Capítulo 7 de 28 · linguagem simples
Bem-aventurados os pobres de espírito
Humildade, orgulho e o verdadeiro sentido dessa expressão.O que se deve entender por pobre de espírito - Aquele que se elevar será rebaixado - Mistérios ocultos aos sábios e prudentes - Instruções dos Espíritos: O orgulho e a humildade - Missão do homem inteligente na Terra.
O que significa ser pobre de espírito
1. “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.” (Mateus, V:3)
2. A descrença se diverte com esta máxima: “Bem-aventurados os pobres de espírito”, como com muitas outras coisas que não compreende. Porém, Jesus não se refere, aos pobres de espírito, como a homens desprovidos de inteligência, mas aos humildes. Ele diz que o Reino dos Céus é deram e não dos orgulhosos. Os cientistas e intelectuais, segundo o mundo, têm geralmente tão elevada opinião de si mesmos e de sua superioridade, que consideram as coisas divinas como indignas de sua atenção. Concentrados sobre eles mesmos, não podem elevar-se até Deus. Essa tendência de se acreditarem superiores a tudo leva-os, muitas vezes, a negar aquele que, sendo-lhes superior, pudesse rebaixá-los. Negam até mesmo a divindade ou, se consentem em admiti-la, contestam um de seus mais belos atributos: a ação ligado à Providência divina sobre as coisas deste mundo, persuadidos de que são suficientes para bem governá-lo. Tomando sua inteligência por medida da inteligência universal e julgando-se aptos a tudo compreender, não podem crer na possibilidade daquilo que não compreendem. Quando se pronunciam sobre alguma coisa, seu julgamento é para eles inapelável. Se não admitem o mundo espiritual e um poder extra-humano, não é porque isso esteja acima de sua capacidade, mas porque o seu orgulho se revolta ante a ideia de uma coisa a que não possam sobrepor-se e que os faria descer de seu pedestal. Por isso só têm sorrisos de desprezo por tudo o que não seja deste mundo visível e tangível. Atribuem-se muita inteligência e conhecimento para crer em coisas que, segundo eles, são boas para os simples, considerando como pobres de espírito os que as levam a sério. Porém, digam o que quiserem a esse respeito, terão de entrar, como os outros, neste mundo espiritual que tanto ironizam. É assim que seus olhos serão abertos e reconhecerão o erro. Mas Deus, sendo justo, não pode receber da mesma maneira aquele que desconheceu o seu poder e aquele que se submeteu humildemente às Suas leis, nem tratá-los por igual. Ao dizer que o Reino dos Céus pertence aos simples, Jesus ensina que ninguém é admitido sem a simplicidade de coração e a humildade de espírito; que o ignorante que possui essas qualidades será preferido ao sábio que crê mais em si mesmo do que em Deus. Em qualquer circunstância, coloca a humildade entre as virtudes que nos aproximam de Deus e o
orgulho entre os vícios que dele nos afastam. Isso por uma razão muito natural: a humildade é um ato de submissão a Deus, enquanto o orgulho é a revolta contra Ele. Mais vale, então, para a felicidade futura do homem, ser pobre de espírito, em relação ao mundo, e rico em qualidades morais.
