideramos verdadeiro. Não nos colocamos, absolutamente, como árbitros supremos da verdade, e não dizemos a ninguém: “Acredite em tal coisa, pois nós a dizemos”. Nossa opinião não é, aos nossos próprios olhos, mais do que uma opinião pessoal, que pode ser verdadeira ou falsa, pois não somos mais infalíveis do que os outros. E não é também porque um princípio nos foi ensinado que o consideramos verdadeiro, mas porque recebeu a sanção da acordo. Em nossa posição, recebendo as comunicações de perto de mil centros espíritas sérios, disseminados pelos mais diversos pontos do globo, estamos em condições de ver os princípios sob os quais essa acordo se estabelece. É esta observação que nos tem guiado até hoje, e é igualmente ela que nos guiará, através dos novos campos que o Espiritismo for chamado a explorar. É assim que, estudando atentamente as comunicações vindas de diversos lugares, tanto da França quanto do exterior, reconhecemos, pela natureza toda especial das revelações, que há uma tendência para entrar numa nova via, e que chegou o momento de dar um passo à frente. Essas revelações, às vezes formuladas com palavras veladas, passaram quase sempre despercebidas para muitos daqueles que as
receberam. Muitos outros acreditaram tê-las recebido sozinhos. Tomadas isoladamente, elas seriam sem valor para nós; apenas a coincidência lhes confere valor. Depois, quando chegar o momento de publicá-las, cada um se lembrará de haver recebido instruções no mesmo sentido. É esse o movimento geral que observamos e estudamos, com a assistência dos nossos guias espirituais, que nos ajuda a avaliar a oportunidade de fazermos alguma coisa ou de nos abstermos. Esse controle universal é uma garantia para a unidade futura do Espiritismo e anulará todas as teorias contraditórias. É nele que, no futuro, procuraremos o critério da verdade. O que determinou o sucesso da doutrina formulada em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns foi que todos puderam receber, diretamente dos Espíritos, a confirmação do que eles afirmavam. Se, por toda parte, os Espíritos os contradissessem, esses livros teriam, há muito tempo, sofrido a sorte de todas as concepções fantásticas. Nem o apoio da imprensa os teria salvo do naufrágio, embora, mesmo privados desse apoio, não deixaram de fazer rapidamente o seu caminho, pois tiveram o dos Espíritos, cuja boa vontade compensou, com vantagem, a má vontade dos homens. Assim será com todas as ideias emanadas dos Espíritos ou dos homens, que puderem suportar a prova desse controle, cujo poder ninguém pode contestar. Imaginemos, então, que alguns Espíritos queiram ditar, sob um título qualquer, algum livro com sentido contrário; suponhamos mesmo que, com uma intenção hostil e com a finalidade de desacreditar a Doutrina, a malevolência suscitasse comunicações apócrifas4. Que influência poderiam ter esses relatos, se eles são desmentidos por todos os lados pelos Espíritos? É a adesão desses últimos que precisa ser assegurada, antes de lançar um sistema em seu nome. Do sistema de um só ao sistema de todos, há a distância da unidade ao infinito. O que podem todos os argumentos dos detratores contra a opinião das massas, quando milhões de vozes amigas, partidas do Espaço, chegam de todas as partes do Universo, e dentro de cada família os repelem energicamente? A experiência, em relação a esse assunto, já não confirmou a teoria? O que aconteceu com todas essas publicações que deveriam, pretensamente, destruir o Espiritismo? Qual delas conseguiu, ao menos, deter-lhe a marcha? Até hoje não se havia considerado essa
Não autênticas - Não autênticas. (N. do E.)
questão desse ponto de vista, sem dúvida um dos mais graves. Todos contaram consigo mesmos, sem contar com os Espíritos. O princípio da acordo é ainda uma garantia contra as alterações que, em proveito próprio, pretendessem introduzir no Espiritismo as grupos religiosos que dele quisessem apoderar-se, acomodando-o à sua maneira. Quem quer que tentasse desviá-lo de seu fim ligado à Providência divina
fracassaria, pela simples razão de que os Espíritos, pela universalidade de seus ensinamentos, farão cair toda modificação que se desvie da verdade. Disso tudo resulta uma verdade capital: quem quer que desejasse se colocar contra uma corrente de ideias estabelecida e sancionada poderia muito bem provocar uma pequena perturbação local e momentânea, mas jamais o conjunto, mesmo no presente, e menos ainda no futuro. Resulta ainda que as instruções dadas pelos Espíritos sobre os pontos da Doutrina ainda não esclarecidos não conseguiriam manter-se, enquanto permanecessem isoladas, só devendo, por isso, ser aceitas sob todas as reservas, a título de informação. Daí ser preciso a maior prudência na publicação, e no caso de julgar-se necessário publicá-las, só devem ser apresentadas como opiniões individuais, mais ou menos prováveis, mas tendo, em todo o caso, necessidade de confirmação. É essa confirmação que é preciso esperar, antes de apresentar um princípio como verdade absoluta, se não quiser ser acusado de irresponsabilidade ou de facilidade de acreditar sem avaliar irrefletida. Os Espíritos superiores procedem, em suas revelações, com extrema prudência. Somente expõem as grandes questões da Doutrina gradualmente, à medida que a inteligência está apta a compreender as verdades de uma ordem mais elevada, e quando as circunstâncias sejam propícias para a emissão de uma ideia nova. Por isso, desde o início, eles não disseram tudo, nem o disseram até agora, não cedendo à impaciência de pessoas muito apressadas, que desejam colher os frutos antes de amadurecerem. Seria, então, inútil querer antecipar o tempo assinalado para cada coisa pela Providência, pois os Espíritos verdadeiramente sérios se recusam positivamente a ajudar. Porém, os Espíritos irresponsáveis pouco se preocupam com a verdade, a tudo respondendo. É por essa razão que, sobre todas as questões prematuras, há sempre respostas contraditórias.
