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Capítulo 26 de 28 · linguagem simples

Dê de graça o que recebeu de graça

Gratuidade dos dons espirituais e responsabilidade na mediunidade.
Seu progresso fica salvo somente neste aparelho.

Dom de curar - Preces pagas - Comerciantes expulsos do templo - Mediunidade gratuita.

Dom de curar

1. “Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpem os leprosos, expulsem os demônios;

deem de graça o que de graça receberam.” (Mateus, X:8)

2. “Deem de graça o que de graça receberam” - disse Jesus aos Seus Discípulos, e por esse ensinamento, Ele estabelece que não se deve cobrar aquilo por que nada se pagou. Ora, o que eles haviam recebido de graça era a faculdade de curar os doentes e de expulsar os demônios - ou seja - os maus Espíritos. Esse dom lhes fora dado gratuitamente por Deus, para alívio dos que sofrem e para ajudar a propagação da fé. Ele lhes diz para não fazer disto um objeto de comércio ou de especulação, nem um meio de vida.

Preces pagas

3. “Ele diz, em seguida, aos Seus discípulos, na presença de todo o povo que o ouvia: Tenham cuidado com os escribas, que pretextam passar com roupas talares e gostam de ser saudados em praças públicas, e ocuparem os primeiros lugares nas sinagogas, e nas festas; que, sob pretexto de preces, devoram as casas das viúvas. Essas pessoas receberão por isso uma

condenação mais rigorosa.” (Lucas, XX:45-47; Mateus, XXIII:14 e Marcos, XII:38-40)

4. Jesus diz também: Não façam que lhes paguem pelas suas preces, como os escribas, que “a pretexto de longas preces, devoram as casas das viúvas” - ou seja - apossam-se de suas fortunas. A prece é um ato de caridade, um impulso do coração; fazer pagar aquelas que são dirigidas a Deus pelos outros é nos transformarmos em intermediários assalariados. A prece se constitui, então, numa fórmula, cobrada de acordo com o seu tamanho. Ora, de duas, uma: Deus mede ou não as Suas graças pelo número de palavras; e se forem necessárias muitas, como dizer apenas algumas, ou quase nada, por aquele que não pode pagar? Seria falta de caridade. Se uma palavra basta, as demais são inúteis. Então, como cobrá-las? É uma prevaricação. Deus não vende os benefícios que concede. Por que, então, aquele que não é nem mesmo o distribuidor delas, que não pode garantir-lhes a obtenção, cobraria algo que pode não ter resultado? Deus não pode subordinar um ato de clemência, de bondade ou de justiça, que se solicita de Sua misericórdia, por uma soma em dinheiro, mesmo porque, se o fizesse, resultaria que, se a soma não fosse paga ou fosse insuficiente, a justiça, a bondade e a clemência de Deus ficariam em suspenso. A razão, o bom senso, a lógica dizem-nos que Deus, a perfeição absoluta, não pode delegar às criaturas imperfeitas o direito de estabelecer preços para a

Sua justiça. A justiça de Deus é como o sol, que se distribui para todos, para o pobre como para o rico. Se é considerado imoral traficar as graças de um soberano da Terra, seria permitido vender as do Soberano do Universo? As preces pagas têm ainda um outro inconveniente: é que aquele que as compra acredita, muitas vezes, estar dispensado de orar por si mesmo, pois se considera livre dessa obrigação, desde que deu o seu dinheiro. Sabe-se que os Espíritos são tocados pelo fervor do pensamento daqueles que se interessam por eles. Qual pode ser o fervor daquele que paga um terceiro para orar por ele? Qual é o fervor desse terceiro quando delega o mandato a outro, e este a outro, e assim por diante? Não é isso reduzir a efeito da prece ao valor de uma moeda corrente?

Comerciantes expulsos do templo

5. “Em seguida, eles vieram a Jerusalém, e havendo Jesus entrado no templo, começou a expulsar aqueles que lá vendiam e compravam; e derribou as mesas dos banqueiros, e as cadeiras daqueles que vendiam pombas; e não permitiu que ninguém transportasse nenhum utensílio para o templo. E ele os instruía, dizendo: Por acaso não está escrito: Minha casa será chamada casa de oração por todas as nações? E, porém, têm feito dela um covil de ladrões. Os príncipes dos sacerdotes e os escribas, ouvindo isso, buscaram um meio de o perder, porque todo o povo admirava a Sua doutrina e tinha medo Dele.” (Marcos, XI:15-18;

Mateus, XXI:12-13)

6. Jesus expulsou os comerciantes do templo, e com isso condenou o tráfico das coisas santas sob qualquer forma que seja. Deus não vende a Sua bênção, nem o Seu perdão, nem a entrada no Reino dos Céus. O homem não tem, portanto, o direito de cobrar nada disso.