Aquele que se elevar será rebaixado
3. “Naquela mesma hora, os discípulos se aproximaram de Jesus e Lhe disseram: Quem é o maior no Reino dos Céus? - Jesus, chamando um menino, o colocou no meio deles e lhes disse: Eu lhes digo, na verdade, se não lhes converterem e se não lhes tornarem como meninos, não entrarão no Reino dos Céus. - Aquele, pois, que se humilhar e se fizer pequeno como este menino será o maior no Reino dos Céus. E aquele que receber em meu nome uma criança
como esta é a mim mesmo que receberá.” (Mateus, XVIII:1-5)
4. “Então, se aproximou Dele a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, e O adorou, pedindo-Lhe alguma coisa. - Ele lhe disse: O que querem? - Dize a estes meus dois filhos que se assentem em seu reino, um à sua direita e outro à sua esquerda. - Mas Jesus lhe respondeu: Não sabem o que me pedem; podem vocês beber do cálice que eu hei de beber? - Eles Lhe disseram: Nós podemos. - Ele lhes respondeu: É verdade que têm de beber o meu cálice; mas pelo que toca a terem assento à minha esquerda ou à minha direita, não cabe a mim conceder-se e sim para aqueles a quem meu Pai preparou. Os outros dez apóstolos, tendo entendido isso, indignaram-se contra os dois irmãos. - E Jesus os chamou a si e lhes disse: Vocês sabem que os príncipes das nações dominam os seus vassalos, e que os maiores os têm sob o seu poder. Não deve ser assim entre vocês; mas aquele que quiser ser o maior, esse seja o seu servidor; e aquele que quiser ser o primeiro, seja o seu escravo; assim como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pela
redenção de muitos.” (Mateus, XX:20-28)
5. “Jesus entrou, num sábado, na casa de um dos principais fariseus, para lá fazer a sua refeição, e os que estavam lá O observavam. - Então, considerando que os convidados escolhiam os primeiros lugares, ele lhes propôs esta parábola: Quando fores convidado a um casamento, não pegues o primeiro lugar, para não acontecer de haver entre os convidados alguém mais importante do que você, e que aquele que te tenha convidado não venha te dizer: Dá seu lugar a esta pessoa e, então, você, envergonhado, vá buscar o último lugar. Mas, quando fores convidado, vai sentar no último lugar, para que, quando vier o que te convidou, possa chegar e te dizer: Meu amigo, venha para mais perto. E, então, esse será um momento de glória na presença dos que estiverem à mesa com você, pois aquele que se elevar
será humilhado e aquele que se humilhar será elevado.” (Lucas, XIV:1 e 7-11)
6. Estas máximas são consequência do princípio de humildade, que Jesus sempre coloca como condição essencial da felicidade prometida aos eleitos do Senhor, e que ele formulou por essas palavras: “Bem- -aventurados os pobres de espírito, porque é deles o reino dos céus”. Ele toma um menino como exemplo de simplicidade de coração e diz:
“Será o maior no Reino dos Céus aquele que se humilhar e se fizer pequeno como este menino” - ou seja - aquele que não tiver pretensões à superioridade ou à infalibilidade. O mesmo pensamento fundamental encontra-se nesta outra máxima: “Que aquele que quiser se tornar o maior, seja aquele que lhes sirva”, e ainda nesta: “Aquele que se humilhar, será elevado; e aquele que se elevar, será humilhado”. O Espiritismo vem confirmar a teoria pelo exemplo, mostrando-nos que os grandes no reino dos Espíritos são os que foram pequenos na Terra, e que, frequentemente, são bem pequenos os que foram grandes e poderosos. É que os primeiros levaram consigo, ao morrer, apenas aquilo que unicamente constitui a verdadeira grandeza no céu, e que não se perde: as virtudes; enquanto que os outros precisaram deixar aquilo que fazia a sua grandeza na Terra, e que não se pode levar: a riqueza, os títulos, a glória, o nome. Não tendo nada além disso, chegam ao outro mundo desprovidos de tudo, como náufragos que tudo perderam, até mesmo as roupas. Apenas conservaram o orgulho, que torna a sua nova posição ainda mais humilhante, pois veem acima deles, e resplandecentes de glória, aqueles que espezinharam na Terra. O Espiritismo mostra-nos uma outra aplicação desse princípio nas encarnações sucessivas, nas quais aqueles que mais se elevaram em uma existência são humilhados até o último lugar na existência seguinte, se forem dominados pelo orgulho e pela ambição. Não procurem, pois, o primeiro lugar na Terra, nem lhes coloquem acima dos outros, se não quiserem ser obrigados a descer. Procurem, ao contrário, o lugar mais humilde e modesto, pois Deus saberá dar-se um mais elevado no céu, se o merecerem.
Mistérios ocultos aos sábios e prudentes
7. “Naquele tempo, respondendo, disse Jesus: Graças lhes dou, meu Pai, Senhor do Céu e da Terra, por teres escondido estas coisas aos sábios e aos prudentes, e por tê-las revelado aos
simples e aos pequenos.” (Mateus, XI:25)
8. Pode parecer estranho que Jesus dê graças a Deus por ter revelado estas coisas “aos simples e aos pequenos”, que são os pobres de espírito, e ocultando-as “aos sábios e aos prudentes”, mais aptos, aparentemente, a compreendê-las. É preciso entender por primeiros, os humildes que se curvam diante de Deus e não se consideram superiores aos outros, e pelos segundos, os orgulhosos, envaidecidos com o seu saber mundano, que se acreditam prudentes, pois negam a Deus, tratando-O de igual para igual, quando não O rejeitam. Isto porque, na antiguidade, sábio era sinônimo de douto; assim, Deus lhes deixa a busca pelos segredos da Terra e revela os do Céu aos simples e aos humildes, que
se curvam diante Dele.
