Capítulo 7 de 28 · Edição 3.0 · Português Brasileiro Simples

Bem-aventurados os pobres de espírito

Humildade, orgulho e o verdadeiro sentido dessa expressão.
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O que significa ser pobre de espírito — Quem se coloca acima dos outros será rebaixado — Verdades compreendidas pelos humildes — Instruções dos Espíritos sobre orgulho, humildade e responsabilidade de quem possui conhecimento.

O que significa ser pobre de espírito

1. Jesus disse: “Felizes os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.” (Mateus 5:3)

2. “Pobre de espírito” não significa falta de inteligência. Kardec explica que Jesus fala dos humildes: pessoas que não se consideram superiores e reconhecem que ainda têm muito a aprender. A crítica é dirigida ao orgulho, e não ao conhecimento.

Quando alguém acredita que sabe tudo e que não existe nada acima de sua própria capacidade, pode fechar-se para ideias que não controla. A obra considera que esse orgulho dificulta a aproximação com Deus e a percepção de uma realidade espiritual maior.

Inteligência não significa capacidade de compreender absolutamente tudo. Kardec critica quem transforma o próprio conhecimento em medida de toda a realidade e rejeita automaticamente aquilo que ainda não consegue explicar.

A obra também critica o desprezo por pessoas de fé simples. Ter estudo ou cultura não dá a ninguém o direito de ridicularizar quem pensa de outra maneira. Na perspectiva espírita, a experiência depois da morte mostraria a todos que a realidade é maior do que aquilo que percebemos apenas pelos sentidos físicos.

Jesus valoriza a simplicidade de coração e a humildade. Para Kardec, uma pessoa com pouco conhecimento, mas aberta ao bem e sem arrogância, pode estar espiritualmente mais avançada que alguém muito instruído que acredita não precisar de ninguém nem de Deus.

A humildade aparece no Evangelho como uma virtude que aproxima de Deus; o orgulho, como um obstáculo. Ser “pobre de espírito”, nesse sentido, é não fazer da própria importância, riqueza ou conhecimento o centro da vida.

Aquele que se elevar será rebaixado

3. Quando os discípulos perguntaram quem seria o maior no Reino dos Céus, Jesus colocou uma criança entre eles e ensinou que era preciso abandonar a pretensão de grandeza e tornar-se simples e humilde como uma criança. (Mateus 18:1-5)

4. Em outra ocasião, a mãe de dois discípulos pediu a Jesus lugares de destaque para seus filhos em Seu reino.

Jesus respondeu que eles ainda não compreendiam plenamente o que estavam pedindo e explicou que posições espirituais não são distribuídas como privilégios pessoais.

Depois, ensinou aos discípulos que entre eles não deveria existir a mesma busca de poder que existe nos governos humanos: quem quiser ser grande deve aprender a servir. O próprio Jesus é apresentado como exemplo de alguém que veio para servir, e não para ser servido. (Mateus 20:20-28)

5. Jesus também usou a situação de uma refeição para ensinar sobre humildade.

Ao perceber que convidados buscavam os melhores lugares, aconselhou que ninguém se colocasse automaticamente em posição de destaque, correndo o risco de ser convidado a ceder o lugar a outra pessoa.

Quem escolhe um lugar simples pode ser chamado para mais perto pelo anfitrião. Jesus conclui: “Quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será elevado.” (Lucas 14:1,7-11)

6. Esses ensinamentos têm a mesma ideia central: a humildade é mais importante do que a busca por posição. A criança representa simplicidade e ausência de pretensão de superioridade.

Ser pequeno, nessa linguagem, não significa se considerar sem valor. Significa não exigir privilégios e não se imaginar infalível. Quem deseja verdadeira grandeza deve aprender a servir e a respeitar os outros.

Kardec afirma que, no mundo espiritual, títulos, riqueza, fama e poder terrestre não definem grandeza. O que permaneceria com o Espírito seriam suas qualidades morais e aquilo que construiu pelo bem.

Quem viveu apenas de aparência e posição social deixaria tudo isso para trás. Se ainda conservar muito orgulho, a nova condição pode ser especialmente difícil porque perceberá que pessoas desprezadas na Terra podem estar moralmente acima dela.

A reencarnação? também é apresentada como oportunidade de aprender humildade. Quem abusou de posição e poder em uma existência pode viver outra experiência em condições diferentes, não por vingança, mas para desenvolver valores que antes deixou de aprender.

Mistérios ocultos aos sábios e prudentes

7. Jesus agradece a Deus por determinadas verdades terem sido compreendidas pelos simples e humildes, enquanto pessoas consideradas sábias e prudentes não as perceberam. (Mateus 11:25)

8. A frase pode parecer estranha: por que esconder algo de pessoas instruídas? Kardec entende que a diferença não está no estudo, mas na atitude interior.

Os “simples” seriam os humildes, dispostos a aprender. Os “sábios e prudentes” criticados seriam aqueles que transformam seu conhecimento em orgulho e fecham-se para qualquer verdade que não venha deles mesmos. O problema, portanto, não é saber muito; é achar que já se sabe tudo.