Os princípios acima não são o resultado de uma teoria pessoal, mas a forçosa consequência das condições nas quais os Espíritos se manifestam. É bem evidente que, se um Espírito diz alguma coisa num lugar, enquanto milhões dizem o contrário por toda a parte, a presunção da verdade não pode estar com aquele que ficou só, nem aproximar- se de sua opinião, pois pretender que um só tenha razão contra todos, seria tão ilógico da parte de um Espírito quanto da parte dos homens. Os Espíritos realmente sábios, quando não se sentem suficientemente esclarecidos sobre um assunto, não o resolvem jamais de uma maneira absoluta. Declaram tratar do assunto de acordo com a sua opinião pessoal e aconselham esperar-se pela confirmação. Por maior, mais bela e justa que seja uma ideia, é impossível que ela reúna, desde o início, todas as opiniões. Os conflitos que dela resultam são a consequência inevitável do movimento que se processa; e são mesmo necessários, para maior realce da verdade. É útil que assim aconteça para que as falsas ideias sejam prontamente desgastadas. Os espíritas que revelam alguns temores devem ficar tranquilos. Todas as pretensões isoladas cairão, pela força das coisas, diante do
grande e poderoso critério do controle universal. Não será pela opinião de um homem que se produzirá a união, mas pela unanimidade da voz dos Espíritos. Não será um homem, nem muito menos nós que qualquer outro, que fundará a ortodoxia espírita. Tampouco será um Espírito, vindo obrigar-se a quem quer que seja. É a universalidade dos Espíritos, comunicando-se sobre toda a Terra, por ordem de Deus. Este é o caráter essencial da Doutrina Espírita; aí está a sua força e a sua autoridade. Deus quis que a Sua lei fosse assentada sobre uma base inabalável, e foi por isso que não a fez repousar sobre a cabeça frágil de um só. É diante desse poderoso areópago5, que não conhece o acordo secreto nem as rivalidades invejosas, nem o divisão por grupos, nem as divisões nacionais, que virão quebrar-se todas as oposições, todas as ambições, todas as
pretensões à supremacia individual; pois nós mesmos nos destruiríamos se quiséssemos substituir esses decretos soberanos pelas nossas próprias ideias. Somente Ele resolverá todas as questões litigiosas, que fará silenciar as dissidências e dará razão ou não a quem de direito. Diante desse acordo imperativo de todas as vozes do céu, que pode a opinião de um homem ou de um Espírito? Menos que uma gota d’água que se perde no oceano, menos que a voz de uma criança abafada pela tempestade. A opinião universal é o juiz supremo, aquele que se pronuncia em última instância. Ela se forma de todas as opiniões individuais. Se uma delas é verdadeira, tem na balança o seu peso relativo. Se ela é falsa, não pode sobrepujar as outras. Nesse imenso concurso, as individualidades desaparecem e Aí está um novo revés para o orgulho humano. Esse conjunto harmonioso já se esboça; logo, este século não passará sem que ele resplandeça em todo o seu esplendor, de maneira a resolver todas as incertezas; porque daqui em diante, vozes poderosas terão recebido a missão de se fazerem ouvir, para unirem os homens sob a mesma bandeira, desde que o campo esteja suficientemente preparado. Enquanto isso, aquele que gravitar entre dois sistemas opostos poderá observar em que sentido se forma a opinião geral: é o indício certo do sentido em que se pronuncia a maioria dos Espíritos, dos diversos pontos sobre os quais se comunicam; é o sinal não menos seguro de qual dos dois sistemas prevalecerá.