9. Assim ocorre, hoje, com as grandes verdades reveladas pelo Espiritismo. Certos descrentes se admiram de que os Espíritos se esforcem tão pouco para convencê-los. É
que esses últimos se ocupam dos que buscam a luz com boa-fé e humildade, e não os que acreditam possuir toda a luz e parecem pensar que Deus deveria estar contente de os conduzir a Ele, provando-lhes a Sua existência. O poder de Deus se revela tanto nas pequenas como nas grandes coisas. Ele não coloca a luz sob o recipiente usado como antiga medida, mas a derrama por toda a parte. Só cegos não a veem. Deus não quer abrir-lhes os olhos à força, já que lhes agrada mantê-los fechados. O seu momento chegará, mas é preciso, antes de tudo, que sintam as angústias das trevas, e reconheçam Deus - e não o acaso - na mão que lhes fere o orgulho. Ele emprega os meios que Lhe convêm, segundo os indivíduos, para vencer a descrença. Não cabe ao descrente prescrever-Lhe o que fazer ou dizer: se querem me convencer é preciso que faças isto ou aquilo, naquele momento e não em outro, pois esse momento me convêm. Que os descrentes não se espantem, pois, se Deus e os Espíritos, que são os agentes de Sua vontade, não se submetem às Suas exigências. Perguntem o que diriam, se o último de seus empregados lhes quisessem fazer imposições. Deus obriga condições, não se submete a elas. Ouve com bondade aqueles que se dirigem a Ele com humildade, e não
aqueles que se julgam mais do que Ele.
10. Deus - dir-se-á - não poderia tocá-los pessoalmente por meio de sinais evidentes, em presença dos quais o descrente mais insistente teria de curvar-se? Sem dúvida que o poderia, mas, nesse caso, onde estaria o seu mérito? E depois, de que serviria isso? Não se vê todos os dias recusar a evidência, e dizem até: “Se eu visse, não acreditaria, pois sei que é impossível?”. Se eles se recusam a reconhecer a verdade, é que o seu Espírito ainda não está maduro para compreendê-la, nem o seu coração para senti-la. O orgulho é a venda que lhes tapa a visão. De que adianta mostrar a luz a um cego? É preciso antes curar a causa do mal. Por isso sendo hábil médico, Ele castiga primeiramente o orgulho. Não abandona Seus filhos perdidos, pois sabe que, cedo ou tarde, seus olhos se abrirão. Mas quer que o façam por sua própria vontade e, então, vencidos pelos sofrimentos intensos da descrença, atirar-se-ão por si mesmos em Seus braços, e como o filho gastador, Lhe pedirão graças!
Instruções dos Espíritos
O orgulho e a humildade
Lacordaire - Constantina, 1863
11. Que a paz do Senhor esteja com vocês, meus caros amigos! Venho até vocês para encorajar-se a seguir o bom caminho. Aos pobres Espíritos que, antigamente, habitavam a Terra, Deus dá a missão de vir esclarecer-se. Bendita seja a graça que Ele nos concede, de podermos ajudar o seu aperfeiçoamento. Que o Espírito Santo me ilumine, torne
minhas palavras compreensíveis e que me conceda a graça de colocá-las ao alcance de todos! Todos vocês, encarnados, que estão sob o peso da dor e buscam a luz, que a vontade de Deus me favoreça para fazê-la resplandecer aos seus olhos! A humildade é uma virtude bem esquecida, entre vocês. Os grandes exemplos que lhes foram dados são bem pouco seguidos. E, porém, sem humildade, podem ser caridosos para com o seu próximo? Ah, não, pois este sentimento nivela os homens, mostra-lhes que são irmãos, que devem ajudar-se mutuamente e os leva ao bem. Sem a humildade, enfeitem-se de virtudes que não têm, como se estivessem usando uma vestimenta para esconder as problemas do corpo. Lembrem-se Daquele que nos salva; lembrem-se da Sua humildade, que O fez tão grande e O elevou acima de todos os profetas. O orgulho é o terrível adversário da humildade. Se o Cristo prometeu o Reino dos Céus aos mais pobres, é porque os grandes da Terra imaginam que os títulos e as riquezas eram as recompensas de seus méritos, e que a sua essência era mais pura que a do pobre. Acreditavam que essas coisas lhes eram devidas. E é por isso que, quando Deus as retira, acusam-No de injustiça. Ah! absurdo e cegueira! Deus lhes distingue pelo corpo? O