Mediunidade gratuita

7. Os médiuns modernos - pois os apóstolos também tinham mediunidade - receberam igualmente de Deus um dom gratuito, que é o de serem intérpretes dos Espíritos, para a instrução dos homens, para lhes ensinarem o caminho do bem e levá-los à fé, e não para lhes venderem palavras que não lhes pertencem, pois que não são o produto de sua concepção, nem de suas pesquisas ou trabalho pessoal. Deus deseja que a luz atinja a todos, e não que o mais pobre fique desamparado e possa dizer: Eu não tenho fé, porque por ela não pude pagar; não tive o consolo de receber o estímulo e o testemunho de afeto daqueles por quem choro, pois sou pobre. É por isso que a mediunidade não é um privilégio e se encontra por toda parte. Cobrar por ela seria, portanto, desviá-la de seu

objetivo ligado à Providência divina.

8. Quem quer que conheça as condições nas quais os bons Espíritos se comunicam, sua repulsa a todas as formas de interesse egoísta, e saiba quão pouca coisa é preciso para afastá-los, não poderá jamais admitir que os Espíritos superiores estejam à

disposição do primeiro que os convocar a tanto por sessão. O simples bom senso repele tal pensamento. Não seria ainda uma desrespeito ao sagrado, evocar, por dinheiro, os seres que respeitamos ou que nos são caros? Sem dúvida que podemos obter manifestações dessa maneira, mas quem poderia garantir-lhes a sinceridade? Os Espíritos irresponsáveis, mentirosos e espertos, e toda a turba dos Espíritos inferiores, muito pouco escrupulosos, atendem sempre a esses chamados, e estão prontos a responder, sem se preocupar com a verdade. Aquele, pois, que deseja comunicações sérias deve primeiro procurá-las seriamente, depois, certificar-se sobre a natureza das ligações do médium com os seres do mundo espiritual. Ora, a primeira condição para se conseguir a bondade dos bons Espíritos é a que decorre da humildade, do dedicação e da

desapego pessoal, o mais absoluto desinteresse moral e material.

9. Ao lado da questão moral, apresenta-se uma consideração de ordem positiva, não menos importante, que se refere à própria natureza da faculdade. A mediunidade séria não pode ser e nunca será uma profissão, não apenas porque ela será desacreditada no plano moral, colocando os médiuns na mesma posição dos ledores de sorte, mas porque existe ainda um obstáculo material para isso: ela é uma faculdade essencialmente instável e fugaz e variável, com a qual ninguém pode contar. Seria, então, para o seu explorador, uma fonte incerta, que poderia faltar-lhe no momento mais necessário. Bem diversa é uma capacidade adquirida com estudo e trabalho, e que, por isso, torna-se uma verdadeira propriedade, da qual é naturalmente permitido tirar partido. Mas a mediunidade não é nem uma arte, nem uma habilidade, e por isso não pode ser profissionalizada. Ela só existe graças ao concurso dos Espíritos; se estes faltarem, não há mais mediunidade, pois, embora a aptidão possa subsistir, o exercício se torna impossível. Não há, portanto, um só médium no mundo que possa garantir a obtenção de um fenômeno espírita em determinado momento. Explorar a mediunidade, como se vê, é querer dispor de uma coisa que realmente não se possui. Afirmar o contrário é enganar os que pagam; além disso, não é de si mesmo que se dispõe, e sim dos Espíritos, das almas dos mortos, cujo concurso é posto à venda. Este pensamento repugna instintivamente. Foi esse tráfico, transformado em abuso, explorado pelo charlatanismo, pela ignorância, facilidade de acreditar sem avaliar e superstição, que motivou a proibição de

Moisés. O Espiritismo moderno, compreendendo o aspecto sério do assunto, lançou o descrédito sobre essa exploração, e elevou a mediunidade ao nível de missão. (Ver O

Livro dos Médiuns, Cap. XXVIII, e O Céu e o Inferno, Cap. XI.)

10. A mediunidade é uma coisa sagrada, que deve ser praticada santa e religiosamente. E se há uma espécie de mediunidade que requer esta condição de

maneira ainda mais absoluta, é a mediunidade curadora. O médico oferece o resultado dos seus estudos feito com grandes sacrifícios; o magnetizador, o seu próprio fluido, e frequentemente a própria saúde: eles podem estipular um preço para isso. O médium curador transmite o fluido salutar dos bons Espíritos e não tem o direito de vendê-lo. Jesus e os Apóstolos, embora pobres, não cobravam as curas que operavam. Que aquele, pois, que não tem do que viver, procure outros recursos que não os da mediunidade; e que não lhe consagre, se necessário, senão o tempo de que materialmente possa dispor. Os Espíritos levarão em conta o seu dedicação e sacrifícios, enquanto se afastarão daqueles que esperam fazer da mediunidade um meio de subir na vida.