III - Notícias históricas
Para bem compreendermos certas passagens dos Evangelhos, é preciso conhecer o valor de muitas palavras que são frequentemente empregadas e que caracterizam os costumes e a sociedade judaica naquela época. Essas palavras, não tendo para nós o mesmo sentido, foram muitas vezes mal-interpretadas, e por isso geraram
algumas incertezas. A compreensão de sua significação explica, também, o sentido verdadeiro de certas máximas, que parecem estranhas numa primeira abordagem. Samaritanos: Após o divisão das dez tribos, Samaria tornou-se a capital do reino dissidente de Israel. Destruída e reconstruída em várias ocasiões, ela foi, sob o domínio romano, a sejam administrativa da Samaria, uma das quatro divisões da Palestina. Herodes, chamado o Grande, embelezou-a com luxuosos monumentos e, para homenagear Augusto, deu-lhe o nome de Augusta, em grego Sebaste. Os samaritanos estiveram quase sempre em guerra com os reis de Judá. Uma rejeição profunda, que datava da época da separação, perpetuou-se constantemente entre os dois povos, que se esquivavam de qualquer relação recíproca. Os samaritanos, para tornarem a cisão mais profunda e por não terem de ir a Jerusalém para a celebração das festas religiosas, construíram um templo próprio e adotaram certas reformas: somente admitiam o Pentateuco6 - que contém as leis de Moisés - e rejeitavam todos os livros que a ele foram anexados posteriormente. Seus livros sagrados eram escritos em caracteres hebraicos da mais alta antiguidade. Aos olhos dos judeus ortodoxos, eles eram considerados hereges e, por isso, desprezados, anatematizados7 e perseguidos. O oposição das duas nações tinha, portanto, como único princípio a divergência das opiniões religiosas, embora as suas crenças tivessem a mesma origem. Eram os protestantes desse tempo. Ainda hoje se encontram samaritanos em algumas regiões do Oriente, particularmente em Nablus e em Jaffa. Observam a lei de Moisés com mais rigor que os outros judeus e só se casam entre si. Nazarenos: Nome dado, na antiga lei, aos judeus que faziam votos, seja por toda a vida, ou por algum tempo, de conservar-se em pureza perfeita; adotavam a castidade, a abstinência das bebidas alcoólicas e não cortavam os cabelos. Sansão, Samuel e João Batista eram nazarenos. Mais tarde, os judeus deram esse nome aos primeiros cristãos, por alusão a Jesus de Nazaré. Foi também o nome de uma grupo religioso herética dos primeiros séculos da era cristã, que, como os ebionitas8, cujos princípios ela adotou, misturava as práticas do Religião baseada na lei de Moisés aos crenças consideradas incontestáveis cristãos. Essa grupo religioso desapareceu no quarto século. Cobradores de impostos: Eram assim chamados, em Roma, os cavalheiros arren-
datários das taxas públicas, encarregados da cobrança dos impostos e das rendas de toda espécie, fosse em Roma ou em outras partes do Império. Assemelhavam-se aos responsáveis por cobrança gerais e aos contratantes do antigo regime na França, e aos que ainda existem em algumas regiões. Os riscos a que estavam sujeitos faziam que se
fechassem os olhos ao seu enriquecimento, que, para muitos, era produto de cobranças e de lucros escandalosos. O nome cobrador de impostos estendeu-se mais tarde a todos aqueles que detinham a gestão do dinheiro público público e aos seus agentes subalternos. Hoje, essa palavra se usa de forma negativa, para designar os negociantes e seus agentes pouco escrupulosos. Costuma-se dizer: “Ávido como um cobrador de impostos, rico como um cobrador de impostos”, referindo-nos a fortunas de má procedência. O que os judeus mais dificilmente aceitaram e também o que mais causou irritação entre eles durante a dominação romana, foi o imposto. Provocou inúmeras revoltas e fez-se disso uma questão religiosa, porque era considerado como contrário à lei. Formou-se mesmo um partido poderoso encabeçado por um certo Judas, chamado o Gaulonita, que tinha por princípio o não pagamento do imposto. Os judeus tinham, portanto, horror ao imposto e, consequentemente, por todos aqueles que eram encarregados de arrecadá-lo. Daí a sua rejeição pelos cobradores de impostos de todas as categorias, entre os quais podiam encontrar-se pessoas muito estimáveis, mas que, em razão de suas funções, eram desprezadas, assim como aqueles de suas relações e que eram vistos com a mesma repulsa. Os judeus bem considerados acreditavam comprometer-se, tendo relações pessoais com eles. Portageiros: Eram os cobradores de categoria inferior, encarregados do recebimento de pagamento pela entrada nas cidades. Suas funções correspondiam mais ou menos à dos aduaneiros e dos cobradores de taxa sobre mercadorias. Sofriam, também, a crítica aplicada aos cobradores de impostos em geral. É por essa a razão que, encontramos frequentemente no Evangelho o nome de cobrador de impostos ligado à designação de gente de má
Ebionitas - Relativo a Ebionismo, doutrina herética do século II, que, posto reconhecesse Jesus
por Messias, Lhe negava a divindade, aceitava o Velho Testamento e rejeitava o Novo, que substituía por outro, chamado o Evangelho dos Ebionitas. (N. do E.)
vida. Essa qualificação não significava “dissolutos” ou “vagabundos”: era uma expressão de desprezo, sinônimo de pessoas de má companhia, indignas de conviver com gente de bem. Fariseus: (do hebraico pharush, divisão, separação): A tradição formava uma parte importante da teologia9 judaica. Consistia nas coletâneas das interpretações sucessivas dadas aos trechos das escrituras, que se haviam transformado em artigos de crença considerada incontestável. Era, entre os doutores, motivo de intermináveis discussões, muitas vezes por simples questão de palavras ou de formas, à semelhança das disputas teológicas e das sutilezas da escolástica10 medieval. Daí
nasceram diferentes grupos religiosos, que pretendiam ter cada qual o monopólio da verdade e, como acontece quase sempre, detestando-se cordialmente entre si. Entre essas grupos religiosos, a mais influente era a dos fariseus, que tinha por chefe Hillel, doutor judeu nascido na Babilônia, fundador de uma célebre escola, na qual se ensinava que a fé só era dada pelas escrituras. Sua origem remonta aos anos 180 ou 200 a.C. Os fariseus foram perseguidos em diversas épocas notadamente por Hircanio, soberano pontífice e rei dos judeus, e ainda por Aristóbulo e Alexandre, reis da Síria. Porém, como este último devolveu-lhes as honras e bens, eles retomaram o poder e o conservaram até a ruína de Jerusalém, no ano 70 da era cristã, época na qual o seu nome desapareceu, depois da dispersão dos judeus. Os fariseus tomavam parte ativa nas controvérsias religiosas. Rigorosos observadores das práticas exteriores do prática religiosa e das cerimônias, ardorosamente dedicados a conquistar seguidores, inimigos das inovações, mostravam grande rigor de princípios. Mas, sob as aparências de uma devoção meticulosa, escondiam hábitos dissolutos, muito orgulho e, sobretudo, excessivo desejo pela dominação. A religião, para eles, era mais um meio de subir do que propriamente objeto de uma fé sincera. Eles tinham apenas as aparências e a exibição de virtudes, embora com isso exercessem uma
Teologia - Ciência que se ocupa de Deus e Seus atributos. (N. do E.)