corpo do pobre não é o mesmo que o do rico? O Criador fez duas espécies de homens? Tudo quanto Deus fez é grande e sábio. Não Lhe atribuam as ideias concebidas por seus cérebros orgulhosos. Rico! Enquanto dormes em seus quartos luxuosos, ao abrigo do frio, não sabe quantos milhares de irmãos, iguais a você, jazem na miséria? O infeliz que sofre com a fome não é seu igual? A estas palavras o seu orgulho se revolta, bem sei. Você consentirás em lhe dar a ajuda material, mas em apertar-lhe fraternalmente a mão, jamais! Quê? - dizes você - Eu, nascido de sangue nobre, importante na Terra, serei igual a esse miserável que anda em trapos?! Vã utopia desses pretensos filósofos! Se fôssemos iguais, por que Deus o colocaria tão baixo e a mim, tão alto? É verdade que suas roupas não são nada iguais, mas, se lhes despirem a ambos, que diferença haveria entre vocês? A nobreza do sangue - dirás. Mas a química nada encontrou de diferente entre o sangue do nobre e o do plebeu, entre o do senhor e o do escravo. Quem te disse que você também não foste miserável e infeliz como ele? Que também não pediste ajudas materiais? Que não a pedirás um dia a esse mesmo que desprezas hoje? As riquezas são por acaso eternas? Elas não acabam com o corpo, envoltório passageiro do Espírito? Ah! Lança um olhar de humildade sobre ti mesmo! Lança, enfim, seus olhos sobre a realidade das coisas desse mundo, sobre o que constitui a grandeza e a humilhação no outro. Pensa que a morte não te poupará mais do que aos outros, que seus títulos não te preservarão dela, que te pode ferir amanhã, hoje, dentro de uma hora; e se ainda te sepultas em seu orgulho, ah! então, eu te lamento, pois será digno de piedade! Orgulhosos! O que foram antes de serem nobres e poderosos? Talvez estivessem em situação mais modesta que o último de seus servos. Curvem, pois, suas frontes orgulhosas. Deus as pode rebaixar no momento
em que mais as elevarem. Todos os homens são iguais na balança divina; somente as virtudes os distinguem aos olhos de Deus. Todos os Espíritos são de uma mesma essência, e todos os corpos foram formados de uma mesma massa. Seus títulos e seus nomes não os modificam ao contrário, ficam no túmulo; não são eles que dão a felicidade prometida aos eleitos; a caridade e a humildade são os seus títulos de nobreza. Pobre criatura! Você é mãe, seus filhos sofrem, têm frio, têm fome. Vais, curvada ao peso de sua cruz, humilhar-te para conseguir um pedaço de pão. Oh! Eu me inclino diante de ti! Como é nobremente santa e grande aos meus olhos! Espera e ora, a felicidade ainda não é deste mundo. Aos pobres oprimidos e confiantes Nele, Deus concede o Reino dos Céus. E você, que é moça, pobre filha devotada ao trabalho, entregue às dificuldades materiais, por que estes tristes pensamentos? Por que chorar? Que seu olhar se eleve, piedoso e sereno, até Deus. Às pequenas aves Ele dá o alimento, tenha confiança Nele, que não te abandonará. O ruído das festas, dos prazeres mundanos faz bater o seu coração. Você gostarias também de enfeitar a cabeça com flores e misturar-te aos felizes da Terra. Dizes que poderias, como estas mulheres que vês passar, estouvadas e sorridentes, ser rica também. Ah! Cala-te, filha! Se soubesses quantas lágrimas e dores sem conta estão ocultas sob estas roupas bordadas; quantos soluços sufocados sob o ruído dessa orquestra feliz, preferirias seu humilde recanto e a sua pobreza. Permaneça pura aos olhos de Deus, se não quiser que seu anjo guardião volte para Ele, ocultando o rosto sob as asas brancas, e te deixe com o remorso, sem guia, sem apoio, neste mundo onde estarias perdida, esperando para ser punida no outro. E todos vocês que sofrem as injustiças dos homens, sejam compreensivos para com as faltas de seus irmãos, lembrando que também não estão sem máculas. Isso é caridade, mas é também humildade. Se sofrerem com calúnias, curvem a fronte sob esta prova. Que lhes importa as calúnias do mundo? Se sua conduta é pura, Deus não pode lhes compensar? Suportar com coragem as humilhações dos homens é ser humilde e reconhecer que só Deus é