9. Kardec aplica essa ideia ao Espiritismo. Segundo ele, a comunicação espiritual teria mais facilidade com pessoas sinceramente interessadas e abertas ao aprendizado do que com quem procura apenas confirmar a própria superioridade.

Ele não coloca a luz sob o recipiente usado como antiga medida, mas a derrama por toda a parte. Só cegos não a veem. Deus não quer abrir-lhes os olhos à força, já que lhes agrada mantê-los fechados. O seu momento chegará, mas é preciso, antes de tudo, que sintam as angústias das trevas, e reconheçam Deus - e não o acaso - na mão que lhes fere o orgulho. Ele emprega os meios que Lhe convêm, segundo os indivíduos, para vencer a descrença.

Não cabe ao descrente prescrever-Lhe o que fazer ou dizer: se querem me convencer é preciso que faças isto ou aquilo, naquele momento e não em outro, pois esse momento me convêm. Que os descrentes não se espantem, pois, se Deus e os Espíritos, que são os agentes de Sua vontade, não se submetem às Suas exigências. Perguntem o que diriam, se o último de seus empregados lhes quisessem fazer imposições. Deus obriga condições, não se submete a elas.

Ouve com bondade aqueles que se dirigem a Ele com humildade, e não aqueles que se julgam mais do que Ele.

10. A obra reconhece que Deus poderia, em teoria, apresentar sinais irresistíveis. Mas Kardec argumenta que isso eliminaria parte da liberdade de reflexão. Além disso, pessoas muito presas a uma certeza anterior podem rejeitar até aquilo que está diante delas.

O orgulho é comparado a uma venda que impede a pessoa de enxergar. Na visão da obra, Deus não abandona ninguém, mas permite que cada Espírito amadureça e chegue ao entendimento por sua própria experiência e vontade.

Instruções dos Espíritos

O orgulho e a humildade

Lacordaire - Constantina, 1863

11. Lacordaire inicia sua mensagem desejando paz e dizendo que vem ajudar quem busca esclarecimento. Ele pede inspiração para que suas palavras sejam simples e compreensíveis para todos.

A humildade é apresentada como uma virtude essencial. Ela lembra que somos irmãos, reduz a distância criada pela vaidade e facilita a caridade? verdadeira, porque quem se sente superior dificilmente consegue tratar o outro como igual.

Sem humildade, podemos apenas parecer virtuosos. A mensagem apresenta Jesus como exemplo de grandeza que não dependeu de poder ou posição. O orgulho, ao contrário, faz a pessoa imaginar que riqueza e prestígio provam maior valor espiritual.

A mensagem lembra que pessoas ricas e pobres têm a mesma natureza humana. Conforto material não torna ninguém uma espécie diferente nem prova superioridade diante de Deus.

Ajudar materialmente alguém sem reconhecê-lo como igual ainda pode esconder orgulho. A mensagem questiona diretamente a ideia de que nascimento, classe social ou aparência tornam uma pessoa superior a outra.

Roupas, títulos e patrimônio criam diferenças externas, mas não mudam a natureza humana. A riqueza também é passageira. Quem hoje possui muito pode viver condições completamente diferentes em outra etapa da vida ou, segundo a reencarnação?, em outra existência.

A morte também iguala posições sociais: títulos e patrimônio ficam para trás. Por isso, a mensagem pede que quem possui privilégios use essa condição com humildade em vez de transformá-la em motivo de superioridade.

Na visão espiritual apresentada, todos os Espíritos possuem a mesma origem e possibilidade de progresso. O que realmente os diferencia é o desenvolvimento moral, e não o nome da família, cargo ou riqueza.

Caridade? e humildade são apresentadas como os verdadeiros títulos de nobreza. A mensagem também reconhece a dignidade de quem enfrenta pobreza e grandes responsabilidades familiares sem perder a confiança e a capacidade de amar.

A quem trabalha muito e possui poucos recursos, a mensagem oferece esperança e pede que não confunda a aparência de felicidade dos outros com a realidade completa de suas vidas.

Roupas bonitas, festas e riqueza não revelam o que uma pessoa sente por dentro. Quem parece viver sem problemas pode carregar dores que não aparecem. Por isso, a comparação social quase sempre parte de uma visão incompleta.

A mensagem pede que, mesmo diante de injustiças e calúnias, a pessoa não esqueça que também possui imperfeições. Perdoar e responder sem ódio são apresentados como formas de caridade? e humildade.

A opinião das pessoas não define o valor moral de alguém. A mensagem convida a manter uma conduta correta mesmo quando houver críticas injustas, lembrando que humildade não é submissão à mentira, mas ausência de orgulho e desejo de vingança.

A referência ao bezerro de ouro é usada como comparação: mesmo sociedades instruídas podem criar novos “ídolos” quando colocam dinheiro, poder, aparência ou interesses pessoais acima dos valores espirituais.