Filosofia religiosa medieval - Sistema teológico-filosófico surgido nas escolas medievais e caracterizado pela co-
ordenação entre Teologia e Filosofia, iniciado pelos pais da Igreja (Santo Agostinho e São Tomás de Aquino), firmados em Aristóteles. Manteve-se até fins do século XVIII. (N. do E.)
grande influência sobre o povo, aos olhos de quem passavam por santos personagens. Por isso eram tão poderosos em Jerusalém. Criam ou ao menos declaravam crer na Providência, na imortalidade da alma, na eternidade das penas e na ressurreição dos mortos. (Cap. IV, n0 4.) Jesus, que prezava acima de tudo a simplicidade e as qualidades do coração, que preferia na lei “o Espírito que vivifica à letra que mata”, entregou-se, durante toda a Sua missão, a desmascarar essa falsidade, e por isso granjeou inimigos insistentes. Foi por isso que eles se ligaram aos príncipes dos sacerdotes para levantar o povo contra Jesus e fazê-Lo sacrificar. Escribas: Nome dado, a princípio, aos secretários dos reis de Judá e a alguns intendentes dos exércitos judeus. Mais tarde, essa designação foi aplicada especialmente aos doutores que ensinavam a lei de Moisés e a interpretavam
ao povo. Faziam causa comum com os fariseus, com os quais dividiam os princípios e a rejeição aos renovadores. É por isto que Jesus também os envolve na mesma crítica. Sinagoga: (do grego synagogê, assembleia, congregação) Havia na Judeia apenas um templo, o de Salomão, situado em Jerusalém, onde se celebravam as grandes cerimônias do prática religiosa. Para lá iam todos os anos os judeus em peregrinação, para as festas principais, como as da Páscoa, da Dedicação e a dos Tabernáculos. Foi nessa época que Jesus ali fez diversas incursões. As outras cidades não tinham templos, mas sinagogas, onde os judeus se reuniam nos dias de sábado, para orar em público sob a orientação dos anciãos, dos escribas e dos doutores da lei. Nesse local se faziam também as leituras dos livros sagrados, seguidas de comentários e explicações. Todos podiam tomar parte e foi por isso que Jesus, sem ser sacerdote, ensinava nas sinagogas aos sábados. Após a ruína de Jerusalém e a dispersão dos judeus, as sinagogas, nas cidades em que passaram a residir, servem-lhes de templo para a celebração do culto11. Saduceus: Grupo religioso judia que se formou por volta do ano 248 a.C., assim chamada em virtude do nome de seu fundador Sadoc. Os saduceus não acreditavam na imortalidade da alma, nem na ressurreição, ou na
existência dos bons e maus anjos. Apesar disso, acreditavam em Deus, e embora nada esperassem após a morte, serviam-no com o intuito de obter recompensas temporais, ao que, segundo eles, se limitava a providência divina. A satisfação dos sentidos era, aos seus olhos, o motivo principal da vida. Quanto às escrituras, apegavam-se ao texto da antiga lei, não admitindo nem a tradição, nem qualquer outra interpretação. Colocavam as boas obras e a execução pura e simples da lei acima das práticas exteriores do prática religiosa. Eram, como se vê, os materialistas, os deístas e os sensualistas da época. Essa grupo religioso era pouco numerosa, mas contava com personagens importantes e tornou-se um partido político sempre oposto aos fariseus. Essênios: Grupo religioso judia fundada por volta do ano 150 a.C., no tempo dos macabeus. Seus membros moravam numa espécie de mosteiro e formavam um tipo de associação moral e religiosa. Distinguiam-se pelos costumes suaves e virtudes austeras, ensinando o amor a Deus e ao próximo, a imortalidade da alma e acreditavam na ressurreição. Eram pessoas que não se casavam, condenavam a escravidão ou submissão e a guerra; seus bens eram comuns e se entregavam à agricultura. Contrários aos saduceus voltados aos prazeres materiais, que negavam a imortalidade da alma, e aos fariseus enrijecidos pelas práticas exteriores, para os quais a virtude era apenas aparente, não tomaram parte nas disputas que dividiam essas duas grupos religiosos. Seu gênero de vida se aproximava ao dos primeiros cristãos, e os princípios morais que declaravam fizeram com que alguns
pensassem que Jesus pertencera a essa grupo religioso, antes do início de Sua missão pública. O que é certo é que Ele devia conhecê-la, mas nada prova que era integrante dela e tudo quanto se tem escrito a respeito é hipotético.12 Terapeutas (do grego therapeutai, vindo de théra-peuein, servir, tratar; quer dizer: servidores de Deus ou curadores): Integrantes de uma grupo religioso judeus pessoas da mesma época do Cristo, estabelecidos principalmente em Alexandria, no Egito. Tinham intensas relações com os essênios, dos quais declaravam os princípios. Como esses últimos, eles se davam à prática
de todas as virtudes. Sua alimentação era extremamente simples. Com votos de celibato, de reflexão profunda e de vida solitária, formavam uma verdadeira ordem religiosa. Fílon, filósofo platônico de Alexandria, foi o primeiro a se referir aos terapeutas, apresentando-os como uma grupo religioso do Judaísmo. Eusébio, São Jerônimo e outros Pais da Igreja pensavam que eles eram cristãos. Judeus ou cristãos, é evidente que, como os essênios, formam o traço de união entre o Judaísmo e o Cristianismo.