grande e poderoso. Ah! Meu Deus! Será preciso que o Cristo venha uma segunda vez à Terra, para ensinar aos homens as Suas leis, por eles esquecidas? Deverá Ele expulsar ainda os comerciantes do templo, que maculam a Sua casa, esse recinto de orações? E, quem sabe? Homens! se Deus lhes concedesse essa graça, talvez O renegassem como antigamente. Vocês O chamariam de blasfemo, por vir abater o orgulho dos fariseus modernos; talvez, ainda, o fariam recomeçar o caminho do Gólgota. Quando Moisés recebeu os mandamentos da Lei de Deus no Monte Sinai, o povo de Israel, entregue a si mesmo, abandonou o verdadeiro Deus. Homens e mulheres entregaram o seu ouro e suas joias, para a fabricação de um ídolo que eles adoraram. Homens civilizados, fazem, no entanto, como eles. O Cristo lhes deixou a Sua Doutrina; lhes deu o exemplo de todas as virtudes, mas abandonaram exemplos e ensinamentos. Cada um de vocês, carregando
as suas paixões, fabricou um deus de acordo com a sua vontade: para uns, terrível e sanguinário; para outros, indiferente com os interesses do mundo. O deus que fizeram é ainda o bezerro de ouro, que cada um apropria ao seu gosto e às suas ideias. Despertem, meus irmãos, meus amigos! Que a voz dos Espíritos lhes toque o coração. Sejam generosos e caridosos, sem exibição, ou seja, façam o bem com humildade. Que cada um vá demolindo pouco a pouco os altares erguidos ao orgulho. Numa palavra, sejam verdadeiros cristãos e atingirão o reino da verdade. Não duvidem mais da bondade de Deus, já que Ele lhes envia tantas provas. Vimos preparar os caminhos para a realização das profecias. Quando o Senhor lhes der uma manifestação mais contundente de Sua clemência, que o Enviado Celeste lhes encontre reunidos numa grande família; que os seus corações, doces e humildes, sejam dignos de ouvir a palavra divina que Ele virá lhes trazer; que o eleito encontre somente palmas colocadas em sua estrada pelo seu retorno ao bem, à caridade, à união entre irmãos e, então, seu mundo se tornará o paraíso terreno. Mas, se permanecerem sem sensibilidade à voz dos Espíritos, encaminhados para purificar e renovar a sua sociedade civilizada e rica em ciência e, mesmo assim, tão pobre em bons sentimentos, ah! nada nos restará senão chorar e lamentar pela sua sorte. Mas, não, assim não será. Voltem-se a Deus, seu Pai, e então todos nós que trabalhamos para a realização de Sua vontade, entoaremos o cântico de agradecimento ao Senhor, por Sua inesgotável bondade, e para glorificá-Lo por todos os séculos. Assim seja.
Adolfo, Bispo de Alger - Marmande, 1862
12. Homens, por que lamentam as calamidades que vocês mesmos acumularam sobre suas cabeças? Desprezaram a santa e divina moral do Cristo: não fiquem, pois, admirados, de que a taça da injustiça tenha transbordado por toda a parte. O mal-estar se torna geral. A quem responsabilizar, senão a vocês mesmos, que procuram sem cessar destruir-se uns aos outros? Não podem ser felizes, sem mútua bondade. E como a bondade pode coexistir com o orgulho? O orgulho! Está aí a fonte de todos os seus males. Concentrem-se, pois, à tarefa de destruí-lo, se não quiserem perpetuar as suas prejudiciais consequências. Um só meio se oferece a vocês para isso, mas este meio é infalível; o de tomar por regra invariável de sua conduta a lei do Cristo, lei que têm repelido ou falseado em sua interpretação. Por que têm em tão grande estima o que brilha e encanta os olhos prejudicando o que toca o coração? Por que o vício que se desenvolve na opulência é o objeto de sua reverência, enquanto só têm um olhar de desprezo para o verdadeiro mérito, que se oculta na obscuridade? Quando um rico libertino, perdido de corpo e alma, se apresenta em qualquer lugar, todas as portas lhe são abertas, todas as atenções são focadas nele, enquanto que, com muita dificuldade, se concede um gesto de proteção ao homem de bem que vive de seu trabalho. Quando a
consideração que se concede às pessoas é medida pelo peso do ouro que elas possuem, ou pelo nome que trazem, que interesse podem ter essas pessoas em se corrigirem de seus defeitos?