A mensagem afirma que os ensinamentos de Jesus podem ser deformados quando cada pessoa adapta Deus aos próprios interesses. O convite é voltar ao exemplo de amor, humildade e caridade?, em vez de usar a religião para justificar paixões pessoais.

Faça o bem sem transformar a ajuda em espetáculo. Trabalhe para diminuir o próprio orgulho e pratique uma fé que apareça nas atitudes. Essa é a proposta de um cristianismo vivido e não apenas declarado.

A mensagem imagina uma humanidade reunida como uma grande família, com corações mais humildes, solidários e preparados para uma nova etapa de progresso moral.

Conhecimento científico e riqueza material não bastam quando faltam bondade e responsabilidade. A conclusão é um convite para que a evolução intelectual seja acompanhada de evolução moral.

Adolfo, Bispo de Alger - Marmande, 1862

12. Homens, por que lamentam as grandes tragédias que vocês mesmos acumularam sobre suas cabeças? Desprezaram a santa e divina moral do Cristo: não fiquem, pois, admirados, de que a taça da injustiça tenha transbordado por toda a parte. O mal-estar se torna geral. A quem responsabilizar, senão a vocês mesmos, que procuram sem cessar destruir-se uns aos outros? Não podem ser felizes, sem mútua bondade. E como a bondade pode coexistir com o orgulho? O orgulho! Está aí a fonte de todos os seus males.

Concentrem-se, pois, à tarefa de destruí-lo, se não quiserem perpetuar as suas prejudiciais consequências. Um só meio se oferece a vocês para isso, mas este meio é infalível; o de tomar por regra invariável de sua conduta a lei do Cristo, lei que têm repelido ou falseado em sua interpretação. Por que têm em tão grande estima o que brilha e encanta os olhos prejudicando o que toca o coração?

Por que o vício que se desenvolve na riqueza é o objeto de sua reverência, enquanto só têm um olhar de desprezo para o verdadeiro mérito, que se oculta na obscuridade? Quando um rico pessoa de vida sem responsabilidade, perdido de corpo e alma, se apresenta em qualquer lugar, todas as portas lhe são abertas, todas as atenções são focadas nele, enquanto que, com muita dificuldade, se concede um gesto de proteção ao homem de bem que vive de seu trabalho.

Quando a consideração que se concede às pessoas é medida pelo peso do ouro que elas possuem, ou pelo nome que trazem, que interesse podem ter essas pessoas em se corrigirem de seus defeitos?

Seria totalmente diferente, se o vício dourado fosse fustigado pela opinião pública, como o é o vício andrajoso; mas o orgulho é compreensivo com tudo o que favorece. Século de ganância e dinheiro - dizem. Sem dúvida! Mas por que deixaram as necessidades materiais sobrepujar o bom senso e a razão? Por que cada um quer elevar- se sobre o seu irmão? Hoje, a sociedade sofre as consequências. Não esqueçam que um tal estado de coisas é sempre um sinal de decadência moral.

Quando o orgulho chega aos últimos limites, é indício de queda próxima, pois Deus pune sempre os orgulhosos. Se os deixa subir, algumas vezes, é para lhes dar tempo para refletir e de emendar-se, sob os golpes que, de tempos em tempos, desfere em seu orgulho como advertência. Mas, em vez de se curvarem, eles se revoltam. Então, quando a medida está cheia, Ele a vira completamente, e sua queda é ainda mais terrível, quanto mais alto tenham se elevado.

A mensagem convida a humanidade, ainda muito marcada pelo egoísmo, a olhar para a experiência espiritual como lembrete de que fama, vaidade e honras sociais duram pouco diante de uma existência muito maior.

Na vida espiritual, a verdadeira grandeza seria medida pelo amor e pela caridade?. Quem abusou do poder teria de reaprender humildade; quem serviu e amou sinceramente teria construído valores duradouros.

Missão do homem inteligente na Terra

Ferdinando, Espírito Protetor - Bordeaux, 1862

13. Não transforme conhecimento em motivo de orgulho. Mesmo pessoas muito inteligentes conhecem apenas uma pequena parte da realidade e continuam tendo o que aprender.

Se alguém recebeu oportunidades para desenvolver sua inteligência, a mensagem considera que esse conhecimento traz responsabilidade: deve ser usado para ajudar outras pessoas a compreender, aprender e progredir também.

A inteligência é comparada a uma ferramenta. A ferramenta pode cultivar ou ferir; do mesmo modo, o conhecimento pode construir ou ser usado para humilhar, manipular e destruir. O valor moral está no uso que se faz dele.

Conhecimento bem utilizado pode ser uma grande contribuição para o futuro do Espírito. Quando é transformado apenas em orgulho, pode atrasar o próprio crescimento. A mensagem pede que inteligência e humildade caminhem juntas.

Nenhuma capacidade deve ser tratada como propriedade absoluta ou prova de superioridade. Toda habilidade pode mudar e toda oportunidade traz a responsabilidade de ser usada para o bem.

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