IV - Sócrates e Platão, antecessores da ideia
cristã e do Espiritismo Da suposição de que Jesus devia conhecer a grupo religioso dos essênios, seria errado concluir que Ele embasou nela a Sua doutrina, e que, se tivesse vivido em outro meio, teria professado outros princípios. As grandes ideias nunca apareceram subitamente. As que têm por base a verdade contam sempre com antecessores, que lhes preparam parcialmente o caminho. Depois, quando é chegado o tempo, Deus envia um homem com a missão de resumir, coordenar e completar os elementos esparsos e formar, com eles, um corpo de doutrina. Dessa maneira, não tendo surgido bruscamente, a ideia encontra, ao aparecer, espíritos preparados para aceitá-la. Assim foi com as ideias cristãs, pressentidas muitos séculos antes de Jesus e dos essênios, e das quais Sócrates e Platão foram os principais antecessores.
Sócrates13, assim como o Cristo, nada escreveu ou, pelo menos, nada deixou escrito. Teve a morte dos criminosos por haver atacado as crenças tradicionais e colocado a verdadeira virtude acima da falsidade e da ilusão dos formalismos. Em uma palavra, por haver combatido os preconceitos religiosos. Assim como Jesus foi acusado pelos fariseus de corromper o povo com os Seus ensinamentos, Ele também foi acusado pelos fariseus de seu tempo - pois que os tem havido em todas as
épocas - de desviar a juventude, ao declarar o crença considerada incontestável da unidade de Deus, da
Sócrates (470-399 a.C.) - Filósofo ateniense. Educador por excelência, partiu do princípio
de que era necessário despertar as inteligências para o exercício da reflexão filosófica. (N. do E.)
imortalidade da alma e da existência da vida após a morte. Da mesma forma porque hoje conhecemos a doutrina de Jesus pelo que escreveram os Seus discípulos, só se conhece a de Sócrates através dos escritos de seu discípulo Platão. Acreditamos ser útil resumir aqui os seus pontos mais importantes, para demonstrar a sua acordo com os princípios do Cristianismo. Àqueles que olharem esse paralelo como uma desrespeito ao sagrado, pretendendo não ser possível haver semelhanças entre a doutrina de um pagão e a do Cristo, responderemos que a doutrina de Sócrates não foi pagã, pois tinha por objetivo combater o paganismo. Que a doutrina de Jesus, mais completa e mais apurada que a de Sócrates, nada tem a perder com a comparação. A grandeza da missão divina do Cristo não poderá ser diminuída. Além disso, trata-se de fatos históricos, que não podem ser ocultados. O homem chegou a um ponto em que a luz flui por si mesma de debaixo do alqueire14. Ela é colocada para que a vejam de frente. Tanto pior para aqueles que temem abrir os seus olhos. É chegado o tempo de perceber as coisas do alto e com amplitude, e não mais do ponto de vista mesquinho e estreito de grupos religiosos e castas. Estas citações provarão também que, se Sócrates e Platão perceberam antes as ideias cristãs, encontram-se igualmente em sua doutrina os princípios fundamentais do Espiritismo.
Resumo da Doutrina15 de Sócrates e de Platão
I. O homem é uma alma encarnada. Antes de sua encarnação, ela existia junto aos modelos fundamentais, às ideias da verdade, do bem e do belo. Separou-se deles ao encarnar, e, lembrando-se do seu passado, sente-se mais ou menos atormentada pelo desejo de a eles voltar.
Não se pode enunciar mais claramente a distinção e a independência do princípio inteligente e do princípio material. Além disso, temos aí a doutrina da preexistência da alma; da vaga intuição que ela conserva,
Recipiente usado como antiga medida - Antiga medida de capacidade, equivalente a 13,8 litros; utilizava-se um caixote, com
que se mediam cereais. (N. do E.) As proposições selecionadas por Allan Kardec foram extraídas dos “Diálogos”, de Platão.
(N. do E.)
da existência de um outro mundo, ao qual aspira; de sua sobrevivência à morte do corpo; de sua saída do mundo espiritual, para encarnar; e de seu retorno a esse mundo, após a morte. É, enfim, o germe da doutrina dos anjos decaídos.