Seria totalmente diferente, se o vício dourado fosse fustigado pela opinião pública, como o é o vício andrajoso; mas o orgulho é compreensivo com tudo o que favorece. Século de ganância e dinheiro - dizem. Sem dúvida! Mas por que deixaram as necessidades materiais sobrepujar o bom senso e a razão? Por que cada um quer elevar- se sobre o seu irmão? Hoje, a sociedade sofre as consequências. Não esqueçam que um tal estado de coisas é sempre um sinal de decadência moral. Quando o orgulho chega aos últimos limites, é indício de queda próxima, pois Deus pune sempre os orgulhosos. Se os deixa subir, algumas vezes, é para lhes dar tempo para refletir e de emendar- -se, sob os golpes que, de tempos em tempos, desfere em seu orgulho como advertência. Mas, em vez de se curvarem, eles se revoltam. Então, quando a medida está cheia, Ele a vira completamente, e sua queda é ainda mais terrível, quanto mais alto tenham se elevado. Pobre raça humana, cujo egoísmo corrompeu todos os caminhos, reanimem-se, porém! Em Sua misericórdia infinita, Deus envia um poderoso remédio aos seus males, um socorro inesperado para a sua angústia. Abra os olhos à luz: aqui estão as almas daqueles que vêm te lembrar os verdadeiros deveres. Elas te dirão, com a autoridade da experiência, como a vaidade e as honrarias de sua passageira existência representam pouca coisa em relação à eternidade. Eles te dirão que, nesta, será maior o que foi o menor entre os pequenos da Terra; que aquele que mais amou os seus irmãos será o mais amado no Céu; que os poderosos da Terra, se abusaram de sua autoridade, serão obrigados a obedecer aos seus empregados; que a caridade e a humildade enfim, essas duas irmãs que se dão as mãos, são os títulos mais eficazes para obter graça diante do Eterno.
Missão do homem inteligente na Terra
Ferdinando, Espírito Protetor - Bordeaux, 1862
13. Não lhes orgulhem daquilo que sabem, pois o saber tem limites bem estreitos, no mundo que habitam. Mas supondo que são uma dessas sumidades inteligentes deste planeta, não têm direito algum de vangloriar-se disto. Se Deus, em Seus planos, lhes fez nascer num meio no qual puderam desenvolver sua inteligência, foi por querer que façam uso dela em benefício de todos - pois é uma missão que lhes dá - colocando em suas mãos o instrumento com a ajuda do qual podem desenvolver, por sua vez, as inteligências retardatárias ao seu redor e reconduzi-las a Deus. A natureza do instrumento não indica o uso que dele se deve fazer? A enxada que o jardineiro coloca nas mãos de seu servente não lhe mostra que ele deve cavar? E o que diriam se este
servente, em vez de trabalhar, erguesse a sua enxada para golpear o seu mestre? Diriam que isto é horrível e que ele merece ser expulso. Pois bem, não acontece o mesmo com aquele que se serve de sua inteligência para destruir a ideia de Deus e da Providência entre os seus irmãos? Não ergueu ele contra o seu Senhor a enxada que lhe foi dada para cultivar o terreno? Tem ele direito ao salário prometido, ou merece, ao contrário, ser expulso do jardim? Ele será - não duvidem - e suportará existências miseráveis e cheias de humilhações, até que se curve ante Aquele a quem tudo deve. A inteligência é rica em méritos para o futuro, mas com a condição de ser bem-empregada. Se todos os homens bem-dotados dela se servissem segundo a vontade de Deus, a tarefa dos Espíritos seria mais fácil, para fazer avançar a Humanidade. Infelizmente, muitos fazem dela instrumento de orgulho e de perdição para si mesmos. O homem abusa de sua inteligência, bem como de todas as suas faculdades e, mesmo assim, não lhe faltam lições para adverti-lo que uma poderosa mão pode tirar-lhe o que ela mesma lhe deu.