II. A alma perturba-se e confunde-se, quando se serve do corpo para considerar algum objeto. Ela tem vertigens como se estivesse ébria, pois se prende às coisas que são, por sua natureza, sujeitas a transformações. Enquanto, ao observar a sua própria essência, ela se volta para o que é puro, eterno, imortal, e, sendo da mesma natureza, permanece nessa reflexão profunda tanto tempo quanto possível. Cessam, então, as suas perturbações, pois ela está unida ao que é imutável, e a esse estado de alma é que chamamos sabedoria. Assim, o homem que considera as coisas do ponto de vista material, terra a terra, vive iludido. Para apreciá-las de maneira justa, é preciso vê-las do alto, ou seja, do ponto de vista espiritual. O verdadeiro sábio deve, então, de alguma maneira, isolar a alma do corpo, para ver com os olhos do Espírito. É o que ensina o Espiritismo. (Ver cap. II, no 5.)
III. Enquanto tivermos o nosso corpo, e a nossa alma encontrar-se mergulhada nessa corrupção, jamais possuiremos o objeto de nossos desejos: a verdade. De fato, o corpo nos oferece mil obstáculos pela necessidade que temos de cuidar dele; além disso, ele nos enche de desejos, de vontades, de crenças, de mil ilusões e mil tolices, de maneira que, com ele, é impossível sermos sábios por um instante. Mas, se nada se pode aprender puramente, enquanto a alma está unida ao corpo, conclui-se de duas coisas, uma: ou que jamais se conheça a verdade, ou que se conheça após a morte. Libertados da loucura do corpo, então conversaremos, é de se esperar, com homens igualmente livres, e descobriremos, por nós mesmos, a essência das coisas. É por isso que os verdadeiros filósofos se preparam para morrer, e a morte não lhes parece de modo nenhum temível. (O Céu e o Inferno, 1a parte, cap. II; 2a parte, cap. I.) Este é o princípio das faculdades da alma, obscurecidas pela mediação dos órgãos físicos e da expansão
dessas faculdades depois da morte. Mas trata-se, aqui, das almas evoluídas, já depuradas; não ocorre o mesmo com as almas impuras.
IV. A alma impura, nesse estado, está entorpecida, e é novamente arrastada para o mundo visível pelo horror ao que é invisível e imaterial. Ela vaga, segundo se diz, pelos túmulos e monumentos, perto dos quais foram vistos algumas vezes fantasmas tenebrosos, como devem ser as imagens das almas que deixaram o corpo, sem estarem inteiramente puras e que retêm algo da forma material, o que permite aos nossos olhos percebê-las. Não são as almas dos bons, porém as dos maus, que são forçadas a vagar nesses lugares, onde trazem as dores de sua vida passada, e onde continuam a vagar, até que os desejos inerentes à sua forma material as devolvam a um corpo. Então, elas retomam, sem dúvida, os mesmos hábitos que, durante sua vida anterior, eram objeto de sua predileção. Não apenas o princípio da reencarnação está aqui claramente expresso, como também o estado das almas que se encontram ainda sob o domínio da matéria é descrito tal como o Espiritismo demonstra nas evocações. E há mais: afirma-se que a reencarnação é consequência da imperfeição da alma, enquanto as almas purificadas dela estão libertas. O Espiritismo não diz outra coisa; apenas acrescenta que a alma que tomou boas resoluções na erraticidade e que adquiriu conhecimentos trará, ao renascer, menos defeitos, mais virtudes e mais ideias intuitivas do que na existência precedente e que, assim, cada existência marca para ela um progresso intelectual e moral. (O Céu e o Inferno, 2a parte: exemplos.)
V. Após a nossa morte, o gênio (daimónion, daemoniu) que nos havia sido designado durante a vida, nos leva para um lugar onde se reúnem todos os que devem ser conduzidos para o Hades16, para serem julgados. As almas, depois de terem permanecido no Hades o tempo necessário, são reconduzidas a esta vida, por numerosos e longos períodos. É a doutrina dos Anjos Guardiães ou Espíritos protetores, e das reencarnações sucessivas, após intervalos mais ou menos longos de erraticidade.
VI. Os demônios preenchem o espaço que separa o céu da Terra; são o elo que une o Grande Todo consigo mesmo. A divindade, jamais entrando em
Hades - Inferno pagão. (N. do E.)
comunicação direta com o homem, se comunica meio dos demônios, com os quais os deuses se relacionam e conversam, seja durante a vigília ou durante o sono. A palavra daemoniu, da qual se originou demônio, não era compreendida no sentido negativo na antiguidade, como nos tempos atuais. Essa palavra não se aplicava apenas aos seres
malévolos, mas aos Espíritos em geral, entre os quais se distinguiam os Espíritos superiores, chamados deuses e os Espíritos menos evoluídos - ou demônios propriamente ditos - que se comunicavam diretamente com os homens. O Espiritismo ensina também que os Espíritos povoam o espaço; que Deus somente se comunica com os homens por meio dos Espíritos puros, encarregados de nos transmitir a Sua vontade; que os Espíritos se comunicam conosco durante a vigília e durante o sono. Substitua-se a palavra demônio por Espírito e terão a Doutrina Espírita; coloque-se a palavra anjo e terão a doutrina cristã.
VII. A preocupação constante do filósofo (tal como a compreendiam
Sócrates e Platão) é a de ter o maior cuidado com a alma em relação à eternidade nem tanto a esta vida, que é apenas um instante. Se a alma é imortal, não é mais sábio viver com vistas à eternidade?
O Cristianismo e o Espiritismo ensinam a mesma coisa
VIII. Se a alma é imaterial, ela deve regressar, após esta vida, para um mundo igualmente invisível e imaterial, assim como o corpo que, ao se decompor, retorna à matéria. É importante distinguir alma pura, verdadeiramente imaterial, que se nutre, como Deus, da ciência e de pensamentos, da alma mais ou menos marcada por imperfeições de impurezas materiais, que a impedem de elevar-se ao divino, mantendo-a nos lugares de sua passagem pela Terra.
Sócrates e Platão, como se vê, compreendiam perfeitamente os diferentes níveis de desmaterialização da alma. Eles insistiam sobre a diferença de situação que existe para ela, de sua maior ou menor pureza. O que eles diziam, por intuição, o Espiritismo o prova pelos numerosos exemplos que coloca diante de nossos olhos. (O Céu e o Inferno, 2a parte.)
IX. Se a morte fosse a dissolução completa do homem, seria uma grande vantagem para os maus, que, depois da morte, estariam livres de seus corpos, de suas almas e de seus vícios ao mesmo tempo. O que adornar a sua alma, não com enfeites estranhos, mas com os que lhe são próprios, somente poderá esperar com tranquilidade a hora de sua partida para o outro mundo. Em outros termos, é dizer que o materialismo, que proclama o nada após a morte, seria a anulação de toda responsabilidade moral posterior e, consequentemente, um estímulo ao mal: que o indivíduo mau tem tudo a ganhar com o nada; que o homem desprovido de vícios e enriquecido de virtudes é o único que pode esperar tranquilamente o despertar numa outra vida. O Espiritismo mostra-nos, com exemplos que nos coloca frente aos olhos, como é difícil para o malvado
a passagem de uma à outra vida, a entrada na vida após a morte. (O Céu e o Inferno, 2a parte, cap. 1.)
X. O corpo conserva os marcas bem marcados dos cuidados que se teve com ele ou dos acidentes que sofreu. O mesmo ocorre com a alma. Quando ela está livre do corpo, conserva traços evidentes de seu caráter, de seus sentimentos e das marcas que cada um dos atos de sua vida nela deixaram impressa. Assim, o grande mal que pode ocorrer ao homem é o de ir para o outro mundo com a alma carregada de culpas. Você vês, Cálicles, que nem você, nem Pólux, nem Górgias poderiam provar que se deve seguir outra vida que nos seja mais útil, quando formos para lá. De tantas opiniões diversas, a única que permanece inabalável é a de que vale mais sofrer do que cometer uma injustiça, e que antes de tudo devemos aplicar-nos, não a parecer, mas a ser um homem de bem. (Diálogos de Sócrates com seus discípulos na prisão.) Aqui encontramos outro ponto capital, hoje confirmado pela experiência, segundo o qual a alma não purificada conserva as ideias, as tendências, o caráter e as paixões que tinha na Terra. Esta máxima: Vale mais sofrer do que cometer uma injustiça, não é totalmente cristã? É o mesmo pensamento que Jesus exprime pela metáfora: “Se alguém lhe bater numa face, ofereça- lhe a outra”. (Cap. XII, 7 e n0 8, Mateus V:38-42.)
XI. De duas uma: ou a morte é uma destruição absoluta ou é passagem da alma para outro lugar. Se tudo deve extinguir-se, a morte será como uma destas raras noites que passamos sem sonhar e sem nenhuma consciência de nós mesmos. Mas, se a morte é apenas uma mudança, a passagem para um lugar no qual os mortos devem reunir-se, que felicidade reencontrar aqueles que conhecemos! Meu maior prazer seria examinar de perto os habitantes desse local e distinguir, como aqui, os que são sábios dos que acreditam sê-lo e não o são. Mas é tempo de nos deixarmos: eu, para morrer; vocês, para viver. (Sócrates a seus juízes.) Segundo Sócrates, os homens que viveram na Terra encontram-se após a morte e se reconhecem. O Espiritismo no-los mostra continuando suas relações de tal forma, que a morte não é uma interrupção nem uma cessação da vida, mas uma transformação contínua, sem solução de continuidade. Se Sócrates e Platão tivessem conhecido os ensinamentos que o Cristo daria cinco séculos mais tarde e os que o Espiritismo agora ministra, não teriam falado de forma menos semelhante. Nisso, não há nada de surpreendente, se considerarmos que as grandes verdades são eternas, e que os Espíritos mais adiantados devem tê-las conhecido antes de vir para a Terra, para onde as trouxeram. Se considerarmos ainda que
Sócrates, Platão e os grandes filósofos de seu tempo podiam estar, mais tarde, entre aqueles que assessoraram o Cristo na Sua divina missão, e que foram escolhidos precisamente porque estavam mais aptos do que os outros a compreenderem os Seus sublimes ensinamentos. Eles podem, enfim, fazer parte, hoje, da plêiade17 de Espíritos encarregados de ensinar aos homens as mesmas verdades.
XII. Nunca retribuir a injustiça com a injustiça, nem fazer mal a ninguém, qualquer que seja a falta cometida contra nós. Poucas pessoas, porém, admitirão esse princípio, e as que não concordam com ele somente se desprezarão uns aos outros. Não é este o princípio da caridade que nos ensina a não retribuir o mal com o mal e de perdoar aos inimigos?
XIII. É pelo fruto que se conhece a árvore. É preciso qualificar cada ação, segundo o que ela produz: Chamá-la má, quando a sua consequência é má, e boa, quando produz o bem.
Esta máxima: “É pelos frutos que se conhece a árvore”, se encontra textualmente repetida, várias vezes, no Evangelho.
XIV. A riqueza é um grande perigo. Todo homem que ama a riqueza não ama nem a si mesmo nem ao que possui, mas algo que para ele é mais estranho do que aquilo que lhe pertence. (Ver capítulo XVI.)
XV. As mais belas preces e os mais belos sacrifícios agradam menos à
Divindade do que uma alma virtuosa que se esforça por assemelhar-se a ela. Seria grave que os deuses se interessassem mais por nossas oferendas do que por nossas almas. Dessa maneira, os maiores culpados poderiam conquistar os seus favores. Mas, não. Não há mais justos e sábios do que aqueles que, por suas palavras e por seus atos, resgatam o que devem aos deuses e aos homens. (Ver cap. X, nos 7 e 8.)
XVI. Chamo homem vicioso ao amante vulgar, que ama mais ao corpo que à alma. O amor está por toda a Natureza, e nos convida a exercer a nossa inteligência; encontramo-lo até mesmo no movimento dos astros. É o amor que decora a Natureza com seus ricos tapetes; ele se enfeita e fixa a sua morada lá onde encontra flores e perfumes. É ainda o amor que dá a paz aos homens, a calma ao mar, o silêncio aos ventos e o descanso à dor. O amor, que deve unir os homens por um laço fraternal, é uma consequência dessa teoria de Platão sobre o amor universal, como lei da Natureza. Sócrates, tendo dito que “o amor não é nem um deus nem um mortal, mas um grande
demônio”, quis dizer um grande Espírito que preside ao amor universal; essa afirmação lhe foi, sobretudo, imputada como crime.
XVII. A virtude não pode ser ensinada; ela vem por um dom de Deus àqueles que a possuem. É quase a doutrina cristã se referindo à graça. Mas, se a virtude é um dom de Deus, é um favor, e pode perguntar-se por que, por outro lado, ela não é concedida a todos; se é um dom, não há mérito da parte daquele que a possui. O Espiritismo é mais explícito. Ele ensina que aquele que a possui a adquiriu por seus esforços, em suas existências sucessivas, ao livrar-se pouco a pouco de suas imperfeições. A graça é a força que Deus concede a todo homem de boa vontade, para se despojar do mal e fazer o bem.
XVIII. Há uma disposição natural, em cada um de nós, para nos aper- cebermos bem menos dos nossos defeitos do que dos defeitos alheios. O Evangelho diz: “Vês o argueiro18 nos olhos de seu irmão e não vês a trave19 que está no seu”. (Cap. X, nos 9 e 10; Mateus VII:3-5.)
XIX. Se os médicos fracassam na maior parte das doenças, é porque tratam do corpo - sem a alma - e, porque não estando o todo em bom estado, é impossível que a parte esteja bem. O Espiritismo oferece a chave das relações que existem entre a alma e o corpo e prova que há uma incessante reação de um sobre o outro. Ele abre, assim, um novo caminho à Ciência: mostrando-lhe a verdadeira causa de certas doenças, dá-lhe os meios de combatê-las. Quando ela considerar a ação do elemento espiritual na economia orgânica, fracassará bem menos.
XX. Todos os homens, desde a infância, fazem mais mal do que bem. Estas palavras de Sócrates tocam a grave questão da predominância do mal sobre a Terra, questão insolúvel sem o conhecimento da pluralidade dos mundos e do destino da Terra, onde habita apenas uma pequena fração da Humanidade. Só o Espiritismo lhe dá a solução, que estará sendo desenvolvida logo adiante, nos capítulos II, III e V.
XXI. Há sabedoria em não acreditar saber aquilo que não sabe. Isto está endereçado às pessoas que criticam as coisas de que, frequentemente, nada sabem. Platão completa este pensamento de Sócrates, dizendo: Tentemos primeiramente torná-los mais honestos com as palavras, se possível. Se não o conseguirmos, não nos ocupemos mais deles e busquemos apenas a verdade. Tratemos de nos instruir, mas não nos aborreçamos. É assim que devem agir os espíritas, com relação aos seus contraditores de boa ou má-fé. Se Platão revivesse hoje, encontraria as coisas mais ou menos como em seu tempo, e poderia fazer uso da mesma linguagem.
Sócrates também encontraria pessoas que zombassem de sua crença nos Espíritos e o considerassem louco, assim como ocorreu ao seu discípulo Platão.
Foi por haver professado esses princípios que Sócrates foi primeiro ridicularizado, depois acusado de falta de respeito ao sagrado e condenado a beber cicuta. Tão é certo que as grandes verdades novas, levantando contra elas os interesses e os preconceitos que ferem, não podem se estabelecer sem lutas e sem mártires.